O descontentamento conjugal

Budismo · Temporada 9 · Episódio 65 de 150 — em ordem cronológica

Você tem tudo, mas sente um aperto, uma vontade de fugir? O problema não é sua vida, é o lugar onde sua mente escolheu morar.

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Transcrição

Imagina um homem que tinha tudo o que dizia querer. Uma esposa dedicada, uma casa em ordem, comida na mesa, gente que o respeitava, e mesmo assim quando ele olhava para a vida dele, sentia um aperto, uma vontade de fugir como se a felicidade verdadeira estivesse sempre na casa do vizinho, você conhece esse aperto. E se eu te disser que esse descontentamento quase jogou fora tudo o que ele tinha, e que foi preciso um sabio ler a inquietação no rosto dele para ele enxergar o que estava acontecendo. Deixa eu te contar. Esse e um dos jatacas. Os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, vida aposvida, às vezes como homem, às vezes como animal, sempre aprendendo alguma coisa no caminho.

Nessa história, o Bodhisatta, o futuro Buda, nasceu numa família de Bramanis, e quando cresceu, virou um mestre famoso daqueles que tinham 500 jovens estudando aos pés dele, vindos de longe para aprender. E entre esses 500 estudantes tinha um rapaz, um rapaz aplicado, sabe daqueles que decoram tudo, que recitam direitinho, que não dá o trabalho. Os anos passaram, ele terminou os estudos, voltou para casa, casou, e aí a vida dele, que parecia tal certinha, comecou a desandar por dentro, repara que por fora nada tinha mudado para pior. A esposa era boa para ele, cuidava da casa, cuidava dele, era do tipo que nunca faltava com nada.

Mas dentro do peito do rapaz cresceu uma coisa estranha, uma insatisfação sem nome. Ele acordava e olhava para a mulher e pensava, será que isso ou isso? Será que a vida e só isso? Ele se pegava irritado com bobagem, comecou a achar a casa apertada, a rotina sem graça, o casamento em peso, não era que ela tinha feito algo errado, e que ele tinha parado de enxergar o que tinha. A mente dele vivia em outro lugar, sempre num isi, sempre numa vida imaginaria que seria melhor que essa, e esse descontentamento foi comendo ele por dentro a ponto de ele largar tudo. Largou a casa, largou a mulher, parou de cuidar das próprias coisas, parou a te de se cuidar, ficou magro, abatido, com a pele amarelada, os olhos sem brilho, aquela inquietação que comecou como um pensamento virou doenca no corpo.

O homem definhava de tanto querer estar em outro lugar que não o lugar onde ele estava. Um dia, ele voltou para visitar o velho mestre, e o Bodhisatta, que tinha visto centenas de alunos passarem pela vida dele, bateu o olho e na hora percebeu. Tem gente que a gente conhece tal bem que o rosto conta a história antes da boca. O mestre o fez sentar e perguntou, com aquela calma de quem não julga, meu filho, você está abatido, está consumido, o que aconteceu com você, que mal te assola, e o rapaz, com a voz baixa, confessou, disse que estava infeliz no casamento, que sentia um descontentamento que não passava, que pensava em abandonar tudo de vez.

A esposa, a casa, a vida que tinha construído, porque nada daquilo o satisfazia mais, o mestre ouviu tudo. E então falou uma coisa que o rapaz não esperava. Ele disse, mais ou menos assim, meu filho, sua esposa não fez nada de errado contra você, ela não te traiu, não te abandonou, não deixou de cuidar de você. O problema não é esta nela. O problema é esta nessa inquietação que você alimenta dentro de si, esse querer sempre o que não se tem. Uma esposa boa não e culpada pelo descontentamento de um marido que esqueceu de valorizar o que recebeu. O mal não mora na sua casa. Mora na sua mente que não sossega.

E o mestre continuou, com gentileza, mostrando ao rapaz que aquele aperto no peito não ia embora se ele trocasse de casa, de mulher, de cidade. Porque a inquietação viaja junto. Ela ia atrás dele para onde fosse. O que precisava mudar não era a vida lá fora. Era o jeito de olhar para ela, era aprender a reconhecer o bem que já estava ali, do lado dele, todos os dias, tal perto que tinha virado invisível. E aquelas palavras caíram como água numa terra rachada. O rapaz, que tinha vindo arrastando o corpo doente e a alma confusa, foi entendendo, foi soltando o peso. Aos poucos, a paz voltou ao coração dele.

Ele voltou para casa, voltou para a esposa e voltou com os olhos novos. A mesma casa, a mesma mulher, a mesma rotina e tudo agora com outro sabor. Porque ele tinha parado de comparar o que tinha com o sonho que não existia. O descontentamento se foi e ficou a gratidão. Agora repara no que esse conto está dizendo, porque ele fala da gente hoje de um jeito quase incomodo. A gente vive numa época que vendeu para a gente a ideia de que a felicidade e sempre o próximo passo, o próximo relacionamento, o próximo emprego, a próxima casa, o próximo lugar. A gente desliza o dedo na tela e vê a vida dos outros editada, sorrindo, viajando e olha para própria vida e acha a pouca.

Esse rapaz do conto e a gente toda vez que olha para alguém que cuida de nos e pensa podia ser melhor, em vez de pensar que sorte a minha. O budismo tem um nome para esse veneno, e assede o desejo que nunca se sacia, o tanha, que faz a gente correr atrás de mil coisas e nunca chegar em lugar nenhum. E o conto mostra a virtude que cura isso, que o contentamento, o santute, essa capacidade rara de olhar para o que se tem e dizer, e suficiente, e bom, eu já recebi muito. Não, e conformismo, repara bem e parar de jogar fora o presente em nome de um futuro que só existe na imaginação. Aqui vai uma coisa para hoje.

Pensa numa pessoa da sua vida que cuida de você, sem alarde, todo dia, no automático, e que talvez por isso você tenha parado de enxergar. Pode ser quem divide a casa com você, um pai, uma mãe, um amigo. Hoje, antes de dormir, dirija essa pessoa um agradecimento concreto, dito em voz alta, nomeando uma coisa específica que ela faz por você. Não um obrigado genérico, mas um obrigado por isso, exatamente isso. E quando aquela velha vontade de achar que a vida boa esta em outro lugar, bater de novo, faz a pergunta do mestre para si mesmo, o mal mora aqui fora, ou mora na minha mente que não sossega.