De um lado, um bicho enorme, com mandíbula de aço, escondido embaixo da água. Do outro, um macaco pequeno, sem nenhuma arma, que precisa atravessar o rio. Em quem você aposta? Quase todo mundo aposta na força. E é justamente aí que esse jataca faz a sua pergunta. Deixa eu te contar. Os jatacas, é bom lembrar, são os contos das vidas passadas do Buda. Quando ele ainda estava se tornando Buda, vida após vida, às vezes como gente, às vezes como bicho. E nessa história, ele era um macaco. Um macaco que vivia sozinho numa margem de rio, forte e esperto daqueles que pulam longe. No meio desse rio havia uma ilha cheia de árvores frutíferas.
E entre a margem e a ilha, mais ou menos no meio do caminho, despontava uma pedra na água. Todo dia o macaco fazia a mesma coisa. Saltava da margem pra pedra e da pedra pra ilha. Comia as frutas e voltava pelo mesmo caminho. Pedra, margem, era a rotina dele. Agora, naquele rio morava um crocodilo. E a fêmea do crocodilo, esperando filhotes, foi tomada por um desejo estranho, desses que não tem explicação. Ela quis comer o coração daquele macaco. E ficou repetindo pro companheiro. Eu preciso, eu vou definhar se não tiver. Então o crocodilo, pra agradar, bolou um plano. Naquela tarde, ele foi e se deitou em cima da pedra do meio do rio.
Imóvel, esperando o macaco pular bem em cima dele na volta. Cai à tarde, o macaco termina de comer e se prepara pra voltar. Mas, e aqui está o coração da história, antes de saltar ele para. Olha, e percebe uma coisa quase invisível, a pedra está mais alta do que de manhã. O nível da água não mudou, então por que a pedra subiu? Ele não entra em pânico, e também não finge que está tudo normal. Ele faz uma coisa muito simples, resolve testar, em voz alta, como quem fala sozinho todo dia, ele grita pra pedra, ou pedra, e a pedra, é claro, fica calada, ele grita de novo, ou pedra, bom dia, porque hoje você não me responde como sempre.
O crocodilo, deitado ali, pensa, o é, então a pedra costuma responder, se eu ficar quieto ele vai desconfiar, melhor eu responder no lugar dela, e solta, lá de cima. Estou aqui macaco, pronto, a pedra falou, o macaco agora tem certeza, mas repara, ele não corre, não grita, não se desespera, ele continua no mesmo tom de conversa, a é você, e quem é você? O crocodilo, orgulhoso do plano, responde a verdade, sou o crocodilo, e estou esperando pelo seu coração. E o macaco, calmo, diz, pois é, você me pegou, não tenho como fugir, vou ter que pular direto na sua boca, abre bem grande aí que eu me jogo, o crocodilo, todo feliz, escancar a boca.
Só que crocodilo, quando abre a boca toda, fecha os olhos, e foi esse meio segundo de escuridão que o macaco esperava, ele saltou, mas não pra dentro da boca, pulou em cima da cabeça do crocodilo, usou a cabeça dele como a tal pedra, e num segundo impulso alcançou a margem em segurança, ileso, agora, o que essa fábula está realmente dizendo. Repara que o macaco não venceu pela força, ele jamais ganharia do crocodilo na água, e também não venceu pela sorte, ele venceu por uma coisa que o budismo trata como ouro puro, presença de espírito, a capacidade de no instante do perigo não ser sequestrado pelo medo, de continuar enxergando, porque é isso que o medo faz com a gente, ele tampa os olhos igualzinho ao crocodilo, quando bate o susto, o pânico, a pressão, o nosso primeiro impulso é cego, a gente congela, ou explode, ou sai correndo sem pensar, e quase sempre piora tudo, o macaco fez o contrário, ele sentiu o perigo, e em vez de reagir na hora, abriu um espacinho, reparou na pedra alta demais, testou antes de saltar, pensou enquanto agia, e esse espacinho tem nome na prática budista, é a atenção plena, não é ficar zen, de olho fechado, longe do mundo, é exatamente o oposto, é estar tão presente que você percebe que a pedra subiu, é aquele meio segundo entre o que acontece e como você responde, a gente costuma achar que não tem esse meio segundo, que o nervoso é automático, mas ele existe, e ele pode ser treinado, aqui vai uma coisa para hoje, da próxima vez que alguma coisa te der aquele baque, uma mensagem que aperta o peito, uma discussão que esquenta, uma notícia ruim, repara no impulso de reagir na hora, e antes de responder, faz só uma respiração, uma, e se pergunta, a pedra é mesmo só uma pedra, ou tem alguma coisa que eu não estou vendo porque o medo fechou meus olhos, você não precisa ser mais forte que o crocodilo, quase nunca a gente é, mas, igual ao macaco, você quase sempre pode ser um pouco mais presente do que o medo gostaria que você fosse, e é nesse meio segundo de clareza que mora saída.