Os meninos acusados e o sábio que os liberta

Budismo · Temporada 13 · Episódio 18 de 25 — em ordem cronológica

Dois meninos inocentes são condenados à morte, a aldeia clama por sangue. E se a única coisa entre a vida deles e a forca for uma pergunta?

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Transcrição

Imagine que um homem some sem deixar rastro. A vila inteira começa a procurar. E aí, num descuido, o dedo aponta para dois meninos que estavam por ali no dia errado, na hora errada. Não tem prova nenhuma. Só desconfiança, medo e pressa. E mesmo assim, esses dois meninos são presos, acusados de assassinato e levados para morte. Quem é que vai parar tudo isso a tempo? Deixa eu te contar. Esse é um dos de atacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando o Buda não era o Buda, ainda estava se tornando Buda e percorria muitas existências como Bodhisatta, às vezes como animal, às vezes como pessoa.

Nessa história, ele nasce como um homem de discernimento raro, daqueles que conseguem ver o que está embaixo da aparência das coisas. A história começa numa aldeia tranquila, dessas onde todo mundo se conhece pelo nome. Vivia ali um lavrador, um homem simples casado e com dois filhos pequenos, dois meninos que ainda nem entendiam o tamanho do mundo. O pai trabalhava a terra, a mãe cuidava da casa e a vida seguia naquele ritmo manso de quem planta e espera a chuva. Acontece que numa região vizinha morava um sujeito de Mahindole, um homem que tinha feito inimizades e que um belo dia desapareceu.

Sumiu. Ninguém sabia se tinha fugido, se tinha morrido, se tinha caído num rio, mas onde some uma pessoa? Repara, ela costuma sobrar muita imaginação e a imaginação quando se mistura com medo raramente procura a verdade. Ela procura é um culpado, foi o que aconteceu. Começaram a falar que o homem tinha sido morto e, como tudo precisa de um responsável, alguém lembrou que tinha visto os dois meninos do lavrador brincando perto do lugar onde o sujeito costumava passar. Só isso. Dois meninos brincando perto de um caminho, mas naquela vila assustada isso virou prova, virou certeza, virou sentença, os homens da aldeia, levados pela pressa e por aquela coragem estranha que a multidão dá pra quem sozinho não faria nada, prenderam os dois irmãos, amarraram os dois, acusaram os dois e decidiram que os dois iam pagar com a vida.

Os meninos choravam, juravam que não tinham feito nada, que nem sabiam do que estavam falando. Mas quem é que escuta a voz fina de uma criança quando a multidão já falou o que quer ouvir? A mãe se jogou no chão, entlorou, agarrou os pés dos homens, o pai tentou argumentar, tentou explicar, tentou lembrar a todos que aqueles eram só dois meninos, não adiantou, levaram os dois pelo caminho a fora, em direção ao lugar onde a sentença seria cumprida. A vila inteira foi atrás, naquele cortejo amargo que mistura curiosidade com crueldade. E foi nesse caminho o Bodhisatta. Naquela época ele era um homem conhecido pela sabedoria.

Não era rei, não tinha exército, não carregava título, nenhum que obrigasse os outros a obedecer. Tinha só uma coisa. A clareza de quem sabe parar e perguntar antes de agir. Ele estava passando por ali, viu tumulto, viu os dois meninos amarrados, viu o desespero da mãe. E em vez de seguir em frente como faz tanta gente que prefere não se meter, ele parou, perguntou, com calma, o que estava acontecendo. Contaram a toda, atropelada, cheia de dizem que parece que todo mundo sabe que. E o Bodhisatta foi fazendo as perguntas certas. Cadê o corpo do homem morto? Ninguém tinha visto o corpo nenhum.

Alguém viu os meninos fazerem alguma coisa? Não, só viram eles brincando. Tem alguma prova, qualquer prova, de que houve crime? Não tinha. Tinha medo, tinha pressa. Tinha um sumiço sem explicação. E tinha uns sentes prestes a morrer para acalmar a angústia de todo mundo. Aí o sábio falou uma coisa que fez a multidão imudecer. Ele disse mais ou menos assim. Vocês vão tirar duas vidas para punir uma morte que ninguém sequer provou que aconteceu. E se o homem voltar amanhã vivo pelos seus próprios pés, quem vai devolver a vida desses meninos? A pressa de hoje pode virar o arrependimento de uma vida inteira.

E foi exatamente o que se desenrolo. Pressionados pelas perguntas, alguns foram procurar uma verdade. E o tal homem desaparecido apareceu, vivinho. Não tinha morrido coisa nenhuma. Tinha só sumido por motivos dele. Os meninos foram desamarrados, devolvidos à mãe, que os abraçou como quem recebe alguém de volta da própria morte. E a aldeia ficou ali, de cabeça baixa, percebendo o tamanho do erro que quase tinha cometido com as próprias mãos. Agora, repara no que esse conto está dizendo. Ele fala de uma virtude que a gente quase não chama mais pelo nome. A presença de investigar antes de julgar.

Os budistas têm uma palavra bonita "kanti" que é essa firmeza tranquila de não se deixar arrastar pelo impulso pela raiva pela onda de todo mundo. O sábio do conto não salvou os meninos com força. Salvou com uma coisa muito mais rara. Ele se recusou a acreditar numa história só porque era a história mais fácil de acreditar. E olha como isso bate na gente hoje. A gente vive numa época em que o julgamento virou esporte instantâneo. Aparece um vídeo cortado, um boato bem contado. E em segundos a gente já condenou alguém. Compartilha, comenta, cancela. A multidão se forma na velocidade de um toque na tela.

E ela tem a mesma coragem covarde da multidão daquela aldeia. Cada um acha que como todo mundo está acusando, então deve ser verdade. Quase ninguém faz a pergunta do Bodhisatta. Cadê o corpo? Cadê a prova? Será que eu estou vendo o corpo? Ou só estou vendo medo? A gente esquece que do outro lado de uma acusação apressada quase sempre tem uma mãe se jogando no chão. Tem uma vida de verdade. Tem dois meninos amarrados que não fizeram nada além de estar no lugar errado, na hora errada, dentro da história errada que alguém inventou. Aqui vai uma coisa pra hoje. Da próxima vez que uma indignação rápida bater em você, daquelas que vêm prontas, concupado e tudo, segura o impulso de espalhar ou de condenar por uns dois.

Faz, em silêncio, as três perguntas do sábio. Tem prova mesmo ou só tem boato. Eu vi o fato. Ouvi a versão de alguém. E se eu estiver errado, quem é que vai pagar por isso? Se você não tiver respostas firmes pras três, não amarra ninguém. Espera. Investiga. O que às vezes a coisa mais corajosa que a gente pode fazer no meio da multidão é ser a única pessoa que com calma pede pra todo [Música]