Imagina que você sobe, palácio após palácio, ganhando cada vez mais, e em cada lugar uma voz gentil te avisa, pode ficar, mas não vá adiante, e você toda vez vai adiante. Até a hora em que a porta que você empurra não se abre para um prêmio, ela se fecha em cima da sua cabeça. Esse é o conto de um homem que tinha tudo o que precisava e que perdeu tudo justamente por não conseguir parar de querer mais. Deixa eu te contar. Esse é um dos de atacas. Os contos das vidas passadas do Buda, quando ele ainda estava se tornando Buda, vida após vida nascendo às vezes como pessoa, às vezes como animal, sempre aprendendo alguma virtude no caminho.
E nessa história, repara bem, o Bodhisatta, o futuro Buda, não é o protagonista que sofre. Ele é a divindade serena que observa, no fim, o que o desejo sem freio faz com um homem. O nome dele era Mitavinda, e essa é a última parte da história dele, o desfecho, o capítulo final de uma vida que foi sendo empurrada, degrau por degrau, pela mesma força que a gente carrega no peito todos os dias. Mitavinda era um homem que nunca se contentava, já tinha desperdiçado o que herdara, já tinha desobedecido a mãe, já tinha sido rude com os sábios. E por causa disso tudo, foi parar num barco no meio do mar.
O barco de repente parou, não havia vento contrário, não havia pedra, não havia nada, o barco simplesmente não andava, os marinheiros entenderam o sinal antigo, há alguém de má sorte a bordo, tiraram a sorte com pedaços de madeira, e por três vezes a marca caiu na mão de Mitavinda, então o puseram numa jangada, e o deixaram a deriva, e o barco livre dele seguiu viagem tranquilo. E aqui começa o estranho, a jangada de Mitavinda chega numa ilha, e nessa ilha há um palácio de cristal. Lá dentro, quatro mulheres espíritos, lindas, que viviam num ciclo, sete dias de prazer, sete dias de sofrimento, pagando uma antiga ação, elas o recebem, o tratam como um rei, e quando chega a hora do sofrimento delas, dizem, espera aqui, a gente volta em sete dias, e fica em paz.
Mas Mitavinda não fica, mal ela saem, ele entra na jangada de novo e segue o mar, achando que adiante deve haver coisa melhor, e havia mais, numa segunda ilha, um palácio de prata, e oito espíritos, na terceira, um palácio de joias, e dezesseis, na quarta, um palácio de ouro, e trinta e dois, em cada uma, mais beleza, mais prazer, mais riqueza, e em cada uma, a mesma coisa, elas pediam que ele esperasse, que ficasse, que o que ele tinha ali já era bom demais, e em cada uma, Mitavinda olhava pro horizonte e pensava, se aqui é assim, mais adiante deve ser melhor ainda, e partia de novo, repara no que está acontecendo.
Cada parada era maior que a anterior, o sujeito não estava fugindo da miséria, ele estava abandonando a abundância, a cada vez, ele tinha exatamente o que qualquer um sonharia ter, e a cada vez aquilo virava pouco no instante em que ele imaginava que poderia haver mais, até que ele chega numa última ilha, e lá não há palácio nenhum, há um homem, parado, e na cabeça desse homem gira uma roda de ferro afiada, cortando o couro cabeludo dele, sem parar, num sofrimento sem fim, mas Mitavinda, com os olhos já cegos de tanto querer, não vê uma roda de tortura, ele vê uma flor de lotos na cabeça do homem, acha lindo, acha que há um enfeite, uma coroa, mais um prêmio à sua espera, e pede, me dá essa flor de lotos, e o homem preso a roda só pergunta, sem alegria nenhuma, você quer mesmo? E Mitavinda diz que sim, no mesmo instante a roda de ferro salta da cabeça daquele homem, e pousa na cabeça de Mitavinda, e começa a girar, cortando, esmagando sem fim, porque aquela roda só passa de uma pessoa para outra quando alguém, movido pela cobiça a deseja, o homem antigo, livre, vai embora, e Mitavinda fica ali, com a roda triturando sua cabeça, pagando o preço de não ter conseguido parar, é nesse ponto que entra o Bodhisatta, o futuro Buda, que era a divindade que reinava sobre aquele lugar.
Mitavinda, no meio da dor, pergunta a ele, por que, eu tinha cristal, prata, joias, ouro, eu merecia mais, porque justo eu estou com essa roda, e o Bodhisatta responde, com calma, mais ou menos assim, você tinha quatro, e quis oito, tinha oito, e quis dezesseis, tinha dezesseis, e quis trinta e dois, e agora tem essa roda, ela é o tamanho exato do seu desejo que nunca diz chega, quem corre atrás do que cresce sem fim, encontra, no fim da corrida, a roda que gira sem fim, agora, repara no que esse conto está dizendo, empale, a coisa que destrói Mitavinda tem nome, é tanha, assede, o desejo que não se sacia bebendo, porque beber só aumenta assede, não foi um demônio que pôs a roda na cabeça dele, foi ele mesmo que pediu, a roda de ferro não é um castigo que cai de fora, é a forma que o querer sempre mais toma quando finalmente alcança a gente, e olha como isso é o nosso tempo inteirinho, a gente vive numa cultura que transformou nunca é suficiente em virtude, sobe de cargo, e o cargo de cima brilha mais, compra o celular, e o do ano que vem já está chamando, rola a tela, e tem sempre mais uma tela, cada palácio de cristal da nossa vida vira pequeno no segundo em que aparece um de prata no horizonte, e a gente igual a Mitavinda larga o que tem de bom na mão, sem nem aproveitar os sete dias de prazer que estavam ali, porque uma voz dentro diz, mais adiante deve ser melhor, e a roda que a gente acha que é lotos, a gente mesmo pede para colocar na própria cabeça, o contrário disso não é parar de viver, nem é não querer nada, é saber reconhecer quando o que você tem já é o palácio, é ouvir aquelas mulheres espíritos dizendo espera, fica, isso aqui já é demais, e pela primeira vez ficar, a virtude budista aqui é o contentamento, santo ti, que não é resignação triste, é a riqueza tranquila de quem percebe que tem o bastante, e por isso não precisa pôr a próxima roda girando, aqui vai uma coisa pra hoje, pensa numa coisa que você está perseguindo agora, um próximo nível, uma próxima compra, um próximo lugar que vai te deixar finalmente satisfeito, e faz uma pergunta honesta, o palácio anterior, o que você já tem, você chegou a aproveitar de verdade, ou já saltou dele de olho no seguinte, hoje, escolhe um palácio que já é seu, uma pessoa, um lugar, uma coisa boa que você anda atravessando, correndo, e fica nele os sete dias inteiros, sem olhar para o horizonte, porque o lotus e a roda de ferro têm exatamente a mesma aparência, a diferença é só uma, a roda é o que a gente pega quando não consegue dizer chega.