E se a pessoa por quem você abriu mão de tudo, num instante de aperto te largasse sozinho na beira de um rio, sem pensar duas vezes. E se no fim, ela também ficasse sem nada, nem com você, nem com o outro. Esse conto fala de uma mulher que troca um marido fiel por um sedutor de passagem e descobre, na pior das horas, que quem trai uma vez não tem onde se segurar. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas. Os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, ainda estava a caminho. Vida após vida, juntando virtude. A gente chama esse ser em formação de Bodhisatta.
Às vezes ele nasce rei, às vezes mendigo, às vezes bicho na floresta. Nesse aqui, ele nasce homem comum, um arqueiro. Mais um arqueiro de coração inteiro. O Bodhisatta tinha estudado lá em Takasila, a grande cidade dos mestres, e tinha aprendido a arte do arco até o último detalhe. Era hábil, era calmo, era do tipo que não desperdiça uma flecha nem uma palavra. Voltou para sua terra, casou com uma mulher, e a amava de um jeito que não media. Tudo o que ele tinha, ele punha aos pés dela. Tudo o que ele fazia, fazia pensando nela. Um dia, os dois precisaram atravessar uma região de floresta para chegar a outra vila.
Caminho longo, mato fechado, daqueles trechos onde o silêncio pesa. E foi nesse caminho que a desgraça apareceu na forma de um bandido. Um salteador grandalhão, desses que vivem da estrada, saiu de trás das árvores e barrou os dois. O arqueiro não recuou, pois a mulher atrás de si ergueu o arco e disparou, as flechas iam saindo certeiras, uma atrás da outra, e o bandido ia recuando. Mas repara, o arqueiro tinha um número contado de flechas. Cada flecha que voava, era uma a menos na hojava. E ele sabia disso, lutava com cuidado, gastando o que tinha com cabeça. Chegou um momento em que sobrou uma única flecha.
Uma só. E o bandido ainda estava de pé. O arqueiro, então, fez a coisa mais sensata que podia fazer. Gritou para a mulher que viesse por trás. Agarrasse o salteador, segurasse os braços dele, para que ele pudesse render o homem sem desperdiçar o último tiro, era pedir só um instante de força. Um abraço de gente que confia. E aqui o conto vira. Porque a mulher olhou para o bandido, olhou para aquele homem grande e forte, de presença bruta. E, num relâmpago do coração, decidiu que queria aquele estranho mais do que queria o marido que a defendia. Em vez de segurar os braços do salteador, ela se jogou de um jeito que prendeu os braços do próprio marido.
Travou o homem que a amava, para entregar de bandeja o homem que ia matá-lo. O bandido, claro, não perdeu a chance. Avançou e feriu o arqueiro de morte. O Bodhisatta caiu ali, ainda sem entender direito como o amor que ele tinha plantado pode dar um fruto tão amargo e morreu sabendo que a mão que o segurou foi a mão em que ele mais confiava. Pronto. Pensa você. Para a mulher fica com o seu salteador e vivem felizes. Não é assim que funciona. E o conto sabe disso. O bandido pegou a mulher e os pertences do morto e seguiu estrada. Mas, por dentro, ele já tinha julgado, pensava com seus botões.
Essa mulher entregou o próprio marido que a amava, por um homem que ela acabou de conhecer. No dia em que aparecer outro mais forte do que eu, ela me entrega do mesmo jeito. Não dá para confiar nessa companhia. Chegaram à margem de um rio cheio, daqueles de correnteza forte. O bandido então armou uma saída esperta e fria. Disse a mulher que ia atravessar primeiro com a trouxa de bens e com as roupas, para deixar tudo seco do outro lado, e depois voltaria para buscar-la. Ela que tinha acabado de trair por confiança cega, confiou de novo, entregou tudo, ficou na margem, só com o que vestia, esperando.
O homem atravessou, chegou no outro lado, olhou para ela parada ali na beira d'água, e não voltou, pegou os bens, pegou as roupas, e foi embora a rio adentro da própria vida, sem nem se despedir. A mulher ficou ali, na margem, sem marido, sem amante, sem nada. Tinha trocado um amor inteiro por uma fantasia, e a fantasia a abandonou na primeira curva do rio. Conta a tradição que, naquele momento de pasmo e vergonha, uma figura sábia que observava a cena, uma divindade da floresta, falou em voz alta o que estava na cara, que ela tinha o que tinha e perdeu, e correu atrás do que não tinha, e perdeu também.
Quem larga o que é certo correndo atrás do que reluz, costuma terminar de mãos vazias nas duas pontas. Agora, repara no que esse conto está dizendo, porque não é só sobre uma esposa de uma história antiga, é sobre uma fome que a gente conhece muito bem, a fome do que está logo ali, do novo, do que parece mais brilhante do que aquilo que já temos na mão. A mulher do conto não foi punida por ter desejado, foi colhida pela própria escolha de descartar a fidelidade no momento exato em que a fidelidade era a única coisa que importava, e a gente vive cercado de margens de rio. O nosso tempo é uma máquina de prometer o outro lado.
Tem sempre um aplicativo dizendo que existe alguém melhor a uma deslizada de distância. Tem sempre uma propaganda jurando que a sua vida, do jeito que está é pouca, e que a felicidade de verdade é aquela ali, na trouxa que o estranho está levando pro outro lado. A gente aprende a estar sempre de saída, sempre com um pé fora, sempre medindo se não tem coisa melhor adiante. E nesse cálculo eterno, esquece de honrar o que já se construiu. O budismo dá um nome bonito pra virtude que faltou nessa história. Sila, a integridade, o jeito reto de viver, que inclui a fidelidade e o não trair a confiança de quem se entrega a você.
E dá nome também pro veneno que move a mulher. A cobiça, o lôbia, esse puxão pra fora que nunca se sacia porque sempre vai existir uma trouxa mais brilhante do outro lado de algum rio. Quem vive correndo atrás do próximo brilho nunca está inteiro em lugar nenhum. Fica na margem, molhado, esperando uma volta que não vem. Aqui vai uma coisa pra hoje. Pensa numa relação, numa amizade, num trabalho, numa promessa que você fez e que, ultimamente, anda olhando com o canto do olho, meio entediado, meio fisgado por algo que parece melhor logo adiante. Antes de soltar a mão de quem te segura, faz uma pergunta simples.
O brilho do outro lado é real, ou é só a trouxa que vai sumir rio adentro no momento em que você ficar sem nada pra oferecer. Hoje, escolha de propósito uma coisa que você já tem, e ande costumando desprezar, e honra ela com um gesto inteiro. Um obrigado de verdade, uma presença sem o pé fora da porta. Porque a fidelidade não é uma corrente que te prende, é a única margem firme num mundo cheio de rios que prometem o outro lado e não te levam a lugar nenhum.