Imagina que alguém te promete uma coisa do fundo do coração com a mão no peito. Promete ajudar, promete aparecer, promete ficar. E aí chega a hora. Você procura essa pessoa e ela, some, não atende, não responde, faz que não te viu. O que segura uma promessa em pé quando ninguém está olhando. Esse conto fala de uma coisa quietinha que mora dentro da gente e que, quando está viva, vale mais que qualquer juramento gritado em voz alta. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, vida após vida, lapidando o caráter.
Às vezes ele aparece como rei, às vezes como bicho, às vezes como um simples mercador na estrada e quase sempre o conto gira em torno de uma virtude. O nome desse aqui, em pali, é "Iri" e "Iri" é uma palavra difícil de traduzir num pingo só. A gente costuma dizer vergonha moral, mas não é a vergonha de passar mancada em público, de ser pego, de ficar mal na foto, é outra coisa, é aquela vergonha íntima, silenciosa, de fazer o errado mesmo quando ninguém ia ficar sabendo. É o tribunal que mora dentro do peito. Nessa vida o Bodhisatta era um mercador rico de uma grande cidade, homem de palavra, conhecido em toda a região não pela fortuna, mas por uma coisa mais rara, ele não dizia o que não ia cumprir.
E ele tinha um amigo, num reino distante, do outro lado das montanhas. Os dois nunca tinham se visto cara a cara. A amizade tinha nascido pelas mãos dos caravanheiros, dos viajantes que iam e voltavam, levando recados presentes notícias. Sabe como naquele tempo a confiança viajava devagar, de boca em boca? Pois é. Por anos eles trocaram gentilezas. Um mandava panos finos, o outro mandava especiarias, e em cada recado vinha sempre a mesma frase "Se um dia você precisar de mim, é só vir. A minha casa é a sua casa". Já aconteceu que o amigo do outro reino, o que vivia além das montanhas, caiu em desgraça.
Veio uma seca, depois uma desavença, e num piscar de olhos o homem que era próspero ficou sem nada. Aí ele lembrou. Lembrou do Mercador Rico, do amigo de tantos anos, daquela frase repetida em cada carta "A minha casa é a sua casa", e pensou "Pronto, tenho onde me apoiar, vou até lá". Depois, antes de fazer a viagem inteira, esfomeado e cansado, ele resolveu mandar à frente alguns dos seus servos, com um pedido humilde, que o velho amigo por favor mandasse um pouco de arroz, um pouco de grão, qualquer coisa pra aguentar até a chegada. Os servos cruzaram as montanhas, bateram a porta da casa grande e entregaram o recado.
E agora repara no que acontece. Porque aqui o conto fica fino, o Mercador Rico, o Bodhisatta, ouviu o pedido, e não respondeu com palavras. Não mandou recado de volta, não fez discurso, não jurou nada. Ele simplesmente abriu os celeiros, carregou as carraças de arroz, de óleo, de tecido, de tudo o que um homem precisa pra recomeçar uma vida. E mandou junto, no recado mais curto do mundo, só isto, venha, já está tudo pronto. Os servos voltaram com as carraças cheias, e quando o amigo, lá longe, viu aquilo chegando, a fartura toda, sem ele ter pedido a metade, ele entendeu o que tinha do outro lado das montanhas, ele entendeu que existem promessas que não precisam ser cobradas, que existe gente que cumpre a palavra não porque você está vendo, não porque vai ser elogiada, mas porque dentro dela existe uma coisa que não deixa fazer diferente.
E ele fez a viagem, e foi recebido como irmão, e recomeçou a vida. Mas o conto, na tradição, não para no final feliz. Ele faz uma pergunta, por que esse homem cumpriu? Quem estava cobrando ainda, o amigo estava longe, fraco, sem poder nenhum de exigir nada, seria tão fácil enrolar, mandar um pouquinho, dar uma desculpa, quem ia saber, e a resposta do conto é uma só, ir, a vergonha moral. Aquele homem não conseguiria se olhar por dentro se tivesse falhado com quem confiou nele, não era o medo do que os outros iam falar, era o que ele ia ter que carregar em silêncio sozinho, sabendo que tinha sido pequeno quando podia ter sido inteiro.
Agora, repara no que esse conto está dizendo para a gente hoje. A gente vive um tempo em que a régua virou o público, olha como funciona, a pessoa faz o bem, e filma, dou a hiposta, ajuda e marca o nome. E quando ninguém está olhando, quando não tem câmera, não tem plateia, não tem nada a ganhar, aí muita coisa simplesmente não acontece. A gente terceirizou a consciência para opinião alheia, só me seguro no caminho certo se tiver alguém vigiando, e o budismo aponta exatamente para esse buraco. Iri é o contrário disso, é a virtude que funciona no escuro, é você ser a mesma pessoa quando a porta está fechada e quando ela está aberta.
O amigo verdadeiro do título não é só o outro do outro reino, o amigo verdadeiro é esse guardião que mora dentro de você, essa vozinha que diz não, isso aí você não faz, mesmo que o mundo inteiro nunca fosse ficar sabendo, e tem uma delicadeza budista aqui que eu não quero deixar passar, ele não é se odiar, não é culpa que te esmaga, não é ficar se castigando, é o oposto do desprezo por si mesmo, é justamente porque você se respeita, porque você reconhece que tem uma dignidade ali dentro, que você não quer sujá-la, vergonha moral, nesse sentido é autocuidado, é zelo, é a gente tratar o próprio caráter como uma coisa que vale a pena manter limpa.
Aqui vai uma coisa para hoje, pensa numa promessa pequena que você fez essa semana e que ninguém vai cobrar, pode ser bobagem, você disse que ia mandar uma mensagem para alguém, que ia devolver uma coisa, que ia aparecer, algo que se você não fizer, ninguém vai nem reparar, faz, faz hoje em silêncio, sem contar para ninguém, sem postar, sem esperar agradecimento, cumpre só porque você prometeu, esse é o exercício do iri, agir certo no escuro, pelo simples fato de que, lá dentro, você não conseguiria se olhar de outro jeito.