O peixe-rei e o ato de verdade que traz a chuva

Budismo · Temporada 9 · Episódio 75 de 150 — em ordem cronológica

Você tem uma verdade inabalável para chamar de sua? Ela pode ser a única coisa capaz de mudar tudo.

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Transcrição

Imagina um lago inteiro secando debaixo do sol, a lama rachando, as plantas murchas e os peixes presos numa poça que encolhe a cada hora. As garças já estão pousando na beira, bicando-os que ficam de barriga para cima, e, no meio dessa poça, um peixe levanta a cabeça e decide falar com o céu. O que será que um peixe teria para dizer que fizesse a chuva voltar? Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, e estava só atravessando vida após vida aprendendo a ser bom. Às vezes ele aparecia como rei, às vezes como mendigo, às vezes como bicho.

Nessa aqui, ele era um peixe, o rei dos peixes de um lago. A história se passa numa época de seca brava, fazia tempo que não caia uma gota. O céu era uma chapa de metal aceso de manhã à noite, os rios baixaram, os açudes viraram poeira e um lago grande, que sempre tinha sido orgulho daquela região, foi mingando até virar uma poça de água parada no meio de um leito de lama escura. Os peixes que viviam ali estavam todos amontoados nesse último resto de água, e a água ainda diminuía. As garças e os corvos descobriram a festa, eles vinham de longe, pousavam na borda da lama e iam pescando, um por um, os peixes que não tinham mais pra onde fugir, era questão de dias até não sobrar nada.

No meio daquele povo aflito vivia o Bodhisatta, o futuro Buda, que tinha nascido ali como o maior e mais velho dos peixes daquele lago, ele era uma espécie de rei entre eles e repara que tipo de rei ele era, não um que mandava, mas um que cuidava, ele olhou para os seus, para os filhotes encolhidos na lama, para os velhos sem força de nadar, para o medo de todos, e o coração dele se apertou, não de medo por si mesmo, de compaixão por aqueles que dependiam dele, e aqui é onde o conto fica diferente de tudo que a gente esperaria. O peixe rei não montou um plano esperto, não cavou um canal, não chamou ninguém, não resou pedindo um milagre que viesse de fora, ele fez uma coisa que, na tradição budista, tem um nome e um peso enorme, ele fez um ato de verdade, em pálice de Sakakiriya, é quando alguém olha para dentro, encontra uma verdade absoluta sobre a própria vida, uma coisa que é real sem nenhuma falha e usa essa verdade como uma força, não é mágica de fórmula.

É a potência de uma vida que foi vivida com retidão, posta serviço dos outros no momento de necessidade. O peixe rei juntou o corpo, ergueu a cabeça acima da água lamacenta, olhou para o céu vazio e falou. E o que ele disse não foi um pedido, foi uma declaração do que era a verdade nele, ele disse mais ou menos assim, "Desde que eu me lembro de ter consciência, desde que eu nadei pela primeira vez nessas águas, eu nunca nenhuma vez comi outro peixe, nunca tirei a vida de um ser vivo, nem do menor, nem por fome, nem por descuido. Se isso é verdade, e é, que essa verdade chame a chuva, que ela cai agora e salve toda minha gente.

Pensa no tamanho disso, um peixe vivendo num lago, cercado de outros peixes, criaturas pequenas por toda parte, e ele atravessou uma vida inteira sem nunca ter machucado nenhuma. Num mundo onde peixe come peixe, ele tinha escolhido a fome antes da violência todas as vezes. Essa era a verdade que ele tinha guardado dentro de si sem nem saber que um dia ia precisar dela. E ela era impecável, era uma vida sem uma única mancha de crueldade. Diz o conto que, quando ele terminou de falar, o céu respondeu. Aquelas nuvens que tinham sumido por semanas se juntaram de repente, pesadas e escuras, e desabou uma chuva grossa, daquelas que enchem tudo.

O leito do lago foi se enchendo, a lama virou água de novo, os peixes que estavam quase mortos voltaram a nadar fundo, longe dos bicos das garças. O peixe rei tinha salvado o lago inteiro, não com força, não com esperteza, com a verdade limpa de uma vida bem vivida. Agora repara no que esse conto está dizendo. A força ali não veio de poder, nem de inteligência, nem de sorte, veio de integridade, de uma coerência tão completa entre o que o peixe acreditava e o jeito que ele tinha vivido, que essa coerência virou uma força no mundo. E é exatamente aí que a gente hoje anda tropeçando.

A gente vive numa época que aprendeu a aparecer. A gente cuida da imagem, escolhe a foto, escreve a legenda certa, mostra a versão editada da vida, e sabe construir, com muita habilidade, uma aparência de integridade sem ter a coisa por dentro. O peixe rei não tinha plateia, não tinha pra quem posar. A verdade dele não era pra ser vista, era pra ser vivida, e ela só funcionou porque era inteira por dentro, no escuro, onde ninguém olhava. Um ato de verdade não é uma frase bonita, é o que sobra quando ninguém está vendo e você continua sendo a mesma pessoa, e tem outra coisa. A gente costuma pensar que pra ajudar de verdade precisa de recurso, de influência, de uma posição de força.

O peixe estava preso numa poça de lama, na situação mais frágil que dá pra imaginar. E ainda assim teve algo pra oferecer, a própria retidão. Às vezes a coisa mais poderosa que a gente tem pra dar não é o que a gente faz num momento de crise, é quem a gente foi nos mil dias comuns que vieram antes. Aqui vai uma coisa pra hoje, pensa numa frase que você poderia dizer sobre a sua própria vida e que fosse verdade sem nenhum buraco, não uma que soe bonita pros outros, mas uma que se sustente lá dentro, no lugar onde só você sabe, pode ser pequena. Hoje eu não menti pra ninguém, hoje eu não passei por cima de alguém pra me dar bem.

Hoje eu fiz o que disse que ia fazer, escolhe uma só, e durante este dia, faça dela algo verdadeiro de verdade, vivido e não só falado. Porque o ato de verdade do peixe rei não nasceu na hora da seca, ele nasceu em cada dia comum em que aquele peixe escolheu não machucar, a sua força, no dia em que você precisar dela, vai ser feita exatamente dos dias em que ninguém estava olhando.