Imagina que você acorda no meio da noite com o coração disparado, suando frio, depois de dezesseis pesadelos seguidos, toros que correm pra brigar e desistem na última hora, árvores pequenininhas que já dão fruto, cordas sendo roídas por chacais famintos, e uma voz dentro de você gritando que isso tudo é o anúncio de uma desgraça enorme. Agora imagina que você é o rei e que os homens mais poderosos do reino já estão afiando as facas pra te dizer como se livrar dessa desgraça, em quem você vai acreditar. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, e sim o Bodhisatta, aquele que estava se tornando o Buda vida após vida, juntando virtude.
E aqui, nesse conto, ele aparece como um homem sábio, um aceta de coração limpo, alguém que sabia ler não só os sonhos de um rei, mas também as intenções escondidas no peito dos homens. O nome desse conto em palha é Marra Supina, que quer dizer os grandes sonhos. E é uma história sobre medo, sobre ganância disfarçada de religião, e sobre a tranquilidade de quem enxerga as coisas como elas são de verdade. A coisa começa assim. O rei de Benari, certa noite, teve 16 sonhos, um atrás do outro, todos estranhos, todos carregados de uma sensação de aviso. Ele viu quatro toros negros, que vinham bufando de quatro cantos do pátio, prontos pra uma luta de chifre, o povo todo correndo pra assistir.
Mas, na hora exata em que iam bater chifre com chifre, os bichos recoavam e iam embora, sem brigar. Viu plantinhas miudas, mal saídas da terra e já carregadas de flores e frutos. Viu vacas adultas mamando nas suas próprias crias recém-nascidas, o mundo virado do avesso. Viu homens desatrelando bois fortes e gordos da carroça e atrelando, no lugar, bezerrinhos frágeis, que não davam conta de puxar nada e sonhos seguiam. Um cavalo comendo com duas bocas ao mesmo tempo, de dois lados da cabeça, uma tigela de ouro, das mais valiosas, e um chacau mijando dentro dela. Chacais devorando grossas cordas de couro que mulheres teciam, roendo por trás aquilo que elas faziam por diante, em pote cheio transbordando montes de potes vazios ficavam ali, secos, sem ninguém pra enchê-los, um grande lago com a água do meio toda suja e o povo bebendo, e a água limpa nas beiradas entocada, arroz cozinhando numa panela só, mas cozido em três partes desiguais, uma crua, uma empapada, uma no ponto, e por fim, sandalo precioso sendo trocado por leite e colhado azedo, abóboras pesadas afundando na água e tantas leves boiando, sapos minúsculos perseguindo e engolindo cobras enormes, um corvo solitário cercado de pássaros dourados e lobos com medo, fugindo de cabras, o rei acordou apavorado.
Aquilo só podia ser presságio de morte, de perda do trono, de catástrofe sobre o reino. Mal o sol nasceu, ele chamou os brâmanes da corte, os sacerdotes que liam os sinais, e eles, ao ouvir os sonhos, fizeram uma cara grave, balançaram a cabeça e disseram, majestade, são sonhos terríveis, anunciam perigo para sua vida, para o seu reino, para suas riquezas. Uma das três desgraças vai cair sobre você, o rei gelado perguntou, e tem como evitar, e aí repara bem, porque é nesse ponto que a história mostra a sua garra. Os brâmanes responderam que sim, que tinha um jeito, bastava um grande sacrifício, um sacrifício enorme, com centenas de animais de cada espécie, bois, cavalos, elefantes e até pessoas, tudo morto e oferecido nas fogueiras.
E claro, quem conduziria esse ritual caríssimo seriam eles próprios, os brâmanes, que sairiam dali com os cofres recheados de presentes. O medo do rei, para eles, não era uma tragédia, era um negócio. Os ativos começaram, já tinham cavado as covas, já tinham amarrado os animais e as pessoas escolhidas, esperando a morte. O cheiro do pavor pairava no ar, e foi aí que a rainha, uma mulher de bom senso, se aproximou do rei e disse, "Por que você não pergunta alguém que conhece de verdade o coração das coisas? Ali perto, no parque do reino, vive um acetá sábio, vai até ele, conta os sonhos, escuta o que ele diz, o rei foi, e esse acetá era o nosso Bodhisatta.
