E se eu te dissesse que um rato pequeno, daqueles que a gente nem repara correndo no canto da parede, foi mais sábio do que um mestre cheio de títulos e cheio de fome de dinheiro. E se esse mesmo mestre, querendo enganar o rato, acabasse sendo o único enganado, deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, quando ele ainda estava se tornando Buda, vida após vida às vezes nascendo como gente, às vezes como bicho. Nessa história, repara só, o futuro Buda nasceu como um simples rato, um rato comum, sem nada de especial por fora, mas com uma coisa por dentro que a maioria das pessoas perde com o tempo, a calma de quem enxerga as coisas como elas realmente são.
E história acontece numa cidade onde vivia um mestre famoso, um professor de muita reputação, daqueles que ensinavam centenas de alunos que recitavam os textos antigos de cor, que sabiam discutir filosofia por horas a fio. As pessoas o respeitavam, os pais traziam os filhos de longe para estudar com ele, e por fora, ele parecia tudo o que um homem deveria querer ser, mas tinha uma rachadura nesse homem. E a rachadura era a ganância, por baixo de toda aquela sabedoria de boca, morava um coração que nunca achava que tinha o bastante, sempre faltava, sempre queria mais um pouco, mais uma moeda, mais um bem.
Pois bem, acontece que nessa cidade vivia também o nosso rato, o Bodhisatta. E esse rato, deixa eu te dizer, tinha um segredo, vivendo onde vivia, mexendo onde mexia, ele tinha encontrado, escondida na terra, uma única moeda de ouro, uma moeda que alguém, em algum tempo, havia perdido e nunca mais procurado. Para um rato, ouro não vale nada, não se come, não se aquece, não faz ninho, mas o rato, esperto do jeito que era, guardou a moeda. Ele sentia que aquilo, um dia, poderia ser útil de outro modo. E aconteceu de um mestre ganancioso descobrir. Não se sabe bem como, que aquele rato guardava uma moeda de ouro.
E aí repara na cabeça do homem trabalhando. Em vez de pensar que coisa curiosa, um rato com uma moeda, o que ele pensou foi, aquilo tinha que ser meu, mas o homem era esperto também. Ele não foi simplesmente atrás do rato com um pau, ele bolou um plano, um plano que ele achava genial. Ele pensou assim, vou fingir que sou amigo desse rato, vou conquistar a confiança dele, vou prometer proteção, comida, segurança. E quando ele estiver entregue, quando ele baixar a guarda, eu pego a moeda e se der, pego o rato também. Então o mestre se aproximou, falou macio, disse ao rato, com toda a doçura fingida do mundo.
Meu pequeno amigo, esse mundo é perigoso para um rato sozinho, tem gatos, tem corujas, tem gente má, vem comigo, eu te dou abrigo, eu te dou comida, eu cuido de você, a gente vai ser parceiro. Agora, o rato ouviu tudo aquilo, e aqui está o coração do conto. O rato não respondeu na hora, não se ofendeu, não saiu correndo apavorado. Ele apenas olhou para aquele homem e fez, por dentro a pergunta mais simples e mais poderosa que existe. Por quê? Por que de repente um mestre tão grande, tão importante, está interessado num rato? O que mudou? O que esse homem ganha com isso? E a resposta veio clara, como água.
Nada havia mudado no rato. O que mudou foi que o homem soube da moeda. A bondade dele não era bondade, era anzol com isca de carinho. O rato, então, fez uma coisa linda. Ele não acusou o homem, ele não brigou, ele simplesmente entendeu o jogo e jogou melhor. Ele aceitou a oferta por fora, todo gentil, mas por dentro ficou desperto, vigilante, atento a cada passo e foi soltando a moeda em pedaços, devagar, de um jeito que mantinha o homem sempre esperando, sempre servindo, sempre cuidando, na esperança de receber o resto. O mestre que se achava o caçador, virou o caçado da própria armadilha.
Ele se viu trabalhando, alimentando, protegendo um rato, na ilusão de que estava prestes a lucrar. A ganância tinha colocado uma corda no pescoço dele e ele mesmo segurava a ponta, apertando. Quanto mais ele queria a moeda inteira, mais ele se rebaixava. Um mestre famoso, escravo de uma única moeda de ouro guardada por um rato e o rato. O rato seguiu tranquilo sem nunca ser pego, porque enxergou a verdade antes que a verdade o pegasse. No fim, quem tinha pouco e via claro saiu por cima. Quem tinha muito e via torto se enrolou nas próprias cordas. Agora, repara no que esse conto está dizendo pra gente.
Ele não está dizendo que toda gentileza é mentira. Não é isso e nem perto. Ele está apontando para uma coisa que a gente hoje vive esquecendo. Nem toda mão estendida quer te dar algo. Algumas querem te tirar algo. E a virtude do rato não foi desconfiança raivosa. Foi clareza serena. Em palia a gente fala de panhar, sabedoria e de sate. Atenção plena. É isso que o rato tinha. Ele não se fechou para o mundo com medo. Ele ficou acordado dentro do mundo e olha como a gente vive o contrário. No nosso tempo somos cercados o dia inteiro por gente sorrindo para gente na tela. Aplicativos que dizem "Estamos aqui por você".
Marcas que dizem "Fazemos parte da sua família". Pessoas que aparecem do nada, generosíssimas, bem na hora em que a gente tem algo que elas querem. E a gente, carente de atenção que é, muitas vezes engole o anzol inteiro, agradecido, só porque a isca veio com carinho. A gente entrega a moeda achando que ganhou um amigo. O conto também cutuca o outro lado, o lado do mestre, porque a ganância faz isso com a gente. Ela transforma uma pessoa grande numa pessoa pequena. O homem tinha sabedoria, alunos, respeito, uma vida inteira de valor. E trocou tudo isso pela obsessão por uma moeda. A gente faz o mesmo quando deixa o "Quero mais", "Governar" o "Já Tenho Bastante".
Vira escravo da coisa que acha que está conquistando. Aqui vai uma coisa para hoje. Pensa numa oferta que apareceu na sua vida recentemente parecendo boa demais. Alguém muito gentil de repente, uma promoção que caiu do céu, uma proposta que veio embrulhada em elogios. Antes de dizer sim, faz, em silêncio, a pergunta do rato. O que mudou para essa bondade aparecer agora e o que essa pessoa ganha se ao aceitar. Você não precisa ficar amargo nem desconfiado de tudo. Só precisa ficar acordado. Recebe a gentileza com o coração aberto, mas com os olhos abertos também. Porque a verdadeira sabedoria, como a do nosso pequeno rato, não é viver com medo do mundo.
É enxergar o mundo como ele é e mesmo assim seguir leve.