O eremita e a mulher resgatada

Budismo · Temporada 9 · Episódio 63 de 150 — em ordem cronológica

Você ajudou alguém esperando algo em troca? Prepare-se: o gesto mais nobre pode se transformar na sua maior prisão se confundido com o desejo de posse.

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Transcrição

Imagina que você salva alguém da morte. Tira essa pessoa da água, carrega no ombro pela floresta, divide o seu pouco de comida com ela. Ruida dela a te ela voltar a respirar com calma. E, no fim, essa mesma pessoa olha pra você e te trai. Você ainda acreditaria que valeu a pena salvar? Essa pergunta incomoda. E ela esta bem no centro desse conto. Deixa eu te contar. Esse e um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda e estava no longo caminho de se tornar um. Nessas vidas ele aparece as vezes como rei, as vezes como animal, as vezes como nessa aqui, como um eremita que vivia sozinho na beira de um grande rio.

O Bodhisatta, o futuro Buda, tinha deixado a vida da cidade pra trás. Construiu uma cabana simples de folhas perto da margem, comia o que a floresta dava, raizes, frutas e passava os dias em silêncio, cuidando da própria mente. Era um homem que tinha aparado os desejos como quem apara um jardim. Nada de pressa, nada de cobica, só a água correndo e o vento nas arvores. Agora, num certo dia, choveu forte rio acima. As águas subiram e desceram com furia, arrastando galhos, troncos, tudo o que encontravam. E no meio dessa correnteza, veio uma mulher, filha de um mercador rico. Ela tinha sido levada pela enchente, agarrada num tronco gritando, já quase sem forca.

A morte tava perto, o Eremita ouviu o grito e não hesitou, entrou na água, lutou contra a corrente, alcançou a mulher e a puxou pra terra firme, carregou ela à teia cabana, acendeu o fogo, aqueceu o corpo gelado dela, deu de comer fruta doce e raiz, ficou alivelando a tela parar de tremer. Por dias cuidou dela como quem cuida de um passar o que caiu do ninho. Pura compaixão, sem segunda intencão. Meta, a gente chama, esse amor que não pede nada de volta, sou que aconteceu uma coisa. A mulher era bonita, e com o convivio, com o cuidado, o coração do Eremita que estava tal quieto havia tanto tempo, comecou a se mexer.

Ele se apaixonou, largou as praticas, largou o silêncio, deixou de lado tudo o que tinha construído dentro de si e decidiu viver com ela, ali como marido e mulher. Caiu da floresta, voltou pro mundo, pela mulher que ele tinha salvado das águas, ele jogou fora a própria paz, por um tempo talvez, parecer se felicidade, mas repara no que vem depois, a mulher não tinha pelo Eremita o que ele tinha por ela, o encanto dela era de fora pra dentro, era pelo conforto pela segurança e quando apareceu outro homem mais novo, mais cheio de promessas, ela foi embora com ele, sem olhar pra trás. O homem que tinha entrado no rio pra salvar a vida dela ficou ali, sozinho, com as maus vazias e o coração em pedaços, e aqui o conto faz uma coisa que sols de atacas fazem com essa delicadeza, ele não termina na tristeza, o Eremita, depois da dor, depois de ter perdido tudo, parou e olhou pra dentro, e entendeu, entendeu que a água que tinha quase matado a mulher era a mesma natureza da paixal que tinha quase matado a ele, entendeu que tinha confundido duas coisas muito diferentes, salvar alguém por compaixal, que inobre, e prender-se a alguém por desejo que aprisiona, uma liberta, a outra afoga, e ele tinha trocado uma pela outra sem perceber, então o Bodhisatta voltou, voltou pra cabana, voltou pro silêncio, voltou pra pratica, sou que agora com os olhos abertos, tinha aprendido, na própria carne, a diferença entre o amor que dá e o apego que toma, e, no recolhimento de novo, recuperou a serenidade que tinha perdido, mas dessa vez ela era mais funda, porque tinha passado pelo fogo, agora, repara no que esse conto está dizendo, ele não está dizendo que você não deve salvar ninguém, pelo contrário, a compaixal do Eremita ao entrar no rio e linda, e ele nunca se arrependeu disso, o que o conto ilumina e o momento exato em que o cuidado virou posse, e olha que momento difícil de enxergar, porque, no nosso tempo, a gente quase glorifica essa confusão, a gente chama de amor o ciúme, chama de cuidado o controle, faz por alguém e já vai cobrando que a pessoa fique, que a pessoa retribua, que a pessoa pertença, a gente dá um copo de água e quer o rio inteiro em troca, e tem mais, a gente vive numa época que ensina a medir tudo pelo retorno, investe numa relação esperando juros, ajuda esperando reconhecimento, e quando a pessoa vai embora, como a mulher foi, a gente sente que foi roubado, que foi enganado, que perdeu o investimento, mas o Eremita no fim descobre uma coisa preciosa, o que ele deu de verdade, a vida que ele salvou, isso ninguém tirou dele, sou o que ele tentou agarrar e que escapou pelos dedos, o que, dado com as mãos abertas, não se perde, o que se aperta na mão fechada e que foge, aqui vai uma coisa pra hoje, pensa numa pessoa de quem você cuida, ou cuidou, e por quem você sente que se sacrificou, e faz uma pergunta honesta, sou pra você mesmo, o que eu fiz, eu fiz pra ajudar essa pessoa, ou pra aprender ela perto de mim, e, se você perceber que tem um fio de cobranca ali, de espera de retorno, experimenta soltá-lo, mentalmente hoje, diz pra você, eu dei porque quis dar, e isso já está completo, você vai notar que, no instante em que você para de cobrar o rio, o copo de água que você ofereceu finalmente vira o que ele sempre devia ter sido, um gesto livre, e gesto livre, esse sim, ninguém nunca consegue te tirar.