O eremita que chora o cervo de estimação

Budismo · Temporada 13 · Episódio 22 de 25 — em ordem cronológica

Você se libertou do mundo, abriu mão de tudo que te prendia. Mas um filhote de cervo pode ser a sua maior prisão.

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Transcrição

Você passa a vida inteira aprendendo a soltar as coisas grandes, o dinheiro, a casa, a vaidade, o nome. E aí quando você já acha que tá limpo de tudo isso, repara que ficou preso por um fio fininho, quase invisível, num filhote de servo. Como é que um homem que abriu mão do mundo inteiro pode ser derrubado por um animalzinho de olhos doces? Deixa eu te contar, esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava no longo caminho de se tornar Buda, nascendo vida após vida, hora como gente, hora como bicho, sempre aprendendo alguma coisa sobre o coração humano.

E nessa história ele aparece de um jeito interessante, não como o protagonista que erra, mas como aquele que vê de fora e ensina, com a maior gentileza, o que precisa ser visto. Vamos lá. Tinha um homem que largou tudo. Era um homem comum, dessas pessoas que num dado momento da vida olham em volta e sentem que o barulho do mundo não cabe mais dentro do peito. Então ele fez o que poucos têm coragem de fazer, deixou a casa, deixou os bens, deixou as conversas de mercado e foi viver no Himalaya, na floresta, como eremita. Construiu uma cabaninha de folhas, comia raízes e frutas que a mata oferecia, bebia da água do riacho.

E ali, no silêncio, foi cultivando aquela calma que só vem quando a gente para de querer. Por um bom tempo, ganhou, o homem estava em paz, sem nada para guardar, sem nada para perder, ele acordava com os pássaros, meditava e o dia passava macio como água escorrendo, até que, numa manhã, aconteceu uma coisa pequena. Dessas que parecem nada, ele encontrou um filhote de servo. A mãe tinha morrido, sabe-se lá como, e o bichinho estava ali sozinho, tremendo, perdido no meio do corpo. Era miúdo, frágil, com aquelas perninhas finas que mal sustentavam o corpo, e o eremita, que tinha um coração bom, fez o que qualquer coração bom faria, pegou o filhote no colo, levou para a cabana, deu de beber, deu de comer, aqueceu, e o servo viveu.

Repara que até aqui não tem nada de errado. Cuidar de um ser em defeso é compaixão, é meta, é bondade pura. O problema, deixa eu te dizer, nunca está no cuidar. O problema está numa coisa muito mais sutil que está sendo por dentro, devagarzinho, sem fazer barulho, o que o eremita cuidou do servo. E depois passou a gostar do servo. E depois passou a precisar do servo. O bichinho cresceu, ficou bonito, daqueles servos de pelo lustroso e olhos enormes. Andava atrás do homem por toda a parte. Dormia perto dele, comia da mão dele. E o eremita, que tinha abandonado o mundo inteiro para não se prender a nada, se se prendendo, fio por fio, aquele animal.

Já não meditava direito sem pensar onde o servo estava. Já saía procurando quando o bicho demorava. O coração dele, que tinha aprendido a ficar quieto, voltou a bater no ritmo de fora, na presença do outro, na falta do outro. E aí veio o que tinha que vir. Um dia o servo, sendo o servo, fez o que os servos fazem. Foi pastar mais longe, se misturou com animais selvagens, comeu de uma planta que não devia. Ou simplesmente o tempo dele chegou. E morreu. O servo morreu. E o eremita desabou. Aquele homem que tinha deixado para trás família, riqueza, posição, tudo, sem derramar uma lágrima.

Esse mesmo homem agora chorava, inconsolável, debruçado sobre o corpo do animal. Chorava como quem perdeu o mundo. Tinha largado o oceano inteiro se afogando numa poça d'água. Largou a montanha e tropeçou numa pedrinha. Foi quando o Bodhisatta apareceu. Nessa vida o futuro Buda tinha nascido como saca. O Senhor dos Devas, aquele que do alto observa os seres e às vezes desce para dar uma palavra quando alguém de bom coração está prestes a se perder. E ele viu o eremita ali, prostrado, chorando o servo, jogando fora num instante tudo o que tinha levado anos para construir. O Bodhisatta se aproximou e jogou, não humilhou, não disse que vergonha, logo você.

Ele falou com a delicadeza de quem entende a dor antes de corrigir o erro. Disse, mais ou menos assim, não fica bem para alguém que escolheu viver sozinho, que escolheu soltar o mundo, ficar de luto deste jeito por uma criatura. Você deixou tudo para ser livre e agora se acorrentou de novo, não por uma fortuna, mas por um afeto e acordou com aquela verdade que dó e cura ao mesmo tempo. O luto não nasce do servo, o luto nasce do apego ao servo. Não foi a morte que te feriu foi o agarrar. Quem não se agarra não é arrancado. O eremita ouviu e acordou, enxugou as lágrimas, voltou para o silêncio da floresta e dessa vez aprendeu a amar sem grudar, a cuidar sem possuir, a deixar as coisas e os seres passarem pela vida como o vento passa pelas folhas, tocando tudo, segurando nada.

Agora, repara no que esse conto está dizendo, porque ele fala diretamente com a gente. A história não está condenando o amor. Cuidar do filhote era lindo. O budismo não pede que a gente vire pedra, frio, indiferente. A virtude é que é cante e é viveca. É a sabedoria de distinguir o afeto que liberta do apego que aprisiona. E o conto é honesto numa coisa que a gente esconde de si mesmo. A gente acha que se é um dos grandes prisões enquanto continua amarrado pelas pequenas. Pensa na nossa época. A gente fala muito em desapego. Faz faxina na casa, joga fora as roupas, lei livro sobre minimalismo.

Mas aí o celular cai no chão e o nosso coração para. A série favorita acaba e a gente sente um vazio absurdo. Alguém deixa de responder uma mensagem e o dia inteiro desanda. A gente largou montanhas e chorando pedrinhas. Construímos prisões fofas, cheias de afeto, de hábito, de pequenas dependências que nem percebemos e juramos que somos livres. O eremita somos nós. Toda vez que a gente acha que soltou tudo, tem sempre um servinho em algum canto segurando a outra ponta do fio. Aqui vai uma coisa para hoje. Escolhe uma coisa pequena de que você gosta de verdade sem culpa. Pode ser boa.

Um objeto, um hábito, aquele cafezinho da manhã e faz uma pergunta honesta. Se isso sumisse amanhã eu ficaria triste ou eu ficaria destruído. Tristeza é amor. Destruição é apego. Não joga fora a coisa. Só afrouxa o fio. Continua amando o seu servo. Cuida dele com todo o carinho. Mas amando de mão aberta do jeito que se ama o que a gente sabe que um dia vai partir. Porque tudo parte. E quem ama de mão aberta consegue, ao mesmo tempo, abraçar e deixar ir.