Ele ouviu, com calma, um por um, os 16 sonhos, e então sorriu de um jeito tranquilo e disse, Majestade, não tema, nenhum desses sonhos anuncia perigo para você, nem para o seu reino, nem agora. Eles não falam do seu tempo, falam de um tempo futuro, distante quando os homens forem outros, quando o mundo tiver cuidado por dentro. São avisos, não maldições." E o conan isto me indistora e foi explicando, os toros que rugem e não brigam, disse ele, são as nuvens que, num tempo vindo ouro, vão se juntar prometendo chuva e vão se desfazer sem molhar a terra, e as colheitas vão sofrer. As plantinhas que já dão fruto antes da hora são as moças que, num tempo de pouca virtude, vão ser mães ainda meninas.
As vacas mamando nas crias são os pais que, naquele futuro, vão depender dos filhos para viver, em vez de cuidar deles. Os bezerros frágeis, no lugar dos bois fortes, são os jovens despreparados postos a comandar onde antes mandavam os experientes. A tigela de ouro suja de chacau é a virtude posta nas mãos de gente viu. Os chacais roendo as cordas por trás são os que, escondidos, vão devorar o trabalho honesto dos outros. O lago sujo no meio e limpo nas margens é o reino onde a injustiça vai brotar do centro dos que mandam, enquanto as beiradas, os pequenos, ficam de mãos fracas, um a um, o sábio desmontou o terror.
E concluiu, nada disso vai te atingir. E, mais importante, nada disso se conserta com sangue. Solta esses animais. Solta essas pessoas. Apaga essas fogueiras. Mata um único ser que seja e você não vai comprar segurança nenhuma. Só vai carregar a morte deles na sua consciência. O remédio para o medo não é a crueldade, é a sabedoria. O rei respirou fundo, como quem tira uma pedra do peito, mandou libertar todos, encher de novo as covas, dispersar o ritual. E o reino seguiu em paz. Agora, repara no que esse conto está dizendo. No centro dele está uma virtude que o budismo chama de panhar, a sabedoria que enxerga as coisas como realmente são, sem o véu do medo deformando tudo.
E está também a compaixão, porque o sábio não só acalmou o rei, ele salvou uma multidão de criaturas que iam morrer a toa, por causa de um pânico mal interpretado. O medo, sozinho, é péssimo conselheiro. Ele faz a gente pagar qualquer preço, fazer qualquer coisa, machucar qualquer um, só para ter de volta a sensação de controle. E a gente hoje vive cercado de gente vendendo sacrifício para o nosso medo. Toda vez que o coração aperta com uma incerteza, aparece alguém com uma fórmula, um curso, um ritual moderno, jurando afastar a desgraça em troca do seu dinheiro, do seu sossego, da sua razão.
A gente acorda com o pesadelo das notícias, do futuro, da conta no fim do mês. E a primeira voz que escutamos quase nunca é a mais sábia, é a mais barulhenta, a que mais lucra com a nossa aflição. E no susto a gente acende fogueiras que não precisava acender, queima coisas e às vezes pessoas que precisava queimar. Aqui vai uma coisa para hoje. Da próxima vez que o medo te acordar de noite ou de dia e alguém aparecer com uma solução cara e urgente para te salvar dele, faz uma pausa antes de acender qualquer fogueira. Pergunta, igual aquele rei deveria ter perguntado primeiro, esse sonho é mesmo sobre o agora ou eu estou transformando um talvez distante numa catástrofe de hoje e procura a voz mais calma, não a mais alarmada, para interpretar o que você está sentindo, porque quase sempre o que o medo pede é sangue, pressa, dinheiro e quase sempre o que a sabedoria responde é, respira, olha de novo, isso aqui não é o fim, você não precisa queimar nada para ficar em paz.