Já te aconteceu de tremer de frio no escuro, ver uma luzinha piscando ali na grama e correr à tela achando que era fogo, e quando você chega perto, descobre que não passa de um inseto. Aquela luz que parecia salvação não esquenta nada, não cozinha nada, não acende lenha nenhuma. Esse conto é exatamente sobre isso. Sobre confundir o brilho de um vaga lume com o calor de uma fogueira de verdade, deixe-o te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, mas estava caminhando para se tornar, a gente chama esse ser de Bodhisatta, o futuro desperto, e ele aparece nessas histórias hora como gente, hora como bicho, mas sempre carregando uma gota de sabedoria no meio do mundo.
Nessa aqui, ele nasceu como sábio de uma aldeia que ficava encravada numa região fria, perto da floresta, era um lugar onde as noites caíam pesadas, o vento descia da mata e entrava pelas frestas das casas como uma faca, as pessoas dormiam encolhidas e quem não tivesse uma boa fogueira por perto passava a noite batendo o queixo, o fogo ali não era luxo, era vida. Acontece que vivia naquela aldeia um grupo de homens jovens, fortes de corpo mas apressados de cabeça, gente que não gostava de esperar, que achava que pensar demais era perda de tempo, e numa dessas noites de frio cortante, eles estavam ao relento longe de casa, depois de um dia de trabalho na floresta, tremiam todos juntos abraçados, sem nada para acender, foi então que um deles avistou, no escuro, um ponto de luz, pequenininho, dourado, piscando entre as folhas, fogo, a ele gritou, pulando de pé, tem fogo ali, alguém deixou brasa acesa, e os outros, doidos de frio, nem questionaram, correram todos na direção da luz, quando chegaram, viram aquele brilho pousado numa folha, indo e voltando, hora aceso, hora apagado, era um vagalume, só um vagalume, mas repara o que a pressa faz com a cabeça da gente, em vez de olhar com calma e perceber que aquilo era um inseto, um deles disse, é fogo sim, está só fraquinho, a gente só para ele cresce, e começou a juntar folhas secas, gravetos, capim, e jogou tudo por cima do vagalume, e aí se ajoelhou, e começou a soprar com toda a força dos pulmões, soprava, soprava, o rosto vermelho, a barriga estufando e murchando, veio o outro e disse, você está soprando errado, deixa comigo, e soprou também, veio um terceiro, um quarto, a noite inteira, aqueles homens revezaram se soprando um monte de folhas mortas em cima de um bichinho que não tinha calor nenhum para dar, e o vagalume coitado, ou tinha voado embora ou estava ali piscando, sem entender porque tanta gente grande estava enchendo a cara dele de capim, de manhã, exaustos, roxos de frio derrotados, eles continuavam sem fogo, tinham gastado a noite toda num esforço enorme, mas era esforço jogado no lugar errado, foi quando passou por ali um homem mais velho, de cabeça calma, voltando para a aldeia, era o Bodhisatta, ele viu aquela cena, os rapazes ofegantes em volta de um montinho de folhas, soprando nada, e perguntou o que estava acontecendo, eles contaram, ainda convencidos, tem fogo aqui embaixo, sábio, a gente sopra desde a noite passada e ele não pega, o sábio chegou perto, afastou as folhas com cuidado, e mostrou para eles o vagalume, olha bem, disse ele, gentil, isso aqui não é brasa, é um inseto que carrega luz, mas não carrega calor, vocês podiam soprar mil anos que ele nunca ia acender uma fogueira, quem quer fogo de verdade procura na pedra, na madeira seca, sofrada com vontade, não numa luz que só brilha engana, e completou sem nenhuma aspereza, o problema de vocês não foi a falta de força, foi a falta de olhar antes de agir, agora repara no que esse conto está dizendo, ele não está rindo daqueles rapazes para humilhar, está apontando uma coisa que mora dentro de cada um de nós, a gente se cansa muito mais por mirar errado do que por mirar pouco, aqueles homens tinham fôlego de sobra, o que faltou foi um instante de atenção de discernimento, na tradição budista existe uma palavra bonita para isso, pana, a sabedoria que sabe distinguir o que é o que, saber separar a luz que aquece da luz que só pisca, e hoje em dia deixa o ser sincero com você, a gente vive cercado de vagalumes que parecem fogueiras, a tela do celular brilha a noite inteira piscando notificação, e a gente sopra e sopra, joga horas em cima daquilo achando que vai encontrar calor, companhia, sentido, mas no fim da noite a gente continua roxo de frio por frio, a próxima compra brilha como se fosse aquecer a vida, o próximo like, o próximo vídeo, a próxima conquista que prometem que dessa vez vai ser a brasa que faltava, e a gente sopra a vida inteira em cima de luzes que não esquentam ninguém, exausto, sem perceber que está alimentando um inseto e chamando de fogo, o budismo não te pede para parar de querer calor, querer aquecer o coração é humano e é justo, ele só te pede para olhar antes de soprar, para perguntar com calma, isso que eleando aquece de verdade, ou só piska, aqui vai uma coisa para hoje, da próxima vez que você se pegar correndo atrás de uma luzinha, antes de gastar sua energia soprando para um cese, faz a pergunta do sábio, isso é fogo ou é vagalume, se for daquelas coisas que só brilham na tela e te deixam mais cansado e mais frio depois, tira a mão, guarda seu fôlego e vai procurar o calor onde ele mora de verdade, num abraço, numa conversa, olho no olho, num silêncio em paz com você mesmo, porque A noite é curta demais pra passar inteira soprando capim em cima de um inseto.