As três qualidades que salvam o macaco

Budismo · Temporada 9 · Episódio 58 de 150 — em ordem cronológica

Um abismo à frente, um predador atrás. Sua única saída não está na força, mas em uma inteligência que muitos ignoram.

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Transcrição

Imagina que você está encurralado, de um lado um abismo, do outro alguém muito mais forte que você, faminto, esperando o seu primeiro passo em falso. E a única coisa que pode te tirar dali não é músculo, não é sorte, são três qualidades que você ou tem ou não tem, na hora exata em que precisa delas. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era Buda, ainda estava se tornando vida após vida, e às vezes aparecia como uma pessoa às vezes como um animal, nesse aqui ele aparece como um macaco, um macaco que vivia sozinho perto de um grande rio numa região cheia de árvores e de penhascos, e repara que esse não era um macaco qualquer, ele era enorme do tamanho de um potro, dizem, forte, ágil e cheio de uma esperteza calma, daquelas que a gente confunde com sorte mas que na verdade é treino, é a atenção, ele conhecia cada galho, cada pedra, cada caminho daquele lugar, e vivia em paz, comendo as frutas que a floresta dava, agora naquela mesma região vivia um crocodilo, um crocodilo grande que morava no rio com a sua companheira, e a companheira dele um dia bateu o olho naquele macaco enorme atravessando de um lado pro outro, e deu nela um desejo, ela disse pro marido, eu quero comer o coração daquele macaco, tô com vontade, e se eu não comer, eu vou definhar, o crocodilo se viu numa enrascada, porque ele sabia no fundo que pegar aquele macaco não ia ser fácil, o macaco vivia em terra nos galhos longe da água que era o território dele do crocodilo, mas deixa eu te contar, quando alguém que a gente ama pede uma coisa difícil, a gente costuma dizer que vai conseguir antes mesmo de saber como, e foi o que ele fez, prometeu o coração do macaco, e aí começou a armar, ele reparou numa coisa, o macaco todo dia atravessava o rio, tinha uma ilha, ou um banco de areia no meio do rio, cheio de árvores carregadas de frutas, o macaco pulava da margem pra uma pedra que ficava no meio, e da pedra pulava pra ilha, e ia se alimentar, e voltava do mesmo jeito, a pedra era a ponte dele, então o crocodilo pensou, é simples, a noite eu subo em cima daquela pedra e me deito ali quietinho, quando o macaco pular da margem pra pedra eu já estou esperando, ele cai bem na minha boca, e assim fez, esperou a tarde cair, nadou até a pedra e se acomodou em cima dela esticado e móvel fingindo de pedra, mas tinha um detalhe, aquele crocodilo era grande, e quando ele se deitou em cima da pedra, a pedra ficou mais alta do que costumava ser, o macaco voltando da floresta no fim do dia, parou na margem pra dar o seu pulo de sempre, e olhou, e reparou, olha que coisa fina, ele não viu o crocodilo, o crocodilo estava imóvel, parecia parte da pedra, o que o macaco viu foi outra coisa, a pedra estava mais alta do que de manhã, a água do rio não tinha mudado, continuava no mesmo nível, então se a água está igual e a pedra está mais alta, alguma coisa subiu em cima da pedra, a aparência mudou, e ele percebeu, mas o macaco não saiu correndo, ele fez uma coisa mais inteligente, ele testou, em voz alta como se falasse com a própria pedra, ele gritou, ou pedra, e esperou, silêncio, ele gritou de novo, ei pedra, o que houve com você, você sempre me responde, todo dia eu te chamo e você responde, por que hoje você está calada, claro que a pedra nunca tinha respondido nada na vida, o macaco estava blefando, com toda a calma do mundo, pra ver o que ia acontecer, e o crocodilo ali deitado caiu na armadilha do próprio plano, ele pensou, é então essa pedra costuma responder, se eu não responder o macaco vai desconfiar, melhor eu responder no lugar dela, e falou com a voz dele de crocodilo, sim o que é macaco, e pronto, o macaco soube de tudo, a pedra falou e pedra não fala, ele perguntou gentil, quem é você, o crocodilo, já sem ter como esconder, respondeu a verdade, sou o crocodilo, e estou aqui esperando pra comer o seu coração, o macaco pensou rápido, não dava pra voltar correndo, não dava pra atravessar a nada, o rio era do crocodilo, então ele blefou mais uma vez, disse, ah crocodilo, você me pegou, não tenho saída, vou ter que me entregar mesmo, abre bem a boca, que eu vou pular direto pra dentro dela, agora repara no detalhe que o macaco já sabia, observando o crocodilo a vida inteira, quando um crocodilo abre bem a boca, os olhos dele se fecham, é a natureza dele, boca aberta no talo, olhos fechados, e foi exatamente o que aconteceu, o crocodilo, todo feliz, escancarou a boca esperando jantar, pular pra dentro, e ao escancarar, fechou os olhos, nesse instante o macaco deu o seu pulo, não pra dentro da boca, pra cima da cabeça do crocodilo, e de lá, com um cesta salto, pra margem segura, cego, de boca aberta, o crocodilo só sentiu o peso passar por cima e sumir, quando abriu os olhos o macaco já estava em terra firme, são e salvo, e o crocodilo derrotado ficou ali admirando, sem raiva nenhuma, a esperteza daquele bicho que ele não ia comer, agora repara no que esse conto está dizendo, o nome dele em palí, taiodama, quer dizer as três qualidades, e o que salvou o macaco não foi a força, foi um trio, a atenção, que fez ele perceber que a pedra estava mais alta, a presença de mente, a calma de testar antes de agir, de chamar a pedra em vez de pular cego, e a coragem tranquila de fazer o que tinha que ser feito na hora exata sem pânico, sabedoria, sangue frio e decisão, as três juntas, e olha como a gente hoje vive jogando essas três fora, a gente vive na pressa, no automático, a pedra está mais alta e a gente nem olha porque está com um pescoço enfiado no celular, a gente recebe uma mensagem, uma oferta, uma notícia, e reage na hora sem testar nada, sem perguntar nada, pula direto, de olho fechado, pra dentro da primeira boca aberta que aparece, e quando o pânico bate a gente paralisa ou faz a coisa mais burra, em vez de respirar e usar o que a natureza já deu pra gente a capacidade de reparar e de pensar, aqui vai uma coisa pra hoje.

Da próxima vez que você sentir aquele empurrão de decidir algo no susto, no impulso, com o coração acelerado, faz como um macaco, para na margem antes de pular, repara se tem alguma coisa diferente, alguma pedra mais alta do que devia, e antes de se entregar, faz um teste pequeno, uma pergunta, um chamado, e escuta a resposta com calma. Quase sempre é nesse instante de pausa que a pedra fala e te conta quem ela é de verdade.