É difícil conhecer o coração dos outros

Budismo · Temporada 9 · Episódio 64 de 150 — em ordem cronológica

Ele entregou tudo à mulher que amava. Foi a maior prova de confiança ou o pior erro da vida dele?

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Transcrição

Uma mulher chega chorando, transtornada, dizendo que ama o marido mais do que a própria vida, que sem ele não consegue respirar, e o marido, como ouvido, faz dela guardiante tudo o que ele tem. Agora, me responde, ele acabou de fazer um bom negócio ou um péssimo negócio. A resposta a essa pergunta nesse conto é o que separa um homem que enxerga das pessoas o que elas mostram de um homem que enxerga o que elas são. O anto deixa-o te contar. Ele é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, mas estava no longo caminho de se tornar um. Nessas histórias ele aparece às vezes como um animal, às vezes como gente comum, e a gente vai acompanhando vida após vida, como ele foi afiando a sabedoria.

Nesse aqui, ele nasce numa família de brâmanes, e quando cresce, vai estudar em taxila, aquela cidade antiga que era tipo a grande universidade do mundo daquele tempo. Lá ele se torna mestre, um professor renomado, com 500 jovens aprendendo com ele, e entre esses 500 haviam um rapaz dedicado, sincero, daqueles que o mestre olha e pensa, esse aqui tem futuro. Esse rapaz cuidava do professor com carinho de filho, buscava água, arrumava as coisas, ficava por perto, e com o tempo foi se tornando muito próximo da família do mestre, tão próximo que acabou se casando com a própria filha do professor.

Só que esse rapaz, apesar de tudo, vivia atormentado por uma coisa, a esposa, não porque ela fosse má, o problema era ele, ele nunca conseguia ter certeza do que se passava dentro dela, ela dizia que o amava, e ele ficava na dúvida, ela sorria, e ele se perguntava se o sorriso era de verdade, ele queria, de algum jeito, abrir o peito dela e ler ali dentro como quem leu uma carta, e claro que isso é impossível, e essa impossibilidade ia corroendo o sujeito por dentro, deixando ele magro abatido, distraído, um dia o mestre repara, meu filho, você anda definhando o que aconteceu, porque esse rosto, e o rapaz convergonha conta, mestre, é a minha mulher, eu queria saber se ela me é fiel, se ela me ama de verdade, mas eu não consigo descobrir, eu fico tentando ler o coração dela e não consigo, isso não me deixa em paz, o mestre ouviu, e em vez de rir do aluno, ele entendeu, e ele conhecia o coração humano, e aí ele decidiu dar uma lição que o rapaz nunca ia esquecer, olha que coisa engenhosa, filho, ele disse, as mulheres, e na verdade as pessoas em geral, não têm um caráter fixo, igual pra todo mundo, elas se comportam de um jeito com quem as trata bem e de outro jeito com quem não as trata, eu vou te ensinar a perceber isso, manda a sua esposa vir aqui, a minha casa prestar serviço, cuidar de mim, e faz o seguinte, durante alguns dias, sempre que ela vier, traga pra ela um presente, uma flor, um perfume, uma fruta, alguma coisa boa, e aqui está o segredo, diga ela que esse presente foi você quem mandou dar, que partiu de você, faça isso por um tempo, o rapaz não entendeu muito bem, mas confiava no mestre, e fez, mandou a esposa servir na casa do velho professor, e todo dia, lá, ela recebia um mimo, sempre com o mesmo recado, foi seu marido que pediu pra te darem isso, passados alguns dias, o mestre chamou o rapaz de novo, agora vem cá, hoje, quando ela estiver aqui em casa, eu vou tratar dela de outro jeito, eu vou me aproximar, vou fazer elogios, vou me oferecer, e você vai ficar escondido, num canto só observando, observa bem o que ela faz, e foi o que aconteceu, quando a moça chegou pra servir, o velho mestre que ela conhecia, que era pai dela inclusive, começou a se mostrar interessado, a galantear, a sugerir um encontro às escondidas, e o rapaz, escondido, com o coração na mão, esperando o pior, só que a moça fez uma cara de horror, repreendeu o velho na hora, o senhor está falando sério, comigo, eu sou casada, eu respeito o meu marido, eu respeito o senhor, nunca mais me fale uma coisa dessas, e saiu indignada, o rapaz viu tudo, e foi como se um peso de mil quilos saísse das costas dele, o mestre então se virou, e disse o que ficou guardado nesse conto, está vendo, é difícil conhecer o coração dos outros, as pessoas mostram uma face pra quem as honra, e outra pra quem as desonra, sua esposa rejeitou até a mim, a quem ela conhece, porque ela é firme no coração, para de tentar ler por dentro o que só se revela por fora, no tempo certo, pelo modo como a pessoa age quando é testada de verdade, agora repara no que esse conto está dizendo, a gente vive obcecada em decifrar os outros, quer saber o que o outro realmente pensa, o que ele sente de verdade, se aquele sorriso é sincero, se aquela mensagem tem segunda intenção, e a gente sofre com isso porque o coração do outro é mesmo um lugar fechado, durajana, o nome desse jataca, aponta justamente pra isso, é difícil, e talvez impossível, conhecer por dentro o que vai na alma de alguém, mas olha a sabedoria do mestre, ele não tenta adivinhar, ele observa, ele sabe que caráter não se lê na cabeça da gente, ele aparece nas ações, e principalmente nas ações quando ninguém mandou, quando a pessoa é tentada, quando seria fácil fazer diferente, no nosso tempo isso fica ainda mais embaçado, a gente acha que conhece gente pelo perfil, pela foto, pela legenda, pelo número de seguidores, a gente julga o coração alheio por três linhas de texto numa tela, e ao mesmo tempo a gente exige que confie na gente na base da palavra, do juro que é verdade, só que confiança de verdade não se constrói com declaração, se constrói com tempo e com prova nas pequenas coisas, o budismo chama isso de olhar com atenção, sem pressa de concluir, sem grudar num julgamento, e tem outra coisa fina aqui, o sofrimento do rapaz não vinha da esposa, vinha da ansia dele de controlar o incontrolável, querer ter certeza absoluta sobre o coração de outra pessoa é uma forma de tormento que a gente fabrica sozinho, a paz veio quando ele parou de tentar invadir e começou a simplesmente reparar, com calma, no que se revelava, aqui vai uma coisa pra hoje, pensa numa pessoa que você anda tentando decifrar, um par, um amigo, um colega, alguém de quem você fica remoendo, será que ela é sincera comigo? Hoje larga a tentativa de ler a mente dela, em vez disso faz duas coisas, primeira, repara nas ações pequenas dela ao longo do tempo, não numa frase solta, mas no padrão do que ela faz quando ninguém cobra, e segunda, vira o espelho pra você mesmo e pergunta que faça se você mostra pra quem te honra e que faça se você mostra pra quem te contraria, porque o único coração que você pode mesmo conhecer por dentro e cuidar é o seu.