Imagina que existisse um encantamento, uma fórmula secreta, capaz de te proteger de qualquer perigo do mundo. E imagina que o maior do sábio te dissesse. Para aprender essa fórmula, você precisa antes ser ferido, precisa primeiro tomar um tombo, sentir na pele uma desilusão das grandes, você toparia a resposta nesse conto. Decide se um rapaz vai passar a vida inteira escravo de um desejo, ou se vai aprender, na hora certa, a ver as coisas como elas realmente são. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era Buda, e estava no longo caminho de se tornar um.
Nessas histórias ele aparece ora como pessoa, ora como bicho. E aqui ele aparece como um grande mestre, daqueles a quem os jovens eram mandados para aprender tudo o que a vida pede. Conta-se que naquele tempo o Bodhisatta, o futuro Buda, era um professor famoso numa cidade antiga, um homem de cabeça serena e olhar atento, que ensinava as artes e as ciências a centenas de alunos, e entre esses alunos havia um rapaz, filho de boa família que tinha um problema bem particular. Ele morava só com a mãe, uma mulher já de certa idade, e essa mãe, por mais velha que fosse, vivia com a cabeça e o coração agitados, sempre atrás de paixões, sempre buscando prazer onde não devia, esquecida da própria dignidade, o rapaz amava a mãe.
Amava de verdade, mas via o que estava acontecendo, e aquilo envergonhava e o feria por dentro. Ele andava cabisbaixo, distraído, sem conseguir se concentrar nos estudos. E o mestre, que reparava em tudo, um dia o chamou de lado e perguntou, com gentileza, meu filho, o que está te consumindo assim. E o rapaz, depois de muito hesitar, contou, contou da mãe, contou da vergonha, contou de como não sabia mais o que fazer, e disse, quase sem perceber o que estava dizendo. Às vezes eu até queria que ela fosse diferente, que ela morresse pra acabar com essa angústia. Reparou? O desejo dele, ali, era um desejo torto, nascido da dor.
Ele estava encantado pela ideia de que, sumindo o problema, sumiria o sofrimento. O mestre escutou tudo em silêncio, e então fez uma coisa estranha. Ele disse, eu vou te ensinar um encantamento, um encantamento poderoso, chamado Asatamanta, o feitiço que protege contra o desejo, contra a paixão que cega. Mas atenção, esse encantamento só funciona se você o recitar no lugar certo, da maneira certa. Você vai construir uma pequena cabana fora da cidade, num lugar afastado, e vai levar sua mãe pra lá. E lá, sozinho com ela, três vezes ao dia, você vai dizer pra ela, sempre, como ela é bela, como é graciosa, como você admira, você vai elogiar a beleza dela repetidamente, e tratá-la como se ela fosse a mulher mais encantadora do mundo.
Só assim a fórmula se completa. O rapaz achou aquilo o cúmulo da esquisitice, mas confiava no mestre, e fez. Levou a mãe pra cabana isolada, e começou. De manhã, ao meio dia e à noite, ele se sentava ao lado dela e a cobria de elogios. Que olhos lindos a senhora tem. Que vó suave, como a senhora é encantadora. Dia após dia, acontece que a mãe, vivendo daquele jeito sozinha com o filho, ouvindo o tempo todo o quanto era desejável, começou a se iludir. O desejo nela que já era forte, foi crescendo até virar uma espécie de febre, e um dia ela olhou pro próprio filho com olhos que uma mãe nunca deveria ter, e tomada por aquela paixão cega se ofereceu a ele.
Achou que aqueles elogios todos eram um convite. O rapaz ficou horrorizado, recuou, o estômago revirando, e finalmente, finalmente enxergou. Naquele instante o encantamento se completou de verdade. Não havia fórmula mágica nenhuma. O assatamanta, o feitiço contra o desejo, era exatamente aquilo. Ver com os próprios olhos, sem disfarce, até onde a paixão sem freio é capaz de arrastar uma pessoa. Ver o desejo despido de toda sua poesia, mostrando a cara feia que ele sempre teve por baixo do encantamento. O ele voltou correndo pro mestre, ainda trêmulo, e contou. E o Bodhisatta, com aquela calma de quem já sabia o caminho, disse, "Agora você aprendeu.
Eu não podia te explicar com palavras o que é o desejo descontrolado. Você precisava ver. A casa, o isolamento, os elogios, nada disso era magia. Era um espelho. Eu fiz você levantar o véu do encantamento pra que, debaixo dele, você encontrasse a desilusão. E é essa desilusão, meu filho, que te liberta. Agora repara no que esse conto está dizendo, debaixo da casca um pouco chocante da história. Ele está falando do jeito como o desejo trabalha dentro da gente. O desejo quase nunca chega mostrando a verdade. Ele chega encantado, embrulhado em promessa, sussurrando que do outro lado tem felicidade garantida.
É o feitiço. E a sabedoria budista não pede pra você odiar o desejo, nem pra fingir que ele não existe. Ela pede uma coisa mais corajosa. Que você olhe pra ele de frente, que veja aonde ele leva quando ninguém segura as rédeas. Quando a gente vê isso de verdade, o encantamento quebra sozinho, ninguém precisa te proibir de nada. Você simplesmente para de querer. E olha como isso bate com o nosso tempo. A gente vive cercado de máquinas projetadas justamente pra manter o encantamento sempre aceso. A tela que te promete que a próxima rolada vai te satisfazer. A propaganda que jura que aquela compra vai preencher o buraco.
O aplicativo que garante que a próxima pessoa, a próxima notificação, a próxima coisa, dessa vez sim, vai ser o suficiente. A gente vive elogiando os próprios desejos, recitando pra eles o tempo todo o quanto são lindos e necessários, igualzinho o rapaz elogiando a mãe na cabana. E quase nunca a gente para pra ver, sem vel, aonde aquilo está nos levando. Aqui vai uma coisa pra hoje. Pega um desejo que anda te puxando com força. Daqueles que prometem que do outro lado tem paz. E antes de ceder, faz o que o mestre fez. Tira o encantamento. Em vez de imaginar como vai ser bom conseguir, imagina, com sinceridade, a cena completa.
Inclusive o vazio que costuma vir logo depois. E quantas vezes esse mesmo desejo já te prometeu o mundo e te deixou na mão. Não é pra se culpar. É só pra ver de frente. Porque quando a gente enxerga o desejo do jeito que ele é de verdade, a coleira que ele tinha em volta do nosso pescoço afrouxa, e a gente respira.