O tocador de búzio insistente

Budismo · Temporada 9 · Episódio 60 de 150 — em ordem cronológica

Você já transformou algo bom em problema por insistir demais? Seu pior inimigo pode ser o próprio sucesso.

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Transcrição

Imagina que você descobre uma coisa boa de verdade, algo que funciona, que faz bem, que dá certo. E aí você pensa, se um pouquinho é bom, muito vai ser muito melhor. Aperta mais, faz de novo, mais alto, mais forte, mais demorado. Você já viveu isso? Esse conto fala justamente de um homem que tinha um dom maravilhoso nas mãos e que quase perdeu tudo porque não soube parar, deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, vida após vida, às vezes como gente, às vezes como bicho, sempre aprendendo alguma coisa sobre como viver direito.

E nesse, o Bodhisatta aparece como um jovem que olha de fora e enxerga o que o personagem principal não consegue enxergar. A história é assim, vivia, numa aldeia, um tocador de buzio, você sabe o que é um buzio, né? Aquela concha grande do mar, em espiral, que quando você sopra na ponta solta um som fundo comprido que atravessa o ar, pois esse homem soprava como ninguém, tirava daquela concha um som que enxia o vale, que fazia as pessoas pararem o que estavam fazendo só para escutar, era o orgulho dele e era também o sustento dele. Um dia, esse tocador convidou o velho pai para uma viagem, iam atravessar regiões distantes para tocar nas festas, ganhar a vida com o som do buzio, e pelo caminho, atravessando uma floresta, os dois passaram por uma estrada que tinha fama ruim, era território de ladrões.

Gente que se escondia entre as árvores esperando o viajante desavisado para assaltar, e o pai mais experiente foi logo avisando "olha filho, aqui é lugar perigoso, o melhor é a gente passar quieto sem chamar atenção e seguir reto até sair da mata". Nada de buzio agora, mas o filho tinha aquela confiança toda no próprio talento, e pensou consigo. Ladrão também é gente, ladrão também tem ouvido. Quando ouvirem esse som lindo que eu faço, vão ficar tão encantados, que vão me deixar passar em paz, e levou o buzio à boca, e começou a tocar. Olha, no começo, até que não foi má ideia, os ladrões ouviram aquele som diferente vindo da floresta, e ficaram intrigados, parados, escutando.

Houve um instante, ali, em que a música segurou a violência, em que a beleza desarmou o perigo. Se ele tivesse soprado uma vez, talvez duas, e depois descido para um som suave, e seguido o caminho, quem sabe a coisa toda terminava em encanto, só que o tocador não parou, pelo contrário. Vendo que o som tinha chamado atenção, ele se empolgou, pensou, "tá funcionando, então vou tocar mais", e sobrou mais forte, e mais, e mais alto ainda, sem descanso, achando que quanto mais tocasse, mais seguro ficaria, e aí o que era encanto virou irritação. Os ladrões, que primeiro acharam bonito, começaram a se incomodar com aquele barulho que não cessava nunca, que enchia a floresta inteira, que não deixava silêncio, e perceberam o óbvio, se tem alguém soprando buzio com essa empolgação, é porque tem viajante por perto.

Viajante quer dizer pertenses, pertenses querem dizer roubo, saíram do esconderijo, foram até os dois, tomaram tudo o que eles tinham, e ainda deram uma surra no tocador, que continuava com a concha na mão, sem entender o que tinha dado errado. O velho pai, no chão, olhou para o filho e disse, "mais com tristeza do que com raiva, é o seu próprio som que ia te trazer a ruína. Se você tivesse parado na hora certa, a gente estava do outro lado da mata, inteiro, com nossas coisas. O que te derrubou não foi tocar mal, foi não saber a medida, agora, repara no que esse conto está dizendo.

Não tem nada de errado com o buzio, o dom do rapaz era real, o som era lindo de verdade, o problema não estava no talento dele, estava na falta de freio, na incapacidade de reconhecer o ponto em que o bom começa a virar excesso, e o excesso começa a virar dano. Os antigos chamavam isso de mata-niuta, que é saber a medida, conhecer o quanto basta. É uma virtude silenciosa dessas que ninguém aplaude, mas que decide muita coisa. E olha como isso bate na gente hoje. A gente vive num tempo que sussurra o tempo todo no nosso ouvido à lógica exata do tocador de buzio. Se um pouco é bom, mais é melhor.

Funcionou uma vez? Repete 10. O post deu certo? Posta mais. O treino fez bem? Treina até lesionar. O trabalho rendeu? Trabalha de madrugada também? Ganhou um dinheiro? Quero dobro. A gente foi ensinado a achar que parar é fraqueza, que o limite é coisa de quem não tem ambição. E aí sem perceber, a gente sopra o próprio buzio cada vez mais alto e atrai exatamente o tipo de ruína que estava tentando evitar. O cansaço que não passa. O relacionamento que sufoca de tanto carinho cobrado. A comida boa de peso. A palavra certa que, repetida demais, vira chatice. Quase tudo que faz mal na nossa vida não é coisa ruim em estado puro.

É coisa boa sem freio. É o buzio que não soube calar na hora de calar. E o mais bonito do conto é que ele não condena o som. Não diz pra você guardar o buzio na gaveta e nunca mais tocar. Diz outra coisa, mais fina. Toque, sim, mas saiba a hora de baixar o volume. A sabedoria não é ter menos vida. É ter o senso da medida dentro da vida que você tem. E aqui vai uma coisa pra hoje. Pensa numa coisa boa que você anda fazendo em excesso sem perceber. Pode ser trabalho, pode ser comida, pode ser tela, pode ser até cuidar demais de alguém. E hoje, só hoje, escolhe parar essa coisa um pouquinho antes do ponto em que você normalmente pararia.

Antes do estômago dizer chega. Antes do corpo pedir socorro. Antes de a outra pessoa se cansar. Tira o buzio da boca enquanto o som ainda está bonito. Porque saber a hora de parar. Esse é o que protege todos os outros.