Imagine um homem que passou 55 anos vivendo na floresta, comendo raiz, bebendo água de riacho, dono de uma paz que rei nenhum conseguia comprar. E aí, num único instante, ele cruza o olhar com uma mulher bonita e tudo aquilo desmorona. 55 anos de calma derretendo na velocidade de um relâmpago. Como é que uma coisa tão sólida pode rachar tão depressa? E o que é que esse desabamento tem para ensinar pra gente? Que vive cercado de tela, de propaganda, de gente bonita o tempo todo passando na nossa frente. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era Buda, ainda estava no longo caminho de se tornar Buda, vida após vida.
A gente chama esse ser de Bodhisatta, e nesse conto ele aparece como um eremita, um aceta que tinha conquistado um poder de concentração tão profundo que até voava pelos ares. E justamente por ser tão alto o ponto de onde ele caiu, a queda ensina mais. Conta a história que o Bodhisatta nasceu numa família rica, mas desde cedo o coração dele não estava nas coisas do mundo. Quando os pais se foram, ele largou a fortuna inteira, raspou o que tinha pra raspar, vestiu a roupa simples do renunciante e foi morar na floresta, nos pés do Himalaya. Ali ele se dedicou, dia após dia, ano após ano, a quietar a mente, e chegou aonde poucos chegam.
A mente dele ficou tão serena, tão reunida num ponto só, que ele alcançou os estados de absorção profunda e junto com eles, os poderes que vêm dessa quietude. Ele se sentava, fechava os olhos, e o corpo subia, voava por cima das árvores como se o ar fosse estrada, aconteceu de, naquela época, faltar sal e vinagre na dieta dele, e o corpo pedir alguma coisa diferente. Então o eremita resolveu descer pra cidade, pra benares, pra pedir comida nas ruas como faziam os santos errantes. E o rei daquela cidade quando viu aquele homem caminhando com tamanha serenidade, com tamanha compostura nos passos, ficou encantado, mandou chamá-lo, ofereceu a ele um lugar pra ficar no próprio jardim real, e cuidou pra que ele tivesse comida todos os dias.
Por 16 anos foi assim, o eremita vivia no Parque do Palácio Sereno Respeitado, e o rei o tratava como um tesouro vivo. Até que um dia o rei precisou partir pra acalmar uma revolta numa fronteira distante. Antes de ir, ele chamou a rainha, uma mulher de beleza notável, e pediu a ela um favor. Enquanto eu estiver fora, cuida do nosso santo homem. Veja que nada lhe falte. A rainha prometeu que cuidaria, e cuidou. Mas aconteceu uma coisa que ninguém tinha previsto. Um dia o eremita demorou a chegar pra sua refeição. A rainha que tinha se banhado e se perfumado pra recebê-lo com toda honra, acabou se deitando pra descansar enquanto esperava, num leito baixo, com as vestes leves.
E foi nesse momento que o eremita chegou pelos ares, descendo da janela como sempre fazia sem aviso com o farfalhar da roupa dele anunciando a chegada. A rainha, ouvindo o som, levantou-se as pressas, e na pressa as vestes escorregaram. O eremita olhou, e olhou de um jeito que ele nunca tinha olhado em 55 anos de vida. Aquela beleza entrou pelos olhos dele e foi direto ao fundo, mexeu com uma coisa que ele jamais tinha deixado-se mexer. Naquele instante, dizem os antigos, o poder dele se quebrou como um corvo com a asa partida, a concentração que o fazia voar simplesmente foi embora. Ele tomou a comida sem sentir o gosto, voltou pro jardim de pé, andando porque já não conseguia mais subir aos ares.
Deitou-se no chão e ali ficou sete dias inteiros, sem comer ardendo por dentro, consumido pelo desejo que tinha despertado. Quando o rei voltou e foi visitar o santo homem, encontrou o caído, definhando, perguntou o que tinha acontecido. E o eremita, com a honestidade dos que são honestos até na própria queda, confessou tudo. Ele disse que estava ferido pela paixão, que a vista da rainha tinha ali roubado a paz. O rei, em vez de se enfurecer, fez uma coisa surpreendente, entregou a rainha a ele, mas, em particular, instruiu a própria rainha. Salve esse homem de si mesmo, pediu. E a rainha, que era sábia, levou o eremita pra uma casa abandonada, suja, caindo aos pedaços, e disse a ele que arrumasse o lugar primeiro, que trouxesse um banco, que trouxesse água, que limpasse aqui, que varrece ali, e a cada tarefa rasteira, a cada pedido pequeno e cansativo, ela o fazia correr de um lado pro outro como criado.
Até que, no meio daquele vai e vem um milhante, no meio daquela agitação toda, o eremita parou, e pensou. Onde foi parar a minha serenidade? Onde foi parar a minha liberdade? Por causa de um desejo, virei escravo, corro feito tolo atrás de migalhas. E nesse ver claro, a febre passou. A mente dele voltou a se reunir, o poder voltou, e ele subiu de novo aos ares, ali mesmo na frente do rei. Pediu desculpas, agradeceu por terem lhe mostrado o abismo a tempo, e voltou pra floresta, dessa vez sem nunca mais descer. Agora, repara no que esse conto está dizendo. Ele não está condenando a beleza, nem a rainha, nem o eremita.
Ele está mostrando com uma honestidade quase dura, como o desejo funciona. 55 anos de prática não tornaram aquele homem imune, bastou um instante de descuido, um olhar não guardado, pra que tudo virasse fumaça. E o ponto budista aqui não é nunca mais ole pra nada bonito. O ponto é mais fino, é perceber como a gente vai sendo levado, passo a passo, de uma sensação agradável pra um desejo, do desejo pra uma fixação, e da fixação pra uma espécie de escravidão em que a gente corre, sem perceber, atrás do próprio anzol. E olha só como isso bate forte no nosso tempo. A gente vive num mundo construído de propósito pra despertar desejo.
O telefone na nossa mão é uma janela por onde. O dia inteiro desce em imagens feitas pra mexer com a gente no fundo. Corpos, coisas pra comprar, vidas que parecem melhores que a nossa. E a gente acha que tá de boa, acha que tem controle, até o dia em que percebe que já faz horas que tá rolando a tela, correndo atrás de migalhas, varrendo a casa suja do desejo aleio sem ganhar nada com isso. A nossa serenidade vai escorrendo pelo ralo do mesmo jeitinho que a doerimita escorreu. Só que a gente quase nunca tem uma rainha sábia do lado pra nos sacudir e perguntar. Você viu o que você virou? A virtude que esse conto guarda tem nome no caminho budista, é a guarda dos sentidos, o cuidado com aquilo que a gente deixa entrar pelos olhos e pelos ouvidos.
Não é fechar os olhos pro mundo. É olhar sem se prender. É reparar no comecinho, quando o desejo ainda é só um fiozinho, antes de virar corda que amarra, aqui vai uma coisa pra hoje. Dá uma olhada honesta na sua tela hoje, no que ela te oferece de manhã até de noite, e escolhe um único momento, só um, em que você sente aquele puxão pra continuar rolando, pra desejar mais, pra cair na imagem que apareceu. Nesse momento, em vez de seguir o puxão, faz como o eremita fez no meio da casa caindo aos pedaços. Para e pergunta pra si mesmo, com gentileza, sem se julgar. Onde foi parar a minha paz agora? Só isso.
Essa única pergunta, no instante certo, é o que devolve a asa do corvo. É o que faz a gente voltar a voar.