O orgulho da cobra que não retrai a peçonha

Budismo · Temporada 9 · Episódio 69 de 150 — em ordem cronológica

A mordida foi dada, o veneno corre. Você pode sugar tudo de volta, mas o preço é engolir seu próprio orgulho.

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Transcrição

Imagina que você tem o poder de desfazer o estrago que acabou de causar. A mordida já foi dada, o veneno já entrou, mas você ainda pode chamar de volta o que soltou. E aí alguém te oferece, na sua frente, a chance de fazer isso, de recuar, de consertar. Você aceita? Nesse conto, tem uma cobra que prefere morrer a engolir de volta a própria peçonha. E o que parece ter imosia de bicho é, na verdade, um retrato muito exato de uma coisa nossa bem humana. Deixa eu te contar. Você é um dos de atacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, quando ele ainda estava caminhando para se tornar Buda.

Nessas histórias, o futuro Buda, o Bodhisatta, às vezes aparece como rei, às vezes como mercador, às vezes como um simples animal da floresta, e, dessa vez, ele aparece como um homem que entendia a língua dos bichos e a língua das pessoas, e que sabia ler o coração de uma criatura só de olhar para ela. A história começa numa aldeia. Uma dessas grudadas na beira da mata. Tinha por ali uma serpente, não era uma cobra qualquer, era uma daquelas que todo mundo conhecia de longe, que todo mundo respeitava de medo. O veneno dela era fulminante, bastava um bote, um arranhão das presas, e a coisa estava feita, e aconteceu o que costuma acontecer quando bicho e gente dividem o mesmo caminho.

Um homem da aldeia passava pela trilha, distraído, e pisou perto demais. A cobra, assustada, fez o que cobra faz, deu o bote, cravou as presas na perna do homem, e despejou ali todo o seu veneno. Na hora se levantou a gritaria, juntou gente, juntou parente, e alguém correu para chamar um curandeiro, um daqueles homens que conheciam encantamentos, ervas e o jeito de lidar com mordidas de serpente. Esse homem era o Bodhisatta, o nosso futuro Buda. Ele chegou com calma, olhou o ferido, olhou o enchaço subindo pela perna, e disse uma coisa que deixou todo mundo em silêncio, e lhe disse, "Tem dois caminhos para salvar esse homem.

Eu posso tratar com remédios, com ervas, com cânticos, ou eu posso chamar a própria cobra que mordeu, e fazê-la sugar de volta ao veneno que colocou. Essa é a cura mais limpa, mais rápida e mais certa, e mandou buscar a serpente. Repara que coisa interessante. A crença antiga era essa, a cobra que injeta o veneno é capaz, se quiser de retomá-lo para dentro de si. O estrago tinha como ser desfeito pela mesma boca que fez, trouxeram a serpente então, para perto do homem caído. E o Bodhisatta falou com ela, sem ódio, sem ameaça, só com a verdade na frente. Ele disse, "Foi você quem mordeu esse homem.

Agora, sugar de volta ao teu veneno e cura o que você fez". E a cobra olhou para ele, e recusou. O Bodhisatta insistiu, conjeito, "Olha, é simples, você só precisa abaixar a cabeça até a ferida e chamar de volta o que é seu, ninguém vai te machucar". Mas a serpente se ergueu, orgulhosa, e respondeu com um desprezo gelado. Ela disse, em essência, "Jamais". Eu nunca, em toda a minha vida, recolhi de volta o veneno que uma vez soltei das minhas presas. Isso seria me rebaixar. O que sai de mim sai. Eu não volto atrás. Então, o Bodhisatta acendeu uma fogueira ali do lado, bem na frente da cobra, e disse, "Pois muito bem".

"Já que você não retira o teu veneno, você mesma vai entrar nesse fogo. Vai queimar, e a serpente, sem hesitar, começou a se mover em direção às chamas. Preferia a morte aceder, preferia arder a abaixar a cabeça e desfazer o próprio dano". Aí o Bodhisatta adeteve. Segurou a cobra antes que ela se queimasse e falou com ela de um jeito diferente, mais brando, mais sábio. Ele disse, "Espera, não vou deixar você morrer assim". E com seus encantamentos e ervas, tirou o veneno do corpo do homem por outro caminho, e o homem se levantou, vivo. Depois soltou a serpente livre, sem castigo, e a mandou de volta para a mata com um conselho.

Dali em diante, que ela vivesse sem ferir, e que aquele orgulho que quase a matou não a governasse mais. Agora, repara no que esse conto está dizendo, porque ele não é sobre cobra coisa nenhuma. Aquela serpente somos a gente quando erramos e não conseguimos voltar atrás. Olha o tamanho do absurdo. A cobra tinha, na própria boca, o poder de desfazer o mal que causou. Bastava abaixar a cabeça. E ela escolheu o fogo. Escolheu morrer queimada só pra não ter que admitir, com um gesto que o estrago dela podia ser consertado por ela. A gente faz isso o tempo inteiro. A gente solta uma palavra dura num momento de raiva, e o veneno já saiu.

E aí vem aquele instante curtíssimo, em que dava pra recolher, dava pra dizer "desculpa, isso foi injusto, eu não devia ter falado assim". Esse é o momento de sugar o veneno de volta, mas o que entra no caminho, o orgulho. A mesma voz da serpente "eu não volto atrás", o que eu disse, eu disse, pedir desculpa e me rebaixar. E aí a gente prefere arder. Prefere ver uma amizade esfriar, um casamento azedar, um filho se afastar, tudo pra não abaixar a cabeça por dois cese e desfazer o dano. No nosso tempo isso ainda ganhou um palco. A gente erra em público, num comentário, numa mensagem, e a coisa mais difícil do mundo virou a pagar, retirar, dizer me enganei.

Parece que admitir custa mais caro do que o próprio erro. A gente trata recuar como derrota. Quando recuar é, muitas vezes, a única cura limpa, rápida e certa que existe. O budismo tem um nome bonito pra esse veneno do orgulho. É humana, a vaidade do eu, aquele inchaço do ego que prefere a ruína da pessoa a humilhação do orgulho. Tem também a Iiri, esse senso saudável de vergonha do mal feito, que não é se humilhar. É justamente ter a grandeza de reconhecer e corrigir. A serpente não tinha Iiri, tinha mana até as presas. E o Bodhisatta, repara, não acondenou, ele assalvou do próprio orgulho.

Esse é o gesto da compaixão, não deixar nem o orgulhoso queimar. Aqui vai uma coisa pra hoje. Pensa numa palavra ou numa atitude que você soltou recentemente e que ainda está fazendo estrago em alguém. Aquela ferida ainda está aberta e você sabe qual é. Hoje, abaixa a cabeça e suga o veneno de volta. Procura essa pessoa e diz, sem rodeio e sem mais, que você se enganou, que falou demais, que sente muito, vai parecer, por um instante que você está se rebaixando, não está. Você está fazendo a única coisa que a cobra orgulhosa não teve coragem de fazer. Você está escolhendo a cura no lugar do fogo.