Imagina que alguém te abre a porta de uma casa cheia de comida boa todo dia sem cobrar nada. Quanto tempo até você esquecer que aquilo não é seu? E quanto tempo até a sua própria gula virar a corda que te amarra? Esse é o tipo de pergunta que separa, nesse conto, quem sai voando livre de quem termina pelado, depenado e morto numa lata de lixo. Deixa eu te contar. Esse é um dos Játakas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda e estava só caminhando, vida após vida, se tornando aquilo que um dia ele seria. Às vezes ele aparece como rei, às vezes como mercador, às vezes como sábio e, nessa história ele aparece como um pombo.
Um pombo simples, de penas cinzentas, que tinha aprendido uma coisa que muita gente grande nunca aprende, a viver dentro do que é seu. Repara na cena, numa cidade antiga, na casa de um homem rico, havia uma cozinha grande daquelas que vivem com o fogo aceso e o cheiro de comida no ar o dia inteiro. O cozinheiro daquela casa era um sujeito de bom coração, e, como acontecia no costume da época, ele tinha pendurado ali, num canto abrigado da cozinha, uma cesta de palha, era um ninho, um abrigo para os pássaros que quisessem entrar, descansar e passar a noite longe do frio e dos gaviões. E foi ali que morava o nosso pombo, o Bodhisatta.
De manhã cedo ele saía voando, ia para o campo, catava as sementes e os grãos que encontrava por aí, comia o que precisava, e a tardinha voltava para o seu cantinho de palha na cozinha, sem pressa, sem ganância. Ele nunca tocava na comida da casa, não porque alguém estivesse vigiando, mas porque ele sabia, no fundo, que aquela comida toda, aquele banquete que passava ali na sua frente o dia inteiro, simplesmente não era dele. Ele tinha o seu campo, tinha o seu suficiente, e isso bastava, até que um dia chegou o corvo. O corvo passou voando por cima da cozinha, sentiu cheiro da carne açando, do peixe, da gordura quentinha, e parou no ar como quem leva um tranco, mas que perfume é esse, pensou ele.
Ficou rondando, rondando, e viu o pombo entrando tranquilo pela janela, indo para o seu ninho. Esperou o pombo sair de novo, no outro dia, e foi atrás. Voou colado nele, o pombo gentil como era, virou e disse, "Amigo Corvo, por que você está me seguindo, a gente come coisas diferentes, eu como grãos e sementes, você vive de outras coisas, não vai dar muito certo a gente andar junto", e o Corvo, espertalhão, respondeu, "Que isso amigo, eu gosto da sua companhia, vou comer o que você comer", a gente combina, e o pombo, que não tinha maldade no coração, acabou aceitando. Mas você já adivinhou o que aconteceu, lá no campo, enquanto o pombo bicava os seus grauzinhos com calma, o Corvo fingia, espiava de canto de olho, e na primeira distração saía catando os insetos, os vermes o que fosse, não era a comida que ele queria, o Corvo só estava esperando uma coisa, voltar para a cozinha, era ali que estava o tesouro que ele tinha farejado, e voltaram juntos para o ninho.
O cozinheiro, vendo dois pássaros agora, achou graça, olha só, o nosso pombo arrumou um companheiro, e pendurou uma segunda cesta de palha, para o Corvo, de boa fé, como quem recebe um hóspede, agora vem o nó da história, num certo dia, chegou na casa uma carga de peixe fresco, bastante peixe, o cozinheiro deixou tudo arrumado na cozinha para preparar o banquete, e o Corvo, deitado no seu ninho, sentiu cheiro e pensou que ia enlouquecer, os olhos brilharam, a boca encheu d'água, ele não conseguia pensar em mais nada a não ser naquele peixe, quando deu a hora de sair para o campo, o Corvo começou a gemer, ai ai, estou passando mal, está doendo aqui na barriga, não consigo voar hoje, o pombo, preocupado de verdade, olhou para ele e falou, amigo, eu nunca vi Corvo com dor de barriga por excesso de grão, olha, eu te conheço, o que está te doendo é a vontade daquele peixe, aquilo não é nosso, é comida para os donos da casa, esquece esse peixe, vem comigo para o campo, vem comer o que é da gente, mas tem fome que não escuta conselho, o Corvo virou a cabeça para o outro lado e disse que ia ficar, o pombo suspirou, deu um último aviso e saiu voando sozinho para o seu dia normal, e aí o Corvo agiu, assim que o cozinheiro virou as costas, ele desceu do ninho, voou em cima do peixe e cravou o bico, e fez barulho, derrubou um prato, espalhou tudo, o cozinheiro se virou na hora, viu o Corvo enfiado na comida da casa e ficou furioso, pegou o Corvo com as duas mãos, e, para dar uma lição, arrancou todas as penas do bicho, esfregou nele uma pasta de gengibre e tempero ardido, amarrou um pedaço de barro para ele não fugir, e jogou ele de volta no ninho, pelado, ardendo, tremendo, quando o pombo voltou de tardinha e viu aquilo, sentiu pena, mas não pôde mais fazer nada, olhou para o Corvo depenado e disse baixinho, eu te avisei, você não quis a comida que era sua, quisa que não era, a sua gula tirou as suas penas, você não vai mais voar, e o Corvo sem forças, fechou os olhos ali mesmo e não resistiu, morreu da própria cobiça, e o pombo, vendo que aquele lugar tinha virado um lugar de morte, abriu as asas e foi embora, para nunca mais voltar, agora, repara no que esse conto está dizendo, com toda a delicadeza dele, os dois pássaros tinham acesso exatamente à mesma cozinha, a mesma fartura passava na frente dos dois, todo santo dia, a diferença não estava na comida disponível, estava no coração de cada um, o pombo sabia o que era seu e descansava nisso, o Corvo olhava para o que não era dele e não conseguia descansar em nada, e como isso parece com a gente hoje, a gente vive numa cozinha enorme, que nunca fecha, cheirando a coisa boa o tempo inteiro, é a vitrine, o fide que rola sem fim, a oferta que pisca na tela, a vida do outro escancarada para você sentir cheiro, o mundo moderno é um mestre em deixar o peixe fresco na sua frente e sussurrar, come, vai, você merece, isso podia ser seu, e a gente igualzinho ao Corvo, esquece que tem o nosso campo, esquece que existe um suficiente, acha que estar perto de algo já dá direito àquilo, e aí a gente belisca o que não é nosso, gasta o que não tem, deseja a vida que não é a nossa, e se amarra, a cobiça no budismo tem esse nome de Lóbia, essa sede que não mata a sede só aumenta, e o conto mostra a verdade dura e simples, não é o dono da casa que pune o Corvo, é a própria gula que arranca as penas dele, a prisão é construída por dentro, aqui vai uma coisa para hoje, pensa numa cozinha da sua vida, um lugar onde a fartura dos outros fica passando na sua frente, pode ser o aplicativo de compras, a rede social, a conversa onde todo mundo se compara, hoje antes de bicar faz a pergunta do pombo, isso é meu campo ou é o peixe da casa, se for o peixe da casa recua, respira e volta para o que de fato é seu, para o seu suficiente, porque liberdade esse conto está dizendo é poder dormir num ninho de palha com a barriga cheia do que é seu, e ainda ter penas para voar de manhã.