A gratidão dos animais e a ingratidão do homem

Budismo · Temporada 9 · Episódio 73 de 150 — em ordem cronológica

Você salvou quatro vidas da morte certa, uma delas humana. Qual voltou para te agradecer? E qual, para te destruir?

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Transcrição

Imagina que você salvou a vida de quatro seres que estavam se afogando, três deles eram animais, um era um homem. Agora me diz, qual deles você acha que voltou pra te agradecer, e qual deles voltou pra te destruir? Se a sua resposta foi a óbvia, a que a gente esperaria, esse conto vem justamente pra virar ela do avesso. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, e estava trilhando o longo caminho de se tornar um. Nessas histórias ele aparece às vezes como gente, às vezes como bicho, às vezes até como uma árvore, e dessa vez ele aparece como um aceta, um homem que tinha largado tudo, e vivia sozinho às margens de um rio, dedicado à virtude e à meditação.

Repara na cena, as chuvas tinham vindo fortes naquele ano, e o rio que passava ali perto transbordou. As águas subiram, ficaram cor de barro, revoltas, e começaram a arrastar tudo que encontravam pela frente. E foi nesse rio bravo que, num certo dia, a correnteza trouxe quatro vidas penduradas pela última esperança. A primeira era uma cobra, enrolada num tronco que rodopeava na água. A segunda era um rato, encharcado, quase sem forças. A terceira era um papagaio, com as asas tão pesadas de água que já nem voar conseguia. E a quarta vida era um homem, um homem rico, um filho de mercador, que se debatia gritando por socorro no meio daquela fúria toda.

O Aceta, o nosso Bodhisatta, estava na sua cabana quando ouviu os gritos, e ele não pensou duas vezes. Pulou na água, nadou com força contra a correnteza e foi tirando um a um aqueles quatro seres da boca da morte. A cobra, o rato, o papagaio e o homem levou todos pra terra firme, acendeu uma fogueira, aqueceu primeiro os animais, que eram os mais frágeis, e só depois cuidou do homem. Alimentou todos eles, deixou que se recuperassem na sua cabana, e ali ficaram, todos juntos, até as águas baixarem. E aqui começa a parte que interessa de verdade. Quando chegou a hora de irem embora, cada um dos animais foi se despedir do Aceta à sua maneira.

A cobra se aproximou, baixou a cabeça com respeito, e disse, "Você me deu a vida de volta. Eu não tenho ouro pra te oferecer, mas eu sei onde tem. Tenho um tesouro enterrado num certo lugar. No dia em que você precisar, é só chamar pelo meu nome, e eu venho e te entrego tudo." E foi embora. Depois veio o rato, e o rato disse a mesma coisa, do seu jeitinho, "Mestre, eu também conheço um tesouro escondido perto da minha toca. Se um dia a necessidade bater na sua porta, me chame, e ele será seu." E sumiu na grama. Então o papagaio pousou no ombro do Aceta e falou, "Eu não tenho ouro, e nem sei de tesouro nenhum, mas eu tenho parentes espalhados por florestas inteiras.

Se um dia você passar fome, é só me chamar, e eu reúno os meus, e a gente traz pra você sacos e sacos do melhor arroz que existir." E levantou o voo. Por fim, chegou a vez do homem, o filho do mercador. E o homem também fez o seu juramento. Olhou pro Aceta e disse, com a voz mais sincera do mundo, "Você arriscou a sua vida pela minha. Eu nunca jamais vou esquecer isso. Se um dia você precisar de qualquer coisa, venha até a minha cidade. Procure pela minha casa, e tudo o que for meu será seu." E partiu, cheio de gratidão na boca. Passado um tempo, o Bodhista ta aqui expor a prova os corações daqueles quatro.

