Imagina que o rei te oferece soltar da prisão uma pessoa que você ama. Só uma. E você tem ali presos três homens, o seu marido, o seu filho e o seu irmão. Qual deles você escolhe levar para casa? Pensa de verdade. Porque a resposta que essa mulher deu deixou o rei tão espantado que ele não soltou um. Soltou os três. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era Buda, ainda estava se tornando Buda, vida após vida, e aparecia ora como pessoa, ora como animal, sempre carregando uma virtude que valia a pena olhar de perto.
Nesse aqui, ele aparece como o rei de Kozala, sentado no trono, julgando os assuntos do reino. E o conto gira em torno de uma escolha, uma daquelas escolhas que parecem impossíveis. A história começa com três homens de uma mesma família que foram trabalhar no campo, longe da cidade. Estavam lá, lavrando a terra, cuidando da plantação, quando passou por aquele caminho um bando de ladrões. Gente armada, gente que vivia de roubo, e como costumava acontecer naquele tempo, quando um roubo acontecia perto de onde havia trabalhadores, a desconfiança caía logo em cima de quem estava ali. Os três foram presos, acusados de roubo, e levados acorrentados para a cidade para serem julgados pelo próprio rei.
Agora repara, esses três homens eram o marido de uma mulher, o filho dessa mulher, e o irmão dela. Os três homens da vida dela presos de uma vez só. Quando a notícia chegou, a mulher largou tudo e correu para o palácio. Chegou diante do rei, se prostrou, e ficou ali, chorando, pedindo, pedindo misericórdia pelos três. Dizia que eram inocentes, que estavam apenas trabalhando, que não tinham nada a ver com aquele bando de ladrões. O rei de Kozala, que era o Bodhisatta, o futuro Buda, olhou para ela, e havia nele uma coisa rara num governante. Ele não queria simplesmente despachar o caso, ele queria entender o coração das pessoas que julgava.
Então, num gesto que era ao mesmo tempo generosidade e teste, ele disse a ela, "Mulher, eu vejo a sua aflição, por isso vou te dar uma graça, vou libertar um dos três, escolhe, diz qual deles você quer de volta e eu o solto agora mesmo, um, só um, olhe o peso disso, pensa no que passa pela cabeça de uma pessoa nesse instante, o marido, o companheiro da vida, o homem com quem ela divide a cama e o pão, o filho, o sangue dela, a criança que ela carregou e criou, e o irmão, aquele que cresceu com ela na mesma casa, debaixo do mesmo teto, filho dos mesmos pais. A mulher ficou em silêncio, e então falou, e o que ela disse mudou tudo, ela disse mais ou menos assim, "Senhor, meu rei, se eu estiver viva eu posso conseguir outro marido, marido se encontra, e se eu tiver um marido eu posso ter outro filho, filho a gente gera de novo, mas o meu irmão, meu pai e minha mãe já morreram, não tem mais como nascer outro irmão pra mim, um irmão eu não consigo substituir de jeito nenhum, por isso senhor, se é pra soltar um só, solta o meu irmão, o rei ouviu aquilo e ficou tomado, porque repara, a resposta dela não foi a resposta do impulso, não foi o grito do amor mais quente, nem do mais óbvio, foi uma resposta pensada, lúcida, quase serena no meio do desespero, ela olhou pra cada laço da vida dela e perguntou, qual desses, uma vez perdido, nunca mais volta, qual é o que o tempo não repõe, e o rei comovido por aquela clareza, por aquela sabedoria que vinha de uma mulher comum num momento de dor, disse, mulher, você falou bem, você falou a verdade, e porque você soube ver o que é insubstituível, eu não vou te dar só o seu irmão, vou te dar os três, leva o seu marido, leva o seu filho, leva o seu irmão, todos livres, e assim foi, os três voltaram pra casa com ela, agora, repara no que esse conto está dizendo, debaixo da história, ele está falando de uma coisa que a gente quase nunca para pra fazer, distinguir o que se repõe do que não se repõe, a mulher não amava menos o marido ou o filho, ela amava todos, mas, obrigada a escolher, ela olhou pra realidade nua, e reconheceu que algumas perdas a vida ainda pode remediar, e outras não, e é justamente o que não se remedia que merece o nosso cuidado primeiro, e a gente hoje vive quase o contrário disso, a gente corre atrás do que se repõe, e deixa de lado o que é insubstituível, a gente perde noites e fins de semana atrás de dinheiro, que dá pra ganhar de novo, atrás de coisas que dão pra comprar de novo, atrás de notificações de likes de tarefas que amanhã já viraram outras tarefas, e enquanto isso os pais envelhecem, os filhos crescem, os amigos de infância se afastam, as pessoas que, uma vez perdidas, não nascem de novo, a gente trata o que é reponível como se fosse sagrado, e trata o sagrado como se fosse sempre estar ali, tem uma palavra no budismo, a Nica, que fala da impermanência, de que tudo passa, mas o conto vira essa moeda do outro lado e mostra uma sabedoria prática, já que tudo passa, aprende a reconhecer o que passa e não volta, porque é nesse o que não volta que a gente devia colocar a melhor parte da nossa atenção, do nosso tempo, do nosso amor, aqui vai uma coisa pra hoje, faz mentalmente a pergunta da mulher diante do rei, mas aplicada à sua semana, olha pra tudo o que está tomando seu tempo e separa em duas pilhas, o que, se eu perder, eu consigo recuperar depois, e o que se eu perder, não volta nunca mais, dinheiro, tarefa, status, isso quase tudo se repõe, agora, uma tarde com um pai que está ficando velho, uma conversa com um filho, um telefonema pra um irmão com quem você brigou e não fala faz anos, isso não se repõe, hoje, escolhe uma coisa da pilha do insubstituível e dedica um pedaço real do seu dia a ela, liga, visita, senta junto, porque, no fim, a sabedoria não é amar menos as coisas que passam, é saber, antes que seja tarde, qual delas não vai voltar.