tensa numa serpente. Ela carrega o veneno na boca bem ali, do lado de dentro. E tem uma coisa curiosa que talvez você nunca tenha parado para notar. A serpente não se envenena com o próprio veneno. Ela morde os outros, mas não a si mesma. Por que será? Como é que ela convive a vida inteira com aquilo que mata e não se intoxica? A resposta a essa pergunta nesse conto separa quem solta o veneno na hora certa de quem o engole por dentro e adoece devagar, sem nem perceber. Deixa eu te contar. Esse é um dos atacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, vida após vida, juntando virtude.
Nessas histórias, o Bodhisatta, o futuro desperto, aparece às vezes como um rei, às vezes como um sábio simples, às vezes como um bicho da floresta. Nesse aqui, ele aparece como um mestre, um daqueles que ensinavam parte de uma árvore, cercado de alunos que tinham vindo de longe para aprender com ele. Havia, entre esses alunos, um rapaz de temperamento difícil, era inteligente, decorava as lições rápido, mas tinha o pavio curto. Bastava uma palavra atravessada, um olhar que ele entendia como desfeita e já explodia. Gritava com os colegas, batia a mão na mesa, ficava dias remoindo uma grama pequena e o pior.
Depois de explodir, ele não se sentia melhor. Ficava ali por dentro, fervendo com o estômago em nó, sem conseguir dormir direito, repassando a briga de novo e de novo na cabeça. Um dia esse rapaz procurou o mestre, já meio sem jeito, e disse, "Mestre, eu sei que tenho esse problema, eu fico bravo, eu explodo e eu sofro com isso, mas o que eu posso fazer, é mais forte que eu. A raiva sobe e eu não consigo segurar, e os outros me provocam, não é culpa minha". O Bodhisattva olhou para ele com calma, daquele jeito de quem não vai brigar nem dar sermão, e disse, "vem comigo". Levou o rapaz para beira de um caminho onde, naquela época, os encantadores de serpentes costumavam parar.
E ali, num cesto, estava uma cobra, uma cobra de verdade, daquelas peçonhentas. O encantador, que conhecia o mestre, deixou observar-se de perto, com cuidado. "Repara nessa serpente", disse o Bodhisattva. "Ela tem veneno suficiente para derrubar um homem. Carrega esse veneno à vida inteira, dentro da própria boca, e me diz uma coisa. Ela morre disso, ela se envenena por carregar o veneno consigo". O rapaz pensou e respondeu, "Não, ela vive bem assim". "Pois é", disse o mestre. A serpente não engolhe o próprio veneno, ela o guarda e só o usa para fora, quando precisa se defender, ela nunca o volta contra ela mesma.
Agora pensa no que você faz. Quando alguém te ofende, o veneno da raiva sobe. Até aí, é natural, todo ser vivo tem isso. Mas o que você faz com ele, você o cospe para fora, se ingritando, batendo, só que tem uma diferença cruel. O seu veneno, você engole junto, você morde o outro, mas é você que fica entoxicado, e o outro segue a vida e você que passa a noite acordado. O rapaz ficou quieto. Aquilo doeu, mas era o tipo de dor que cura. E o Bodhisatta continuou baixinho. A raiva tem uma armadilha. A gente acha que ela machuca quem a recebe. Mas, na maioria das vezes, ela machuca primeiro e mais fundo quem a carrega.
Segurar um carvão em brasa na mão para jogar em alguém, quem se queima é você, antes de qualquer arremesso. A serpente sabe não guardar o veneno por dentro. Você ainda precisa saber. E aqui veio a parte mais delicada do ensinamento. Porque o mestre não mandou o rapaz simplesmente engolir a raiva e fingir que estava tudo bem. Isso seria, de novo, engolir o próprio veneno. Ele ensinou outra coisa. A reconhecer a raiva quando ela sobe, dar nome a ela. Isso é raiva, ela está aqui. E não agir no calor dela. Esperar. Deixar o veneno passar sem morder ninguém e morder por dentro. Os budistas chamam essa qualidade de cantir.
A paciência, a tolerância serena. Não é fraqueza, não é ser capaixo. É força. É a força de quem não deixa o próprio veneno virar o seu carrasco. Com o tempo, conta a história. O rapaz mudou. Não virou um santo de um águia para outra. Mas aprendeu a sentir a raiva chegando. Como quem sente o vento mudar antes da chuva. E a não se jogar nela. Aprendeu a ser, de certo modo, mais sábio que a serpente. Não só deixava vir o próprio veneno, como aprendia, aos poucos, a transformar parte dele em compaixão. Agora repara no que esse conto está dizendo para a gente. Aqui, hoje, a gente vive num tempo que praticamente convida a engolir veneno o dia inteiro.
Você abre o celular de manhã e já tem alguém dizendo uma barbaridade, alguém te irritando, uma notícia feita de propósito para te deixar com raiva. E a gente morre. Comenta com o dedo tremendo. Responde àquela mensagem na lata. Fica ruminando a discussão do trabalho no caminho de casa. Deita e a raiva ainda está ali e fervendo. A gente acha que está se defendendo, que está dando o troco. Mas, igual ao rapaz do conto, a gente morde o outro e engole o próprio veneno. O outro nem viu. E a gente que fica com o estômago em nó, com a pressão subindo, perdendo o sono, gastando horas preciosas da vida intoxicado por algo que já passou.
A serpente mais sábia que muita gente conectada hoje. Ela nunca confunde carregar o veneno com beber o veneno. A gente confunde toda hora. Aqui vai uma coisa para hoje. Da próxima vez que a raiva subir e ela vai subir em algum momento de hoje ou de amanhã, faz só isso. Antes de responder, antes de cuspir o veneno para fora ou de engolí-lo por dentro, para e dá um nome para ele. Em silêncio só para você. Isso é raiva. Ela está aqui e ela vai passar. Respira uma vez devagar. Só uma e não faz nada por uns segundos. Não manda a mensagem. Não dá a resposta. Não bate a porta. Deixa o veneno passar pela boca sem morder ninguém e sem se morder.
Você vai descobrir uma coisa libertadora. Quase toda raiva, se a gente não a engole nem a cospe, simplesmente vai embora sozinha. E quem do outro lado, é você, inteiro, sem veneno por dentro.