Imagina que alguém pequeno, frágil, sem casa, chega até você pedindo abrigo, e você de coração aberto diz "claro, fica aqui e cresce aqui comigo", e imagina que esse óspede tão miudo, com o tempo, vai te enrolando, te apertando, até tomar o seu lugar, você teria como saber, lá no começo, que estava abraçando o seu próprio fim, esse conto é sobre um abrigo dado com toda a boa vontade do mundo, e sobre o que cresce, devagarinho, dentro de uma bondade que não enxerga longe, deixa eu te contar, esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, vida após vida, juntando virtude, só que, dessa vez, ele não aparece como mercador, nem como rei, nem como macaco esperto, dessa vez o futuro Buda nasce como uma divindade da floresta, um espírito que mora numa árvore, e não numa árvore qualquer, numa palasa, a árvore de flores vermelhas ardentes feito brasa, que em certas épocas do ano parece pegar fogo de tão florida, era uma árvore grande, bonita, plantada num bosque tranquilo, e o Bodhisatta vivia ali, dentro dela, como seu espírito guardião, sentia o vento passar pelos galhos, via os pássaros chegarem e partirem, e era feliz com a vida simples de uma árvore, dar sombra, dar flor, deixar o tempo passar, um dia um passarinho veio pousar nos galhos da palasa, vinha de longe, e trazia na barriga uma semente que tinha comido em outro lugar, pousou, descansou, e deixou cair ali bem no meio dos galhos, no encaixe onde dois ramos se abriam, uma sementinha minúscula, uma semente de figueira, daquelas figueiras que a gente chama de matapau, a banhã, a estranguladora, o espírito da árvore viu a semente brotar, era só um broto verde, delicado, sem força nenhuma, agarrado ali no alto do tronco, coitadinho pensou o bodhissata, tão pequeno, tão sem jeito, que mal pode fazer uma coisinha dessas, e deixou ficar, deixou crescer, achou até bonito ter companhia, uma plantinha brotando dentro da sua copa, mas tinha um outro espírito ali perto, mais velho, que enxergava as coisas com mais cuidado, e esse outro espírito chegou junto do bodhissata e falou, com a voz séria de quem já viu muita coisa, escuta, essa semente que brotou aí na sua árvore, eu conheço a casta dela, isso não é hóspede, é praga, isso é matapau, hoje é um broto que você segura na palma da mão, mas essa figueira não cresce pra cima, ela cresce pra baixo, ela desce raízes pelo seu tronco, abraça você por fora, e vai apertando, ano após ano ela engrossa, ela enlaça, ela rouba a sua luz, ela suga a sua seiva, e um dia quando ela estiver forte e você estiver ouco por dentro, ela vai te partir ao meio, arranca isso agora, enquanto é só um fiozinho verde, arranca hoje que amanhã não dá mais, mas o bodhissata, naquela vida, ainda estava aprendendo, e o coração dele era mole de um jeito que confunde bondade com não fazer nada, ele olhou pro brotinho tão frágil e disse, ah, mas é tão pequeno, como é que eu vou arrancar uma coisa que mal se segura na vida, deixa ele crescer, tem espaço pros dois, não custa nada a brigar, e não arrancou, os anos passaram, e aconteceu exatamente o que o velho espírito tinha avisado, a figueirinha frágil virou uma figueira robusta, as raízes que eram fios viraram cordas, e as cordas viraram troncos, descendo pela palasa, abraçando ela toda, espremendo, a copa do matapau foi subindo, tomando o céu, fechando a luz que antes era da palasa, e lá embaixo por dentro, a palasa foi mingando, foi secando, foi ficando oca, as flores vermelhas que um dia incendiavam o bosque, foram rareando, até quase não vir mais nenhuma, até que num dia de vento forte, a árvore que tinha dado a briga se partiu, e o espírito que morava nela ficou sem casa, agora repara no que esse conto está dizendo, porque ele é mais sutil do que parece, a primeira vista parece um conto contra generosidade, e não é, o budismo não está te pedindo pra fechar a porta, pra desconfiar de todo o broto que pede pôso, a virtude aqui é mais fina que isso, é a sabedoria de enxergar a natureza das coisas a tempo, de saber a diferença entre o que merece a briga e o que por mais frágil que pareça hoje, carrega dentro de si a semente de te destruir amanhã, porque a palasa não foi destruída por maldade, foi destruída por uma bondade que não quis dar trabalho, reparou que arrancar o broto pequeno do ia, parecia cruel, parecia exagero, e empurrou a decisão pra frente, deixa pra depois, é tão pequeno, e é exatamente assim que as coisas que nos consomem entram na nossa vida, nunca chegam grandes e ameaçadoras, chegam minúsculas, chegam frágeis, chegam tão sem importância que parece ridículo se preocupar, e a gente vive cercado disso hoje, o hábito que começou como um descansinho de cinco minos celular e foi virando o dono das suas noites, a mágoa que era um espinho pequeno e que você deixou crescer até virar um muro, a pequena mentira confortável, o pequeno vício, a pequena dívida, a pequena permissão que a gente dá pra uma coisa errada porque, naquele tamanho ela ainda não assusta, a gente é a palasa o tempo todo, dizendo é tão pequeno, deixa crescer, tem espaço, não custa nada, e custa, custa o tronco inteiro, lá na frente, e tem mais.
O velho espírito da floresta avisou, avisou claramente na hora certa com carinho, quase sempre tem um aviso, quase sempre tem alguém, ou alguma voz dentro da gente dizendo arranca isso agora que ainda é fácil, e a parte difícil da sabedoria não é receber o aviso, é ter a firmeza gentil de agir nele enquanto a coisa ainda é um fiozinho verde, e não esperar virar tronco. Aqui vai uma coisa pra hoje, pensa numa coisa pequena na sua vida que você sabe, lá no fundo que está descendo raízes, um hábito, uma relação que te aperta, um pensamento que te enlaça, qualquer broto que ainda é pequeno mas que você já sabe a casta dele, e faz hoje, ainda hoje, o pequeno gesto de arrancar enquanto é fácil, não precisa ser violento, pode ser só uma noite sem o celular na cama, uma conversa franca, um pedido de desculpas, um limite dito em voz baixa, porque a bondade verdadeira, repara, não é deixar tudo crescer dentro de você, é ter a clareza de proteger a árvore que você é, enquanto ainda dá tempo.