Imagina que alguém te tira da floresta, te coloca numa caixa, te ensina a dançar na ponta de um pau pra divertir uma multidão e te dá um pouquinho de comida só pra você não morrer. E um dia, sem querer, esse alguém deixa a porta aberta. Você faria o quê? Voltaria correndo pra liberdade. Ou ainda ficaria com saudade da mão que te alimentava. E tenho uma pergunta mais difícil ainda escondida aí dentro. Quando você finalmente prova a liberdade de novo, o que você faz com a raiva de quem te prendeu? Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, e tava só atravessando vida após vida, juntando virtude, se tornando aos poucos aquilo que um dia ele seria.
Às vezes ele aparecia como rei, às vezes como mercador, às vezes como um bicho do mato. Nesse aqui, ele nasce macaco, um macaco numa cidade movimentada, num tempo em que andar pelas ruas era um espetáculo só. Esse macaco não era um macaco qualquer. Ele tinha sido capturado ainda jovem, por um encantador de serpentes, um daqueles homens que ganhavam a vida na praça, com uma cesta cheia de cobras e uma flauta que fazia as serpentes subirem e dançarem. O homem percebeu que o público gostava ainda mais quando tinha um macaco no número. Então prendeu o nosso macaco numa coleira, ensinou ele a fazer cambalhotas, a estender a mão pra recolher as moedas, a rodopiar quando a flauta tocava.
E a vida do macaco virou aquilo. O dia inteiro preso, a corda no pescoço, o estômago vazio mais vezes do que cheio, e a multidão rindo das suas piruetas sem nunca olhar pros seus olhos. Repara numa coisa, o macaco era inteligente, ele aprendia tudo rápido, fazia tudo certo, não era a falta de talento que o prendia, era a corda, e a corda, como toda a corda, dependia da atenção de quem segurava a ponta, passou um tempo, e o encantador de serpentes precisou viajar. Tinha um assunto numa aldeia distante, alguma coisa que ia tomar uns dias, então ele foi até a casa de um conhecido, um homem da cidade, e pediu um favor, toma conta do meu macaco enquanto eu não volto, trata ele bem, dá comida, dá água, ele é meu ganha-pão, e foi embora.
E aí aconteceu uma coisa pequena, dessas que mudam tudo, aquele homem, o guardião tratou o macaco com gentileza, olha que diferença, ele não pedia cambalhota nenhuma, ele simplesmente trazia frutas boas, a água fresca, deixava o macaco descansar a sombra, falava com ele com voz mansa, e numa dessas, num descuido bondoso, o macaco se viu solto, a corda afrochou, a porta abriu, e ele entendeu, num átimo, o que tinha diante de si, o telhado, a árvore, o muro, e depois o mundo inteiro, ele fugiu, subiu, saltou de galho em galho, atravessou os quintais, e em pouco tempo já estava de volta na floresta, no verde, no silêncio, na vida que era dele desde o começo.
Livre, finalmente livre, agora vem a parte que faz esse conto ser um jataca, e não só uma historinha de fuga, os outros macacos da floresta se juntaram em volta dele, curiosos, você sumiu faz tanto tempo, onde você esteve, como é a vida lá na cidade dos homens, conta pra gente, deve ser maravilhosa, com tanta comida, tanta gente, tanto barulho bonito, tinha um que de inveja na pergunta deles, como se a cidade fosse um lugar de fartura e festa, e o macaco, o bodhisatta, balançou a cabeça, ele podia ter mentido pra parecer importante, podia ter inventado glórias, podia ter cuspido todo o ressentimento que juntou em tantos dias de corda no pescoço, podia ter amaldiçoado o encantador, o público, a cidade inteira, mas ele não fez nada disso, ele só falou a verdade, com calma, não me perguntem pela cidade, lá eu não era ninguém, eu dançava preso na ponta de uma corda pra divertir gente que ria de mim e não me via, comia migalhas, vivia pra outro, esqueçam a cidade dos homens, aqui neste mato, com essas frutas e essa liberdade, é onde a gente vive de verdade, não troquem isso por aplauso nenhum, e pronto, ele não voltou, não ficou remoendo a raiva, não foi planejar vingança contra o encantador, não passou o resto da vida contando a história da sua humilhação, ele largou, voltou a ser macaco, de corpo e de coração, na floresta que era a casa dele, agora repara no que esse conto está dizendo, tenha ali duas virtudes andando juntas, e a gente costuma esquecer das duas, a primeira é saber reconhecer uma corda quando ela está no nosso pescoço, o macaco era esperto, aprendeu mil truques, mas nenhum truque era liberdade, e a gente faz isso o tempo todo, sabe, a gente fica tão bom em fazer as piruetas que o sistema pede, tão habilidoso em agradar, em performar, em recolher os aplausos, que confunde a habilidade de dançar na corda com estar livre, a cidade do conto é cada lugar que te dá migalhas e te pede o show inteiro, e quando a porta abre, quantas vezes a gente esita, com saudade da mão que alimentava, sem perceber que era a mesma mão que segurava a corda, a segunda virtude é mais sutil, e é o coração do Bodhisatta, ele saiu sem ódio, isso em palhe chama-se Cante, a paciência, a serenidade que não devolve o golpe, ele tinha todo o direito de odiar o encantador, mas ele entendeu que carregar esse ódio de volta para a floresta seria levar a corda junto, só que por dentro, o homem livre não é o que conseguiu fugir do dono, é o que conseguiu fugir do rancor contra o dono, hoje a gente vive numa cultura que confunde guardar mágoa com ter dignidade, que acha que perdoar é fraqueza, o macaco mostra o contrário, ele se solta duas vezes, da corda e do ódio, e só por isso volta inteiro para casa, aqui vai uma coisa para hoje, pensa numa corda sua, alguma coisa que você faz por hábito, por medo de perder a migália, mesmo sabendo que aquilo te diminui, pode ser um trabalho que te trata como número, uma relação que só te quer performando, um lugar onde você dança e ninguém te vê os olhos, e hoje, faz duas perguntas, na ordem do macaco, primeiro, isso aqui é liberdade ou é só uma corda que eu aprendi a achar bonita, e depois, a mais difícil, se eu me soltar, eu consigo ir embora sem levar o ódio comigo, porque sair com raiva é fugir carregando a corda, sair em paz é voltar para a floresta de verdade.