A donzela guardada desde o ovo que ainda enganou

Budismo · Temporada 9 · Episódio 62 de 150 — em ordem cronológica

Você acredita que pode controlar a virtude de alguém? Prepare-se para descobrir que todo muro é uma ilusão e o verdadeiro veneno nasce do controle.

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Transcrição

Imagina uma menina criada dentro de uma torre, num andar tão alto que nenhum pé estranho jamais pisou ali, sem amigas, sem vizinhos, sem ninguém do lado de fora. Vigiada o dia inteiro, a noite inteira, a vida inteira. E mesmo assim, mesmo com toda essa guarda, ela encontrou um jeito de fazer o que bem entendia. A pergunta que esse conto deixa no ar é meio incômoda. Dá pra aprender a virtude de alguém com muro? Dá pra garantir a honestidade de uma pessoa trancando ela num quarto? Deixa eu te contar. Esse é um dos játakas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, ainda estava no longo caminho de se tornar Buda e nascia hora como gente, hora como bicho, sempre aprendendo alguma coisa.

Nessa história ele nasce como um rei sábio, um rei que gostava de olhar a vida de perto e tirar dela suas lições. Ela se que viviam, na cidade onde esse rei reinava, dois homens, dois jogadores, dois apostadores que passavam os dias inclinados sobre o tabuleiro de dados, um tentando passar a perna no outro. E havia entre eles uma desconfiança antiga, dessas que só existe entre quem se conhece bem demais, um deles era esperto de um jeito torto. Quando começava a perder, ele tinha um truque, enfiava um dado na boca, escondia e dizia que tinha se perdido no tabuleiro, que o jogo não valia, que estava tudo embolado.

Sumia com a peça para não ter que pagar a aposta, o outro perdia o dinheiro e ficava sem entender direito como, mas desconfiava, desconfiava muito, aí esse segundo homem teve uma ideia, ele pegou os dados e passou neles uma camada finíssima de veneno, um veneno discreto, sem cheiro, sem cor, e convidou o trapaceiro para mais uma partida, começaram a jogar, e, como sempre, quando a sorte virou contra ele, o esperto fez o de costume, pegou o dado e enfiou na boca para esconder, só que dessa vez o veneno estava lá, em pouco tempo os olhos dele rodaram, o corpo tremeu, e ele caiu ali mesmo ardendo por dentro, o outro olhou aquilo e soltou, sem pena nenhuma, mais ou menos assim.

Você engoliu o dado feito que engole veneno, ainda não sabe o quanto, e o trapaceiro morreu envenenado pela própria malandragem. Agora vem a parte da Donzela, que é o coração do conto. Esse mesmo rei sábio, o Bodhisatta, ouviu falar de um caso que corria pela cidade, a história de um homem riquíssimo que tinha uma teoria sobre as mulheres, ele dizia, com toda a convicção do mundo, que mulher nenhuma é fiel, que todas enganam, que é da natureza delas trair, e ele decidiu provar a própria teoria do jeito mais radical possível. Esse homem tomou para si uma menina recém-nascida, e resolveu criá-la num isolamento completo.

Só mulheres podiam chegar perto dela, nenhum homem, jamais, exceto ele próprio, ela cresceu sem nunca ter visto outro homem na vida, como se tivesse sido guardada, desde o ovo, dentro de uma casca, por isso o nome do conto fala da Donzela criada desde o ovo, a ideia dele era simples e arrogante, se eu controlar tudo, se eu não deixar nem o ar de fora entrar, ela será incapaz de me enganar, a virtude dela será a obra do meu muro, e, no começo parecia funcionar, a torre era alta, a guarda era constante, e a moça crescia ali, linda, isolada, vigiada, o homem se gabava, viu só, com vigilância se garante qualquer coisa, mas a vida, como sempre, achou afresta, um rapaz astuto soube da história e quis justamente o que era proibido, ele descobriu o jeito de subir até aquele andar trancado, escondido, sem que os guardas vissem, entrando como contrabando de afeto onde nem o vento entrava, e os dois passaram a se encontrar, no segredo, bem debaixo do nariz do dono da torre, daquele homem que jurava ter o controle de tudo, quando o caso chegou até o rei, o Bodhisatta não ficou nem um pouco surpreso, ele juntou as duas histórias na cabeça, a do jogador e a da donzela, e enxergou o fio que ligava as duas, falou, com aquela calma de quem entendeu a vida, mais ou menos assim, não existe muro que segure quem não quer ser segurado, assim como não existe esperteza que escape do próprio veneno, a trapaça do jogador o matou por dentro, e a torre do homem rico não serviu de nada, porque ele tentou plantar virtude por fora, pela força, e virtude por fora não cola, não pega, não vinga, agora, repara no que esse conto está dizendo, porque ele é mais fino do que parece.

A gente hoje vive com uma fé enorme na vigilância, achamos que controle resolve, coloca a câmera, coloca a senha, coloca rastreador no celular do filho, no telefone do parceiro, no carro, no relógio, monitora a localização, lê as mensagens, confere o histórico, e a gente sente um alívio momentâneo, uma sensação de que agora sim está tudo sob controle, só que o conto antigo sussurra uma verdade que a gente tema e não ouvir, a honestidade que nasce só do medo de ser pego não é honestidade, é medo, e o medo sempre acha fresta, a donzela guardada desde o ovo enganou não porque era má, mas porque a virtude imposta de fora nunca foi virtude dela, era só a vontade do dono da torre, e ninguém carrega no coração uma virtude que é de outra pessoa, o budismo aponta para um caminho bem diferente, a retidão verdadeira, aquilo que se chama de sila, a conduta ética, ela vem de dentro, vem da ire, daquele senso interno de vergonha sadia, de quem não faz o errado nem quando ninguém está olhando, simplesmente porque entendeu que o errado machuca, machuca o outro, e machuca a gente mesmo, esse tipo de bondade nenhuma câmera produz, nenhuma torre constrói, só a pessoa, por ela mesma, decidindo, e tem ainda o jogador envenenado para fechar o recado, ninguém vive de truque e acaba engolindo o próprio truque, a esperteza torta volta, sempre volta, aqui vai uma coisa para hoje, pensa numa relação da sua vida onde você anda controlando demais, pode ser com um filho, com quem você ama, com alguém do trabalho, aquele impulso de checar, de vigiar, de garantir pela força, e experimenta, hoje, trocar um pouco desse controle por uma conversa de verdade, em vez de conferir o celular, pergunta como uma pessoa está, em vez de erguer mais um muro, planta um pouco de confiança e veja o que cresce, porque a única virtude que se sustenta é a que mora por dentro, e essa nasce do cuidado, nunca da prisão.