O sábio da enxada e o apego a um objeto

Budismo · Temporada 9 · Episódio 70 de 150 — em ordem cronológica

Prometeu largar aquele vício ou mania e falhou de novo? Esqueça a força de vontade: talvez a verdadeira liberdade exija um ato de pura loucura.

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Transcrição

Quantas vezes você já disse agora eu largo isso de vez? Largou o cigarro? Largou a discussão? Largou aquele hábito que te corrói? Disse com a maior convicção do mundo. E aí, dois dias depois, lá estava você de novo, mãos na massa, fazendo exatamente a mesma coisa. E se eu te dissesse que existe um homem que só conseguiu se libertar de verdade no dia em que tomou uma decisão que parece loucura, mas que era a única saída, deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas. Os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, ainda estava no longo caminho de se tornar Buda.

E nascia hora como gente, hora como bicho, aprendendo o que precisava aprender. Nessa vida aqui, ele nasceu o homem e a tradição até guardou o nome dele. Kudala, o sábio da enchada. Repara só, o nome dele não era um nome grandioso, era o nome da ferramenta que ele carregava. Kudala, o sábio da pá, do cavador, porque a vida inteira dele girava em torno de um único objeto, uma enchada, uma enchada de cabo gasto, ferro lascado nas beiradas, mas que cavava bem. Com ela, ele plantava um pouquinho de abóbora, de feijão, de pepino e disso vivia. Pouca coisa, o suficiente, um dia o coração dele amoleceu, olhou aquela vida toda de cavar e colher, cavar e colher e pensou, chega, quero deixar tudo isso pra trás, quero ir pra floresta, virar a seta, sentar em silêncio e procurar a paz que não depende de colheita nenhuma.

Decisão tomada, só que tinha a enchada. Ele pensou, não posso levar isso comigo, a seta não carrega ferramenta de plantio, vou esconder. E escondeu a enchada num canto, com cuidado, e foi embora pra floresta. Raspou a cabeça, vestiu a roupa simples, sentou pra meditar, passaram-se uns dias, e aí do nada, no meio do silêncio, veio o pensamento, será que minha enchada ainda está lá? Será que enferrujou? Será que alguém achou? E aquilo cresceu, cresceu, até que ele não aguentou, levantou, voltou pro vilarejo, desenterrou a enchada, deu uma plantadinha de nada, colheu um punhado de legumes, e pronto, estava de volta a velha vida, mas o coração dele de novo amoleceu.

O que é que eu estou fazendo? Eu já tinha ido embora, escondeu a enchada outra vez, e voltou pra floresta, e aconteceu de novo. E de novo, a tradição diz que foi seis vezes, seis vezes ele largou a enchada, e foi embora. Seis vezes a saudade da enchada o trouxe de volta. Porque repara, não era a enchada o problema. A enchada é só um troço de ferro num cabo de pau. O problema era o fio invisível que ligava o coração dele àquele ferro, o apego. O isso é meu, isso me serve e se eu precisar. Na sétima vez, ele se cansou de si mesmo. Parou e olhou aquela enchada nas mãos com clareza, do jeito que a gente raramente olha as coisas que nos prendem.

E disse, é essa a enchadinha que está me jogando pra frente e pra trás, sem parar, não sou eu que não consigo. É que enquanto ela existir, ao meu alcance, eu sempre vou voltar, tenho que acabar com ela. E aí ele fez uma coisa decidida. Foi até a beira de um rio largo, daqueles fundos, de correnteza forte. Segurou a enchada pela ponta do cabo, rodou o braço com toda a força, três voltas no ar, fechou os olhos pra não ver onde caía, e atirou. A enchada voou longe e longe e mergulhou no meio do rio, na parte funda, onde ele jamais conseguiria achar de novo. E conta o conto que, no instante em que aquela enchada sumiu na água, ele soltou um grito, um grito de vitória, como o rugido de um leão.

Venci, venci, venci, porque ele sentiu, ali de corpo inteiro, o que era estar livre, não livre de uma enchada, livre do apego, livre daquela coisa que o puxava de volta seis vezes. Diz a história que o rei daquela terra passava perto, voltando de uma batalha, e ouviu o grito. Quem é esse homem que grita vitória, sendo que eu é que acabei de vencer uma guerra? Mandou chamar. E o sábio da enchada explicou. Ó rei, o senhor venceu uma batalha lá fora, contra outros, mas amanhã pode perder. Eu venci a batalha aqui dentro, contra o meu próprio apego. E essa, uma vez vencida de verdade, não se perde nunca mais.

O rei ficou cercado, que largou tudo, e foi virar a seta também. E atrás dele foi uma multidão. Agora, repara no que esse conto está dizendo. Ele não está dizendo que a enchada é coisa ruim, nem que ter objetos é pecado. O sábio precisou da enchada para comer durante anos. O ponto não é o objeto. O ponto é o fio que o liga a você. O quanto aquilo manda em você sem você perceber. E olha para nossa vida hoje. A gente vive cercado de enchadas. Só que as nossas tem tela bem. Quantas vezes você larga o celular, deixa numa gaveta, e dez mil depois a mão já está procurando ele de volta, sem você nem ter decidido.

Quantas vezes você diz "vou parar de checar isso" e checa, a gente esconde a enchada e desenterra. Esconde e desenterra. Seis vezes, sessenta vezes por dia. A diferença é que o sábio pelo menos percebeu o ciclo. A gente muitas vezes nem percebe ele. E tem uma coisa fina nesse conto, que é do meio caminho. Ele tentou seis vezes resolver pela metade, esconder, deixar perto, fingir que tinha largado. E o meio caminho nunca funcionou, porque enquanto a coisa está ao alcance, o coração volta. Às vezes a libertação não é sobre força de vontade, é sobre tirar a enchada do alcance, jogar no rio, mudar o ambiente, não só a intenção.

E bote a pro esnuto, aqui vai uma coisa pra hoje. Pensa numa enchada sua, uma coisa pequena que você jura que vai largar, e não larga, e que fica te puxando de volta. Pode ser o telefone na cabeceira, pode ser uma aba aberta o dia todo, pode ser uma conversa que você relê. E hoje, em vez de prometer de novo o que vai resistir, faz o gesto do sábio. Tira a coisa do alcance, deixa o celular em outro cômodo na hora de dormir. Desinstala o aplicativo do telefone e usa o computador. Joga a sua enchada no rio, não pra punir você, mas tipo o par das 6 voltas. Porque a paz às vezes não está em segurar com mais firmeza, está em soltar de um jeito que não dê mais pra recolher.