Não por ganância, veja bem, mas pra entender de que matéria cada um era feito por dentro. Foi até a cobra e chamou pelo nome. Na mesma hora a cobra apareceu, fez uma reverência, e disse, "Está aqui", e entregou um pote cheio de moedas de ouro, sem pestanejar. Foi até o rato, chamou, e o rato trouxe trinta moedas de ouro do seu esconderijo, oferecendo tudo o que tinha. Foi até o papagaio, chamou, e o papagaio, na mesma hora, mobilizou o bando inteiro, que voltou carregando arroz suficiente pra enxercar raças. E então o Aceta foi até a cidade, procurar o homem que ele tinha salvado. O filho do mercador estava agora ainda mais rico do que antes.

E quando viu de longe, aquele Aceta esfarrapado se aproximando da sua casa, sabe o que ele sentiu? Vergonha. E medo. Medo de que aquele homem viesse cobrar a dívida, viesse lembrá-lo de que devia a ele a própria vida. A gratidão tinha virado um peso incômodo. E o que pesa, a gente quer se livrar. Então o homem fez algo monstruoso. Em vez de receber o seu Salvador, ele o acusou. Apontou pra ele e gritou pros seus servos. Esse aí é um ladrão, um vagabundo que andou me roubando, pegue em ele e mandou que amarrassem o Aceta, que o espancassem e que o levassem pra ser executado. E o Bodhisatta, sendo arrastado pelas ruas, apanhando sem entender por que tanta crueldade não amaldiçou ninguém.

Ele apenas repetia, em voz alta, pra quem quisesse ouvir, uma única verdade. Ele dizia, era melhor ter resgatado um tronco de madeira boiando no rio do que ter resgatado aquele homem. A madeira, pelo menos, serviria de alguma coisa. O ingrato, esse só sabe morder a mão que o salvou. As pessoas da cidade ouviram aquilo e pararam pra perguntar o que ele queria dizer. Foi aí que o Aceta contou a história toda. A enchente, os quatro afogados, a cobra, o rato, o papagaio e o ouro e o arroz que cada bicho tinha trazido de volta por pura gratidão. E contou, por fim, como o único humano de todos eles tinha respondido àquela bondade com a forca.

A cidade inteira se voltou contra o mercador Ingrato, e o rei, ao saber do caso, mandou soltar o Aceta na hora. Cobriu ele de honras, e ainda o nomeou pra ensinar a verdade ao povo. O homem Ingrato foi punido e o Bodhisatta voltou em paz pra sua floresta. Agora, repara no que esse conto está dizendo. Não é só uma historinha de bicho bonzinho e homem mau. Os três animais não tinham quase nada, e mesmo assim devolveram tudo o que podiam. O homem tinha tudo, e justamente por isso a dívida pesou demais nele, porque pra quem se acostumou a calcular, a gratidão começa a aparecer um prejuízo, um saldo negativo que precisa ser apagado, e olha como isso ecoa no nosso tempo.

A gente vive numa cultura que mede tudo, que registra favores como quem registra boletos, que sente um certo desconforto quando alguém faz algo por nós de graça, porque aí ficamos devendo. A gratidão sincera, aquela que reconhece em voz alta e eu não cheguei aqui sozinho, virou quase um sinal de fraqueza. A gente prefere acreditar que se fez por conta própria, e aí sem perceber, vamos ficando parecidos com o filho do Mercador, cercados de tudo, e incapazes de dizer obrigado de verdade. Os budistas têm uma palavra bonita pra essa virtude que o conto celebra. Eles chamam de Katanyuta, que é o reconhecimento daquilo que foi feito por nós.

E ela vem sempre de mãos dadas com outra kata vedita, que é a vontade de retribuir, reconhecer e retribuir. Os animais tinham as duas, o homem não tinha nenhuma, aqui vai uma coisa pra hoje. Pensa numa pessoa que fez algo por você, alguma coisa que te tirou de um aperto, que te puxou da água e que você nunca chegou a agradecer de verdade, talvez porque ficou sem jeito, ou porque o tempo passou, ou porque admitir que precisou de ajuda mexe com o seu orgulho. Hoje, manda uma mensagem pra essa pessoa. Não precisa ser nada grandioso, só diga, com todas as letras, o que ela fez e o quanto aquilo importou, porque a diferença entre os animais e o homem desse conto não estava no que eles tinham, estava na coragem de reconhecer que foram salvos.