Imagina um guarda noturno, sozinho na porta da cidade, na noite mais escura do ano. Lá fora, o boato corre, bandidos estão chegando. E esse homem, em vez de tremer, deita no chão de pedra, fecha os olhos e dorme. Dorme um sono fundo, tranquilo, de criança. Como é que alguém dorme assim, com o perigo batendo a porta? A resposta a essa pergunta é o coração inteiro desse conto. Porque tem um tipo de sono que não vem de descuido, mas de uma consciência tão limpa que não sobra nada lá dentro para ter medo. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, ainda estava no longo caminho de se tornar Buda, vida após vida.
A gente chama essa figura de Bodhisatta, o ser que desperta, e nesses contos ele aparece de muitas formas. Ora rei, ora bicho, ora gente simples. Nessa história, ele aparece como um homem comum, um guardião, alguém contratado para vigiar enquanto os outros descansam. Era uma cidade rica, daquelas cercadas por muralhas, com mercadores carregando ouro e marfim pelos portões. E, como toda cidade rica, vivia com medo de ser roubada. O rei tinha uma guarda numerosa, mas no fundo cada soldado dormia de olho aberto, com a mão na espada, sonhando com inimigos. O medo era o verdadeiro dono daquele lugar.
As pessoas trancavam as portas três vezes, escondiam moedas dentro de paredes, desconfiavam até da própria sombra. Entre todos os homens da guarda, havia um que era diferente. Ninguém sabia direito de onde ele tinha vindo. Falava pouco, andava devagar, e tinha nos olhos uma calma que incomodava os outros. Os companheiros zombavam dele. "Esse aí é mole", diziam. Num combate de verdade, foge primeiro, porque, na cabeça deles, coragem era estar sempre tenso, sempre alerta, sempre com o corpo duro de prontidão. E aquele homem não tinha nada disso, tinha leveza. Numa certa noite, espalhou-se a notícia de que uma quadrilha grande vinda das florestas do norte, ia atacar a cidade antes do amanhecer.
O pânico tomou conta. Os soldados se amontoaram nas torres, acenderam tochas, afiaram lâminas, ficaram de pé tremendo à noite toda, esperando o golpe que poderia vir de qualquer canto. O comandante distribuiu os postos, e coube ao Bodhisatta, o portão de fora, o mais exposto. O primeiro que um invasor encontraria, era quase uma sentença. Mandaram ele para lá esperando, no fundo, se livrar dele. E o que esse homem fez? Repara bem, ele revisou o portão com cuidado, conferiu a tranca, olhou à estrada, sentiu o vento, escutou à noite, fez tudo o que precisava ser feito, com mãos firmes e atentas.
E então, tendo feito tudo o que estava ao seu alcance, ele estendeu uma esteira no chão, deitou-se ali mesmo, ao lado da lança, e adormeceu, um sono de paz. No posto mais perigoso da cidade, na noite mais temida do ano, por volta da madrugada, o comandante saiu rondando, toxinha na mão, conferindo cada homem. Achou os soldados das torres com os olhos vermelhos, esgotados de tanto medo, alguns já cuchilando em pé, perigosos para si mesmos de tão cansados. E aí chegou ao portão de fora e encontrou o bode sata dormindo, quase explodiu de raiva, chutou a esteira, gritou, dormindo, no teu posto, numa noite dessas, tu vai ser enforcado por isso.
O homem acordou sem susto, sentou-se devagar, olhou para o comandante e disse, com a voz mansa, "Senhor, me diga uma coisa, o que é que um guardião faz?" Ele vigia, e eu vigiei, conferi a tranca, andei pela estrada, escutei à noite, fiz tudo que minhas mãos podiam fazer. O que não está nas minhas mãos, Senhor, é o futuro. Se os bandidos verem, virão, e eu acordo num instante, porque meu corpo descansa, mas meu ouvido não dorme, mas ficar deitado à noite inteira de olho aberto, tremendo, imaginando males que talvez nem aconteçam, e isso não protege a cidade, isso só apodrece o homem por dentro.
Eu não tenho nada na consciência que me tire o sono, por isso durmo, o comandante ficou parado, porque no fundo ele sabia, sabia que os homens das torres, de tanto temer, não serviriam para nada se o ataque viesse de verdade, e aquele homem deitado, com o ouvido afinado pela tranquilidade, era o único capaz de reagir limpo, sem o tremor cego do pânico, e os bandidos. Naquela noite nem vieram. O boato era só boato, como quase sempre é. O sol nasceu sobre uma cidade que tinha passado à noite inteira se torturando à toa. Todos, menos um, agora repara no que esse conto está dizendo. Ele não está elogiando a preguiça, nem o descuido.
O guardião fez o trabalho dele, e fez bem. A virtude aqui é outra, mas sutil, é o que os budistas chamam de fazer com diligência o que cabe a você, e soltar com serenidade o que não cabe. Tem uma palavra bonita para essa calma de quem não carrega culpa. A consciência limpa, oscila, a conduta reta, gera uma paz que o medo não consegue invadir. Quem não fez mal a ninguém dorme sem fantasma, e olha como isso bate na gente hoje. A nossa época confundiu vigilância com ansiedade. A gente acha que está sendo responsável quando, na verdade, só está sofrendo adiantado. Ficamos acordados às três da manhã rolando a tela do celular, ensaiando catástrofes que nunca chegam, conferindo notificações, atualizando notícias ruins, como se o nosso pavor segurasse o mundo no lugar.
A gente trata o cansaço como medalha, não consigo dormir de tanta preocupação, e quase tem orgulho disso. Mas a preocupação noturna não trancou nenhum portão, não impediu nenhum ataque. Ela só rouba de você a única coisa que te deixaria pronto para reagir bem se algo de fato acontecesse. O descanso, a clareza, a mente fresca, o guardião sábio sabia separar duas coisas que a gente vive misturando. O que está nas minhas mãos, fazer o melhor que posso, com cuidado, com honestidade. E o que não está, o resultado, o amanhã, o que os outros vão fazer. A primeira coisa pede empenho, a segunda pede entrega.
E quando você faz a sua parte com interesa, você ganha o direito de descansar sem se torturar. Aqui vai uma coisa para hoje. Hoje à noite, antes de deitar, faz o gesto do guardião. Escolhe uma única preocupação que está te roubando o sono e divide ela em dois montinhos. De um lado, o que você ainda pode fazer a respeito, hoje ou amanhã, uma ação concreta e pequena, e anota num papel para fazer na hora certa. Do outro lado, tudo o que não depende de você, e isso você entrega, solta, deixa para a noite cuidar. Confere a tua tranca, faz o que cabe às tuas mãos, e então deita com a consciência limpa.
Porque o sono tranquilo não é fuga do mundo, é o prêmio de quem fez a sua parte e teve a sabedoria de soltar o resto.