A lei das árvores: a união da floresta resiste ao vento

Budismo · Temporada 9 · Episódio 74 de 150 — em ordem cronológica

Você se vê como aquela árvore majestosa, forte e solitária no campo aberto? Prepare-se: um vendaval vai mostrar se a sua força é um escudo ou sua maior fraqueza.

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Transcrição

Imagina uma árvore enorme, sozinha num campo aberto, linda, imponente, com a copa cheia. Parece a mais forte de todas. Agora imagina um vendaval chegando. Qual você acha que cai primeiro, aquela árvore solitária e majestosa, ou as árvores miudas, espremidas umas nas outras dentro da floresta? A resposta a essa pergunta, nesse conto, é a diferença entre ficar de pé e ser arrancado pela raiz. Deixa eu te contar. Esse é um dos de atacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda e estava só atravessando vida após vida acumulando virtude. Nessas histórias, o futuro Buda, o Bodhisatta, aparece às vezes como gente, às vezes como bicho, e dessa vez ele aparece de um jeito que a gente quase nunca espera, como o rei de um povo de espíritos das árvores.

Vem comigo pra dentro dessa história. Conta-se que, há muito tempo, num reino lá no norte, vivia um rei dos devas, dos seres celestes, chamado Vesavana. De tempos em tempos, esse rei celeste mudava de posto, e quando um Vesavana partia e outro assumia o trono, saía um anúncio pelos quatro cantos do mundo. Todos os espíritos que quiserem, escolham agora a sua morada. Cada um pode tomar para si a árvore que desejar. Repara que momento delicado. Era a hora de cada espírito decidir onde ia morar, onde ia botar raiz, por assim dizer, pelo resto de uma longa existência. E nessa época nascia entre eles um espírito muito sábio, e esse espírito era o Bodhisatta.

O futuro Buda, ele era o rei daquele povo de espíritos das árvores. E como bom líder, ele juntou todos os seus e deu um conselho. Foi assim mais ou menos. Meus amigos, vocês vão escolher onde morar. Escutem o que eu tenho pra dizer. Não escolham as árvores grandes que ficam sozinhas, plantadas no meio do campo aberto. Lindas sim, mas isoladas. Escolham morar nas árvores que crescem juntas, em volta da minha, dentro da floresta, bem perto umas das outras. Alguns espíritos, os mais sábios ouviram, disseram, o nosso rei sabe das coisas. E foram morar ali, no meio da floresta serrada, em árvores que cresciam um ombro a umbro, raiz com raiz.

Mas teve um grupo, e olha, sempre tem, que torceu o nariz. Pensaram assim, ora, pra que a gente vai se enfiar no meio do mato, espremido com os outros? A gente quer espaço, a gente quer aparecer, a gente quer aquela árvore enorme e solitária, plantada no meio da aldeia, no meio da estrada, onde todo mundo vê. Aquela sim é digna de um espírito de respeito. E foram, contentes, cada um pra sua árvore solitária e magnífica, longe da floresta. Passou o tempo, e aí veio o que sempre vem, o tempo das chuvas, e com ele uma tempestade sem tamanho. Não foi um ventinho, foi um daqueles temporais que parecem querer arrancar o mundo do lugar.

O vento vinha enrajadas, batia, voltava, batia de novo, hora de um lado, hora de outro, sem dar trégua. E as árvores solitárias, aquelas grandes, orgulhosas, que estavam sozinhas no meio do campo. O vento bateu nelas com toda a força, não tinha ninguém ao lado pra segurar, não tinha galho de vizinho pra dividir o golpe. O vento sacudiu uma vez, sacudiu duas, e na terceira, com um estalo, lá se foram. Tombaram, cairam com tudo, copa, tronco, e a raiz inteira arrancada da terra, virada pra cima como se a árvore tivesse sido puxada por baixo. Acabou, os espíritos que moravam nelas coitados ficaram sem teto, sem casa, andando perdidos com suas famílias, sem saber pra onde ir.

E os outros, os que tinham escutado o rei sábio, e morado bem no meio da floresta, espremidos uns nos outros. Olha o que aconteceu. Quando o vento batia numa árvore, ela balançava, mas o vizinho do lado segurava. O vento empurrava de novo, e a outra firmava. As raízes embaixo estavam tão entrelaçadas, que era como se a floresta inteira fosse uma coisa só, um único corpo. O vento bateu, bateu, bateu, e não conseguiu derrubar nenhuma, nenhuma. A tempestade passou, e elas continuaram ali, de pé, juntas. Os espíritos perdidos, os que tinham perdido tudo, foram procurar o rei. E ele, sem nenhuma soberba, recebeu cada um.

E disse uma coisa que ficou guardada como uma lição. É isto. Aqueles que se afastam dos seus, que escolhem viver sozinhos achando que são fortes demais pra precisar de alguém. Esses ficam expostos, mas aqueles que vivem unidos, que ficam juntos, em harmonia, esses resistem ao que viria a derrubar qualquer um sozinho. Esta é a lei das árvores, e é também a lei de quem vive bem. A união protege, o isolamento expõe. Agora, repara no que esse conto está dizendo pra gente. A virtude aqui é a da união, da concórdia, daquilo que impalia a gente chama de samaji, a harmonia de quem vive junto e se sustenta um ao outro.

E olha como isso bate certeiro no nosso tempo. A gente vive numa época que vende o oposto disso o dia inteiro. Vende a ideia da árvore solitária no campo aberto. Seja independente. Não dependa de ninguém. Você se basta. Construa o seu império sozinho. A gente é ensinado a achar que precisar dos outros é fraqueza. E que aparecer sozinho, no meio do nada, bem visível, é sinal de força. Só que a tempestade vem. Ela sempre vem. Uma doença, uma perda, um baque na vida, uma dessas rajadas que ninguém escolhe. E é aí que a árvore solitária descobre, tarde demais, que não tinha ninguém do lado pra dividir o golpe.

A gente se orgulha tanto de não precisar de ninguém que, quando o vento bate forte, não tem raiz entrelaçada com raiz nenhuma. Tomba sozinha. E ninguém nem vê. A floresta é o contrário. Numa floresta, ninguém é a árvore mais bonita. Cada uma é só mais uma. Espremida sem olofote. Mas quando o vento vem, é a floresta inteira que segura cada uma. A força não está na árvore. Está no entrelaçamento. Aqui vai uma coisa pra hoje. Pensa numa pessoa da sua vida de quem você tem se afastado. Talvez sem nem perceber, achando que dá conta de tudo sozinho. Um amigo que você parou de chamar.

Um parente que você foi deixando de lado. Alguém da sua comunidade. Hoje, faz uma coisa pequena. Manda uma mensagem. Faz uma ligação. Marca um café. Não espere a tempestade chegar pra lembrar que você precisa de raiz entrelaçada com raiz. Cuide das suas árvores vizinhas agora, no tempo bom. Porque, quando o vento vier, e ele vem, é a floresta que vai te manter de pé.