Imagina que o homem que matou seu pai e sua mãe está dormindo na sua frente, em defeso, e você tem uma espada na mão. Ninguém vai saber. Ninguém vai te culpar. Você abaixa a lâmina, e se eu te dissesse que a resposta certa, nesse conto, não é a que ferve dentro do peito. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, vida após vida, hora como homem, hora como bicho, juntando aos poucos as virtudes que um dia o despertariam. Nessa história, o Bodhisatta, o futuro Buda, nasce como um príncipe, e o que ele faz com a espada na mão é o coração inteiro deste conto.
Era uma vez um rei chamado Digit, que reinava num pequeno reino com a sua esposa, a rainha, e governava com brandura. Acontece que um rei vizinho, poderoso e ambicioso, o rei Bramadatta de Kashi, marchou com um exército grande sobre aquele reino pequeno. Digit olhou para a diferença de forças e entendeu uma coisa que poucos governantes entendem, que defender um trono à custa de um banho de sangue numa guerra que ele ia perder de qualquer jeito não valia o preço. Então ele não lutou, pegou a rainha pela mão, e os dois fugiram desfarçados, como gente comum, e foram morar escondidos numa cidadezinha, na casa de um oleiro, vivendo de pouco, sem ninguém saber que ali, naquela casa de barro, morava um rei.
Foi nesse esconderijo que nasceu o filho deles, um menino e o pai, que era sábio, deu a ele um nome, e mais do que o nome, deu uma lição que ele ia guardar para sempre. Mas isso a gente vê daqui a pouco. O menino cresceu, era esperto, gentil, e o pai cuidou de mandá-lo estudar fora, longe, para que ficasse seguro. E foi bom que ficasse, porque um dia um homem que conhecia o antigo rei o reconheceu, ali na cidadezinha, vivendo como pobre, e correu, trai sueiro, contar ao rei Brahmadatta que o rei deposto estava vivo e escondido bem debaixo do seu nariz. Brahmadatta não teve piedade, mandou prender de Git e a rainha, e ordenou que os dois fossem amarrados, expostos pela cidade, e executados em praça pública, para servir de exemplo.
Levaram o casal pelas ruas, com as mãos atadas nas costas, e foi nesse momento, repara, que o príncipe voltou. O rapaz tinha vindo procurar os pais, e os encontrou ali, amarrados, sendo arrastados para a morte. O sangue dele gelou, mas o pai, mesmo amarrado, mesmo a caminho do cada falso, o viu no meio da multidão, e não pôde correr até ele, nem abraçá-lo, nem chorar com ele. Tudo o que pôde fazer foi falar, em voz alta, como quem fala sozinho, mas falando pro filho, sabendo que só ele ia entender. E o que ele disse foi isto, meu filho, não enxergue longe demais, e não enxergue perto de mais, pois o ódio não se acalma pelo ódio, o ódio só se acalma pela ausência de ódio.
Frase estranha pra um homem indo morrer, né? Não enxergue longe demais, não enxergue perto demais. O filho guardou aquilo no peito sem entender direito, como a gente guarda as últimas palavras de quem a gente ama, e viu, sem poder fazer nada, os pais serem mortos ali, na frente de todo mundo, a partir daquele dia, o que crescia no coração do rapaz era uma coisa só, vingança. Ele jurou que ia matar brama data, e foi atrás disso com paciência fria, conseguiu aos poucos entrar a serviço do palácio do rei, trabalhou, foi competente, foi cativando, tocava música, era hábil, agradava, subiu, ganhou a confiança do próprio homem que tinha mandado matar seus pais.
Até que um dia o rei o levou consigo pra uma caçada na floresta, e os dois acabaram se separando do resto da comitiva, só os dois, no meio do mato. Ninguém por perto, o rei, cansado, deitou a cabeça no colo do rapaz e dormiu, dormiu confiando nele. E o príncipe olhou pra aquele rosto adormecido e pensou, é agora, toda a comitiva longe, a espada na cintura. O homem que tirou tudo dele em defeso no seu colo, ele sacou a lâmina, e aí repara no que aconteceu dentro dele. Num instante em que ia disferir o golpe, as palavras do pai voltaram, não enxergue longe demais, não enxergue perto demais.
E de repente ele entendeu, não enxergue perto demais, era isto, não se prenda só na dor de agora, na sede de vingança que cega, e não enxergue longe demais, era, pensa onde isso vai dar. Porque se ele matasse o rei, os homens do rei iam caçá-lo e matá-lo, e os homens dele iam vingá-lo, e assim por diante, ódio puxando ódio sem fim. O ódio não se acalma pelo ódio, e ele baixou a espada, mas o rei acordou de sobressalto, assustado, dizendo que tinha sonhado que o filho do rei de Kit vinha matá-lo com uma lâmina. E o rapaz, então, segurou o rei pelos cabelos, ergueu a espada e disse, eu sou esse filho, você matou meus pais, esta é a minha hora, o rei, apavorado, implorou pela vida.
E o príncipe, olhando para ele, pediu também, poupe a minha, e os dois ali, um com a espada, e o outro de joelhos, fizeram uma promessa de não se matarem. Cada um poupou o outro, voltaram juntos para o palácio. E o rei, diante da corte, perguntou ao rapaz o que o pai dele tinha querido dizer com aquelas palavras na hora da morte. O príncipe explicou tudo, o ver perto, o ver longe, o ciclo do ódio que ele tinha decidido cortar com a própria mão que já segurava a espada. Bramadatta ouviu aquilo e ficou tocado até o fundo, pediu perdão, devolveu ao príncipe o reino dos pais, e ainda lhe deu a própria filha em casamento.
O ódio que parecia o único caminho, tinha se acalmado pela ausência de ódio. Agora, repara no que esse conto está dizendo. A gente vive num tempo que confunde perdão com fraqueza e vingança com justiça. Quem te bate, você bate de volta, não deixa barato, a internet inteira funciona assim. Alguém te ofende, você responde mais forte, ele responde mais forte ainda, e o fio vai crescendo, ódio puxando ódio, exatamente o que o velho rei avisou no último suspiro. A gente acha que descontar alivia, mas a vingança nunca devolve o que foi perdido. Ela só garante que a ferida continue aberta, em você e no outro, gerando mais feridas.
Os budistas chamam essa coisa de hantí, a paciência, a tolerância, a força de não revidar. E não é a força do covarde, repara, o príncipe tinha a espada na mão e o inimigo no colo. Não revidar, ali, era a coisa mais difícil e mais corajosa do mundo. Aqui vai uma coisa pra hoje. Pensa numa pessoa que te feriu e contra quem você ainda carrega aquela vontade de acertar as contas, de dar o troco, mesmo que pequeno, antes de descontar. Faz como príncipe, não enxergue perto demais, não fique só na dor de agora, e não enxergue longe demais, imagina onde a sua resposta vai parar, o que ela vai puxar depois.
E então escolha, só por hoje, não jogar mais uma acha nessa fogueira, porque o ódio não se acalma pelo ódio, ele se acalma quando alguém, com a espada na mão, decide baixar a espada.