O tocador de tambor que exagerou

Budismo · Temporada 9 · Episódio 59 de 150 — em ordem cronológica

Você encontrou o segredo do sucesso. Mas e se a receita para o fracasso for fazer *mais* daquilo que funciona?

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Transcrição

Imagina que você descobriu uma coisa que funciona. Uma batida, um jeito de falar, um truque que faz as pessoas pararem pra te ouvir. E aí vem aquela vozinha. Se um pouco funciona, muito vai funcionar mais ainda. Será que vai? A resposta a essa pergunta. Nesse conto, separa quem volta pra casa com a bolsa cheia de quem volta pra casa com a bolsa vazia e a estrada inteira contra ele. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, quando ainda estava trilhando o longo caminho pra se tornar Buda. Nessas histórias ele aparece às vezes como gente, às vezes como bicho, sempre aprendendo ou ensinando alguma coisa sobre como viver direito.

E nesse aqui ele aparece como um pai, um pai sábio, tocador de tambor, levando o filho pela estrada. Repara na cena. O Bodhí sata era um tocador de tambor, daqueles que viviam de tocar nas festas, nas feiras, nas portas das casas onde havia comemoração. Era o ofício dele, e ele tinha um filho, um rapaz já crescido, que também sabia bater no tambor. Um dia chegou à notícia de que ia ter uma grande festa numa cidade distante, em Benares. Muita gente, muito dinheiro circulando, muita oportunidade pra dois bons tocadores ganharem o sustento de vários meses. Então o pai falou. "Filho, vamos pra Benares.

Vamos tocar nessa festa, ganhar o nosso e voltar. Pegaram seus árvores e caíram na estrada. Agora, entre a aldeia deles e Benares havia uma floresta. E todo mundo sabia que aquela floresta era perigosa. Não por causa de bichos, por causa de ladrões. Era refúgio de quadrilha gente que ficava escondida no mato esperando o viajante passar pra assaltar. Quando entraram na mata, o rapaz animado, alegre da vida, começou a tocar o tambor. Batia sem parar, com um estardalhaço que ecoava por entre as árvores. Tum, tum, tum, sem descanso. O pai chegou perto e disse com calma, "Filho, não bate assim, sem parar.

Bate de vez em quando. Bate como se fosse um grande senhor passando na estrada, um nobre importante daqueles que têm soldados de escolta. Bate só um pouquinho, espaçado, com peso, e depois fica quieto". Mas o rapaz era jovem, tava se divertindo e pensou consigo. Se o tambor afasta os perigos, se faz a gente parecer importante, então quanto mais eu tocar, mais protegido eu vou estar. Mais é melhor, não é? E continuou. Tum, tum, tum, sem parar, enchendo a floresta inteira de barulho. E os ladrões ouviram. No começo, quando ouviram o primeiro tum espassado, ali no longe, eles até desconfiaram.

Pensaram, deve ser algum nobre de barulho, com guarda armada, melhor não mexer. Mas daí o tambor não parava mais. Batia e batia e batia, sem ritmo de comitiva, sem aquele silêncio que faz a coisa parecer séria. E os ladrões entenderam na hora. Isso aí não é nobre nenhum, isso é moleque com tambor. Tem só dois sujeitos andando, estão se anunciando para a floresta inteira. Então saíram do esconderijo, foram em casa e roubaram tudo. Levaram um pouco que pai e filho tinham, levaram até o que iriam ganhar, porque agora não chegariam à festa nenhuma. Pai e filho seguiram a estrada de mãos vazias e o velho tocador olhou para o rapaz e disse aquela frase que ficou.

Por tocar demais, você perdeu tudo o que a gente tinha. Agora, repara no que esse conto está dizendo. A questão não é o tambor. O tambor é bom. Tocar é bom. O filho não errou por tocar. Errou por não saber a hora de parar. Ele confundiu uma coisa boa com uma coisa que é sempre melhor quanto mais tem. E nem toda coisa boa funciona assim. Tem coisa que só é boa na medida. Passou da medida, vira o contrário de si mesma. O tambor que devia proteger virou o farol que entregou os dois para os ladrões. Os antigos chamariam isso de falta daquilo que impalisse e desmatanuta. O conhecer a medida.

Saber a justa quantidade. Saber quando já foi o suficiente. E olha, isso é uma das coisas mais difíceis que existem, porque o nosso instinto grita o contrário. O nosso instinto diz. Deu certo. Faz de novo. Deu mais certo ainda. Faz mais. Sempre mais. E aqui o conto cutuca uma coisa bem do nosso tempo. Com gentileza. Mais cutuca. A gente vive em uma cultura do mais. Mais um post porque o último bombou. Mais um ser a trabalho porque a anterior rendeu. Mais um copo porque o primeiro é gostoso. Mais uma série. Mais uma compra. Mais uma opinião publicada. Mais um aviso. Mais uma notificação.

A gente acha que o segredo do sucesso é a quantidade e fica batendo o tambor sem parar. Achando que tá se protegendo. Achando que tá crescendo. E muitas vezes sem perceber está só anunciando para a floresta inteira o quanto a gente está vulnerável, cansado, exposto, vazio por isso. O rapaz não via que cada batida a mais não somava. Subtraia. Tirava dele a proteção do silêncio. E quantas das nossas batidas a mais fazem exatamente isso? Falar demais e perder a força da palavra. Se justificar demais e parecer culpado. Postar demais e cansar quem te seguia. Insistir demais num argumento e empurrar o outro para longe.

O excesso quase nunca tem cara de excesso por dentro. Ele parece dedicação, parece empenho, parece estar dando o melhor de si. Só que tem hora que o melhor de si é parar a mão no ar. O velho sabia disso. Por isso ele não mandou o filho calar o tambor para sempre. Ele ensinou o ritmo, bate e depois fica quieto. O silêncio entre as batidas era o que dava sentido a cada batida. Sem o silêncio era só ruído. Com o silêncio era música, a presença era dignidade. A pausa não era ausência de tambor. A pausa era parte do tambor. Aqui vai uma coisa para hoje. Pensa numa coisa boa que você anda fazendo demais.

Pode ser trabalhar, pode ser falar, pode ser ajudar, pode ser checar o celular, pode ser até cuidar de alguém a ponto de sufocar. Escolhe uma. E hoje, só hoje, experimenta colocar uma pausa no meio. Bate uma vez e fica quieto. Manda uma mensagem e não manda a segunda. Faz a sua parte e para. Repara no silêncio depois da batida. E percebe se não foi justamente ali, na pausa, que a coisa toda ganhou peso. Porque nem tudo que é bom melhora quando aumenta. Algumas das coisas mais bonitas da vida só existem na medida certa. E a sabedoria, no fim, é quase sempre saber a hora de parar a mão no ar.