Imagina um grupo de rapazes saindo para a floresta com machados no ombro, animados, prontos para derrubar madeira. E o mais novo deles, antes de erguer o braço, para um instante e pensa, será que esse galho vai cair do jeito que eu quero, ou ele vai voltar e me acertar na cara? Por que será que só ele faz essa pergunta? A resposta a essa pergunta nesse conto separa quem volta para casa inteiro de quem volta machucado e com vergonha. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, mas estava se tornando. A gente chama esse ser em formação de Bodhisatta.
Em cada vida ele nasce de um jeito, às vezes como rei, às vezes como bicho, às vezes como um menino simples. E em cada uma delas ele vai pulindo uma virtude, como quem lixa uma pedra até ela brilhar. Nessa aqui ele nasce gente comum, filho de um mestre que ensinava muitos jovens, repara na cena. Havia um professor famoso, daqueles que recebiam alunos de toda parte. E entre todos esses jovens estudantes estava o Bodhisatta, ainda menino, mas com uma cabeça que funcionava diferente. Não era mais esperto no sentido de tirar nota, era atento. Reparava nas coisas. Escutava antes de fazer. Um dia, o professor adoeceu, precisava de lenha para esquentar a água do banho e a casa estava sem.
Então ele turma toda e disse, com aquela voz cansada de quem está com febre, rapazes vão até a floresta, juntem madeira seca para mim e tragam de volta, vão em grupo, ajudem uns aos outros, e eles foram, bando alegre, conversa alta, cada um querendo aparecer, querendo voltar com a maior braçada. Lá no meio do mato, espalharam-se, cada um achou seu pedaço de árvore caída, seu tronco, seu galho, e começaram a recolher mais rápido que podiam, sem olhar direito para o que estavam pegando, pressa, pura pressa de quem quer terminar logo e ser elogiado. Um desses rapazes, mais afobado que os outros, viu uma árvore que parecia já meio seca, meio sem visso.
De longe ele pensou, essa aí já era, é só puxar. E correu, agarrou um galho grande e puxou com toda a força, sem reparar de perto. Só que aquela não era uma árvore qualquer. Era uma varana, uma árvore de madeira flexível, verde por dentro, cheia de seiva. O galho que ele agarrou era novo, vergava como uma vara de pescar, quando ele puxou com força e soltou para trás, o galho fez o que galho verde faz, chicoteou de volta. Voltou voando e bateu em cheio no olho do rapaz. Ele largou tudo, levou a mão ao rosto, chorando de dor, com o olho ferido sem conseguir nem enxergar direito para encontrar o caminho.
Os outros vieram correndo, viram o estrago, e queriam que largar parte da lenha para carregar o amigo de volta. Voltaram tarde, voltaram menos, voltaram tristes, aí o Bodhisatta, que tinha juntado a parte dele com calma, sem alarde, chegou também. E quando contaram o que aconteceu, ele só balançou a cabeça e disse uma coisa que ficou gravada em todo o mundo. Ele disse, mais ou menos assim, a árvore varana é jovem e verde. Quem puxa um galho desse sem olhar, puxa para cima de si mesmo o golpe para ela. Não foi a árvore que feriu o nosso amigo. Foi a pressa dele e completou tudo que a gente faz com pressa e sem atenção volta.
Não importa se é galho, se é palavra, se é decisão. O que você empurra sem reparar, empurra de volta para cima de você. O professor, mesmo doente, ouviu isso e sorriu, porque entendeu que ali, no meio de tantos alunos rápidos e fortes, tinha um que aprendia a coisa de verdade, não a força do braço, a clareza do olhar. Agora, repara no que esse conto está dizendo, porque ele fala diretamente com a gente. Hoje, mais até do que falava com aqueles meninos. A virtude no centro dessa história tem nome em palí, é o sati, a atenção plena, a presença de quem está realmente onde está, fazendo realmente o que faz.
O rapaz que se feriu não era mau, não era preguiçoso. Pelo contrário, ele era o mais esforçado, o mais rápido, o que mais queria agradar. E foi exatamente isso que o machucou. Ele tinha o corpo na floresta e a cabeça já no elogio que ia receber em casa. E olha como isso é a nossa cara. A gente vive puxando o galho sem olhar. A gente responde uma mensagem com um polegar voando enquanto pensa em outra coisa. E a mensagem volta e nos atinge. A gente fala com pressa, no impulso, e a palavra chicoteia de volta. A gente toma decisões grandes da vida do jeito que aquele rapaz arrancou o galho, com força, com vontade, mas sem reparar se aquilo é seco ou se está vivo, se vai ceder ou se vai voltar voando.
O mundo de hoje premia a velocidade. Faz rápido, entrega rápido, responde rápido, decide rápido, e a gente confunde rapidez com competência. Mas esse conto, com toda gentileza, está dizendo o contrário. O verdadeiramente capaz não é o que pega a maior braçada de lenha. É o que volta para casa com o olho inteiro, porque olhou antes de puxar. Não é para fazer tudo devagar. É sobre estar presente no instante em que você age. Um segundo de olhar atento antes do gesto. Foi só isso que faltou para o rapaz. E foi só isso que o Bodhisatta tinha de sobra. Aqui vai uma coisa para hoje.
Hoje, escolha um único gesto que você costuma fazer no automático. Compressa sem olhar. Pode ser abrir o aplicativo assim que o celular vibra. Pode ser responder antes de a pessoa terminar de falar. Pode ser apertar e enviar numa mensagem que você viu com raiva. E, só nesse gesto, faça como o menino sabe o fez. Pare meio segundo antes e pergunte a si mesmo. Esse galho está vivo ou está seco. Ou seja, o que eu estou prestes a fazer vai cair para frente como eu quero. Ou vai voltar e me acertar. Esse meio segundo de atenção é a Varana te ensinando, de graça, o que ela ensinou na dor a quem não olhou.