Imagina que alguém te entrega uma armadilha já montada, perfeita, sob medida pra acabar com o teu desafeto. Tudo que você precisa fazer é dar o último empurrãozinho. E aí, no instante exato em que a sua mão se mexe, a armadilha se vira e morde a mão de quem a montou. Você já parou pra pensar que talvez a maldade que a gente planeja pro outro tenha uma memória estranha, e que ela quase sempre lembra do caminho de volta, deixa eu te contar. Que é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda nem era o Buda, quando ainda estava se tornando o que viria a ser.
Nessas histórias ele aparece às vezes como gente, às vezes como bicho, e sempre carregando dentro de si uma virtude que ilumina o resto da cena, nesse aqui, ele aparece bem pequeno. Um menino, era uma vez uma aldeia perto da cidade de Benares, dessas aldeias de telhados baixos e quintais cheios de galinha, onde todo mundo se conhece pelo nome e pelos defeitos, vivia ali uma família comum gente honesta, e nessa família tinha um menino, um garoto franzino, de olhos vivos, do tipo que repara em tudo e fala pouco. Esse menino, no fundo das eras, era o Bodhisatta, o futuro Buda, ainda criança, ainda aprendendo a andar pelo mundo, mas já trazendo na alma uma calma que não combinava com a idade.
Agora, do outro lado da história tinha um homem, um homem feito, dono de terras, de gado, de gente trabalhando pra ele, e esse homem carregava no peito uma raiva velha, tinha um desafeto, um rival da mesma aldeia, alguém que ele odiava com aquele ódio antigo que já nem lembra direito como começou, só sabe que dói e que quer ver o outro no chão, ele queria matar o tal homem, mas queria fazer de um jeito que ninguém pudesse apontar o dedo pra ele, queria matar e sair limpo, e foi numa tarde dessas que ele teve a ideia, andando pela beira de um campo, ele viu enroscada na raiz de uma árvore, uma cobra, uma cobra das venenosas daquelas cuja mordida não perdoa, a serpente estava ali, recolhida, com a cabeça meio enfiada num buraco de cupim, quietinha, sem ameaçar ninguém, e o homem olhou pra ela e o coração dele se encheu de uma alegria torta, é ela, ele pensou, é essa cobra que vai fazer meu serviço, eu cutuco, eu enfureço, eu jogo ela no caminho do meu inimigo, e quem matou foi a cobra, eu nem estava lá, só que tinha um problema prático, o homem tinha medo, medo de chegar perto, de pôr a mão, de irritar o bicho e levar a picada ele mesmo, e foi aí que ele viu o menino passando pela trilha, descalço, carregando um feixe de gravetos, o Bodhisatta, o homem chamou o garoto com a voz mais doce que conseguiu fabricar.
- Ei menino, vem cá, olha, tem uma coisa ali naquele buraco, um passarinho, acho que um filhote preso, mete a mão lá e tira pra mim, vai, ser bonzinho, te dou uma moeda. O plano dele era cruel e simples, que o menino enfiasse a mão, que a cobra mordesse o menino, e que ele, o homem, pegasse a cobra já enfurecida pra usar contra o inimigo, e se o menino morresse no processo paciência, era só um garoto pobre, ninguém ia investigar. Mas o menino, esse menino, tinha o que os antigos chamavam de atenção, aquela presença de quem está inteiro no momento, sem pressa, sem cobiça, embaçando os olhos, ele não correu atrás da moeda, ele parou, olhou pro homem, olhou pro buraco, e alguma coisa não bateu, o tom muito doce, o sorriso muito largo, a pressa do adulto e mandar a criança fazer o que ele mesmo não fazia, o menino chegou perto, mas devagar, com cuidado, do jeito de quem foi criado perto da terra, e sabe que a terra tem bichos, e em vez de enfiar a mão de qualquer jeito, ele se abaixou e olhou, e viu, viu o brilho das escamas, viu a curva do corpo, viu que aquilo não era filhote de passarinho coisa nenhuma, era uma serpente.
E o menino entendeu, ali num relâmpago o tamanho da coisa que estavam tentando fazer com ele, então ele fez uma coisa que só faz quem tem a cabeça fria, ele não gritou, não fugiu correndo, não acusou o homem aos berros, ele pegou a cobra com técnica, do jeito certo, firme atrás da cabeça, do modo como gente do campo aprende a manejar serpente sem ser picada. E, com toda a calma do mundo, ele tirou a cobra do buraco e a jogou, e a sorte, ou a justiça das coisas, fez com que a serpente voasse direto em cima do homem, em cima de quem tinha armado tudo aquilo. A cobra, assustada, furiosa, caiu sobre o peito do homem e mordeu, cravou as presas naquele que já tinha escolhido como arma, e o veneno que era pra ser do inimigo correu nas veias de quem teve a ideia.
O homem caiu ali mesmo, na beira do campo, com o próprio plano enroscado no pescoço, e o menino, o menino ficou em pé, intacto, olhando aquilo com uma serenidade quase triste, ele não comemorou, não riu da desgraça à leia, ele só entendeu, mais fundo do que muita gente grande entende a vida inteira, que o mal que a gente prepara é uma flecha que conhece o nome de quem a soltou, agora, repara no que esse conto está dizendo, ele fala de uma lei silenciosa, que no budismo a gente chama de cama, a ideia simples, e ao mesmo tempo enorme, de que toda ação carrega uma semente, e que a semente do veneno não dá fruto doce, o homem não foi punido por um juiz, nem por um deus bravo lá no alto, ele foi alcançado pela forma exata do que ele mesmo construiu, a cobra que ele queria como espada virou a espada contra ele, e olha como isso ecoa no nosso tempo, a gente vive numa era em que ferir o outro ficou cômodo demais, você não precisa mais pegar a cobra com a mão, basta um comentário afiado de madrugada, uma fofoca repassada, um printe compartilhado pra humilhar alguém, uma armadilha montada por trás de uma tela onde ninguém vê o seu rosto, a gente terceiriza a maldade, igualzinho aquele homem quis terceirizar pro menino, acha que vai sair limpo, que o veneno fica só do lado de lá, mas não fica, cada vez que você arma alguma coisa pra derrubar alguém, você está pegando uma cobra, e a cobra não esquece a mão que a apertou, o recentimento que você cultiva pra ferir o outro vai te roendo por dentro muito antes de chegar nele, e tem o outro lado, que é o menino, a virtude dele não foi força, foi a tensão, foi não morder a isca, quantas vezes alguém te oferece uma moeda pra você enfiar a mão num buraco que você nem sabe o que tem dentro, te chamam pra entrar numa briga que não é sua, pra atacar alguém que você nem conhece, pra repassar uma raiva que não nasceu em você, o sábio é quem para, olha e enxerga a serpente antes de pôr a mão, aqui vai uma coisa pra hoje, pensa numa pessoa por quem você sente, agora aquela raiva antiga, e numa pequena vingança que talvez tenha passado pela sua cabeça, mesmo que disfarçada de comentário de indireta, de torcer pro mal, antes de pegar essa cobra, faz uma pergunta só, em silêncio, quem é que essa serpente vai morder de verdade, porque ela vai morder, e quase sempre, o veneno encontra primeiro o caminho de volta pra mão que a soltou, larga a cobra no chão, segue o teu caminho leve, é um peso a menos que você carrega, e é a tua própria mão que você protege.