Imagina que você se perde na floresta, sozinho, sem comida, sem rumo, com a morte chegando devagar. E aí do meio das árvores, surge a criatura mais poderosa daquele lugar inteiro. Um elefante imenso, você fecha os olhos esperando o pior. Só que esse gigante, em vez de te esmagar, abaixa a tromba, te oferece água, te alimenta e te carrega nas costas por dias até a beira da estrada. Ele salvou a sua vida. Agora me responde uma coisa. O que você faria por alguém assim? Deixe-te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, vida após vida, aprimorando o coração.
Nesses contos, o futuro Buda, o Bodhisatta, às vezes aparece como pessoa, às vezes como animal, e nesse aqui ele aparece como um elefante, um elefante de uma brancura e de uma nobreza que a floresta inteira respeitava. Chamavam ele de Silava, o virtuoso, porque mesmo sendo o ser mais forte daquela mata, ele era o mais gentil. A história começa com um homem perdido, um morador da grande cidade que tinha entrado na floresta atrás de não sei o que e que de repente percebeu que não sabia mais o caminho de volta. Andou de um lado pro outro, gritou, chorou e nada. Os dias foram passando, a roupa rasgou nos espinhos, os pés sangraram, a fome apertou e ele começou a andar daquele jeito de quem já desistiu, só esperando cair.
Foi quando ele ouviu os passos pesados, o chão tremeu e o medo, sabe, o medo subiu inteiro pela espinha dele, um elefante branco enorme vinha na direção dele. O homem pensou, acabou, e saiu correndo o pouco que as pernas davam. Mas o elefante parou, repara, o Bodhisatta viu aquele homem fugindo e entendeu na hora. Aquele ser pequeno estava terrorizado, achando que ele era a ameaça, então o elefante fez a coisa mais difícil que um gigante pode fazer, ele recuou, ficou parado, quieto, mostrando que não ia atacar, e só quando o homem, exausto, parou de correr a que o elefante se aproximou bem devagar, com aquele cuidado de quem não quer assustar, ele levou o homem até aonde tinha água fresca, buscou frutas brotos macios, as coisas boas da floresta, e ofereceu.
Cuidou daquele estranho como se cuidasse de um filho, e quando o homem recuperou um pouco da força, o elefante se ajoelhou, deixou ele subir nas costas largas e caminhou, dia após dia, atravessando a mata fechada, até chegar perto da estrada que levava de volta a cidade. Antes de deixar o homem ir, o elefante fez um único pedido, e é um pedido que diz tudo sobre o coração dele. Ele falou, do jeito que os animais falam nos jatacas, "amigo, eu te levei até aqui, agora por favor não conte a ninguém onde eu vivo, não diga aos homens onde fica a minha floresta", ele não pediu ouro, não pediu recompensa, pediu só uma coisa, que o silêncio dele fosse respeitado, que a confiança não fosse traída, o homem prometeu, jurou, e foi embora, só que no caminho de volta, esse homem passou por um mercado da cidade, e lá ele viu os artesãos que trabalhavam com marfim, viu o preço que pagavam pelas presas de elefante, e uma vozinha começou a falar dentro dele, aquele elefante branco, as presas dele devem valer uma fortuna, eu sei exatamente onde ele está, eu poderia ficar rico, e aqui dói, porque a gente sabe o que vem.
O homem voltou para a floresta, achou o elefante, e o Bodhisatta, vendo aquele rosto que ele tinha salvado, se aproximou contente, achando que o amigo tinha vindo visitar, o homem disse que estava pobre, que precisava de marfim para sobreviver, e pediu, com a maior cara de pau, um pedaço das presas, e o elefante, sem hesitar, abaixou a cabeça e deixou que ele cerrasse a ponta das suas presas e levasse, o homem voltou outra vez, pediu mais, e o elefante deu mais, voltou de novo, e dessa vez pediu para arrancar as presas pela raiz, o que era arrancar parte da própria vida do animal, e o Bodhisatta, sofrendo mas sem fechar o coração, abaixou a cabeça mais uma vez e deixou, diz o conto que, na hora em que o homem deu as costas com o último marfim, carregando a traição como se fosse um troféu, a terra não aguentou, o chão se abriu sob os pés daquele homem e o engoliu, não foi o elefante que se vingou, o elefante não levantou a tromba contra ele uma única vez, foi o peso da própria ingratidão que o afundou, da agora repara no que esse conto está dizendo, devagar porque é fácil passar batido, a virtude central aqui não é só a generosidade, o dana, embora o elefante seja a generosidade pura, o que esse conto coloca o dedo em cima é a ingratidão, na visão budista, reconhecer o bem que recebemos, ser grato, é uma das marcas de uma pessoa nobre, e esquecer quem nos sustentou é considerado uma das raízes mais feias do coração humano, o elefante deu tudo, o homem pegou tudo, e ainda voltou para pegar o que não dava para repor, e olha como isso se parece com a gente hoje, a gente vive num tempo que é mestre em esquecer de onde vieram as coisas boas, a gente recebe um favor, e três dias depois já acha que conquistou sozinho, a gente come todo dia sem pensar na terra, na chuva, nas mãos que plantaram, a gente é carregado nas costas de tanta gente, dos pais, dos professores, de amigos que apareceram na nossa floresta quando a gente estava perdido, e com uma facilidade assustadora trata essas pessoas como recurso, como presa de marfinha ser explorada até a raiz, a gratidão virou uma coisa rara, e quando ela some, alguma coisa em nós afunda, igual aquele chão que se abriu, aqui vai uma coisa para hoje, pensa em uma pessoa que em algum momento foi o seu elefante, alguém que te carregou quando você não conseguia andar, que te deu água quando você estava seco, e que talvez nunca tenha pedido nada em troca, ou pediu pouco, hoje sem inventar grande coisa, manda uma mensagem para essa pessoa, diga, com nome e sobrenome, exatamente o que ela fez por você, e que você não esqueceu, não deixe a sua gratidão virar marfim cerrado no mercado do esquecimento, ou um requente salvou enquanto dá tempo de dizer obrigado.