Você está atravessando uma floresta, com fome e cansaço, e de repente em contra-beira do caminho potes cheios de água doce, mel, açúcar, frutas maduras, comida pronta, tudo abandonado, sem dono, parecendo um presente do céu? Você comeria? A resposta a essa pergunta, nesse conto, separa quem chega vivo do outro lado da floresta de quem fica caído ali, com um sorriso doce ainda no rosto e o corpo já frio, deixe-o te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era Buda, e estava só se tornando Buda, vida após vida, às vezes como homem, às vezes como animal, sempre aprendendo a viver com mais sabedoria.
A gente chama essa figura de Bodhisatta, o ser desperto em formação, e nessa história ele aparece como o chefe de uma caravana, um mercador experiente que tinha atravessado muitas estradas perigosas e aprendido, no couro, uma lição que ele agora levava no peito como quem leva um talismã, repara na cena. Era uma grande caravana de carros de boi, carregada de mercadorias, atravessando uma floresta extensa dessas que levavam dias e dias para vencer, o Bodhisatta ia na frente como chefe. E antes de entrar no trecho mais fechado da mata, ele juntou todo mundo, os carreteros, os ajudantes, os homens jovens e ansiosos, e disse uma coisa simples, quase boba de tão simples.
Ele disse, nessa floresta vivem espíritos, os jacas, que não atacam de cara, eles atacam pela doçura. Vocês vão encontrar, no meio do caminho, coisas gostosas, mel, melasso, açúcar, peixe, carne, frutas, água perfumada, flores, tudo largado ali, sem ninguém, parecendo sorte, pois eu digo a vocês, não toquem em nada, nada que vocês não trouxeram com as próprias mãos vai pra boca de vocês sem que eu primeiro veja e aprove. Combinado, todo mundo concordou, é claro, no começo é fácil concordar, difícil é manter quando a barriga ronca e o doce aparece, e o doce apareceu, lá pelas tantas no ponto mais fundo da mata, o Yaka armou sua acilada.
Sabe como, ele não veio com garras nem com gritos, ele veio com gentileza, espalhou pela estrada, num trecho lindo com sombra boa e brisa fresca, potes e mais potes daquelas iguarias todas, mel escorrendo, açúcar cristalizado, frutas que pareciam pintadas de tão perfeitas, e o veneno estava dentro misturado invisível dissolvido na própria doçura, o veneno doce deixado na estrada esperando uma boca apressada, uma parte dos homens da caravana parou de boca aberta, olha isso, que sorte a nossa, comida farta e de graça, os mais gulosos já estavam com a mão estendida, mas aí lembraram da palavra do chefe, alguns recuaram, outros não, tinham um grupo de homens mais novos, daqueles que acham que regra de velho é exagero de velho, que disseram entre dentes, o chefe é cuidadoso demais, isso aqui é só comida, quem vai deixar passar uma coisa dessas, e comeram, pegaram o mel, chuparam as frutas, beberam a água, e o conto não enfeita, morreram ali mesmo, o sorriso ainda na cara, o gosto bom ainda na língua, e a vida indo embora pela porta dos fundos, o iaca não precisou de violência nenhuma, a guloseima fez todo o trabalho, o bodhisatta, quando viu o que tinha acontecido, não gritou nem xingou ninguém, ele juntou os que sobraram, os que tinham segurado a vontade, e disse com uma calma triste, foi exatamente isso que eu avisei, o perigo dessa floresta nunca foi o que parece perigoso, foi o que parece presente, agora a gente segue, com mais cuidado ainda, e não toca em mais nada que apareça largado pelo chão.
E assim, o resto da caravana atravessou a mata inteira, saiu do outro lado em segurança, prendeu suas mercadorias e voltou para casa, vivos por causa de uma única coisa, souberam desconfiar da doçura fácil, agora repara no que esse conto está dizendo, porque ele fala da gente de um jeito quase incomodo de tão atual, a gente vive numa floresta cheia de veneno doce deixado na estrada, só que o nosso veneno não vem em pote de mel, vem em tela, vem naquela notificação que pisca prometendo prazer rápido, vem no compre agora, pague depois, no só mais um episódio, no essa promoção acaba em dois minutos, no doce digital que a gente leva a boca sem pensar, tudo desenhado pra parecer presente e parecer sorte e parecer de graça, e quase nada disso é de graça, o preço vem depois, dissolvido, invisível, igual o veneno do yaka, sua atenção, seu tempo, sua paz, seu dinheiro, sua noite de sono, a conta chega, só que devagar, pra você nem perceber que pagou, a virtude central aqui tem nome na tradição, é o que os budistas chamam de apamada, a vigilância, o cuidado atento, o não se deixar levar no automático, não é desconfiança à zeda da vida, é lucidez carinhosa, é ter dentro do peito a voz do chefe da caravana perguntando, antes de cada gole, isso aqui é mesmo um presente, ou é uma armadilha vestida de presente.
O Bodhisatta não foi um chato, ele foi alguém que amava as pessoas o suficiente pra pedir que esperassem, que olhassem, que não corresem pra boca o que entra fácil demais, e tem uma coisa fina nesse conto que vale guardar, os que morreram não eram pessoas más, eram só apressados, estavam com fome, viram o gosto, e acharam que esperar era perda de tempo, o conto não condena o desejo, ele só pede um intervalo, um segundo de pausa entre o ver e o pegar, é nesse segundinho que mora a diferença entre quem atravessa e quem cai. Aqui vai uma coisa pra hoje, hoje quando aparecer na sua frente o veneno doce e ele vai aparecer aquela compra por impulso, aquele scroll sem fim, aquele sim que você dá só pra não ter trabalho de dizer não, faz o que o chefe da caravana fazia, antes de levar à boca, pausa, respira uma vez e pergunta de verdade, isso é meu alimento ou é a isca de alguém, se for alimento coma com gosto sem culpa, mas se você sentir aquele cheirinho de doce fácil demais largado no seu caminho deixa passar, a floresta é longa, e quem desconfia da doçura na hora certa é quem chega vivo do outro lado.