O bloco de ouro repartido com sabedoria

Budismo · Temporada 9 · Episódio 56 de 150 — em ordem cronológica

Você acaba de encontrar um tesouro que pode mudar sua vida. Cuidado: essa fortuna pode ser o peso que te afunda.

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Transcrição

Imagina que você está arando um campo e de repente o arado para, bate em alguma coisa dura, enterrada na terra, você cava um pouco e descobre que é ouro, um bloco enorme, pesado, que vale mais do que você vai ganhar em toda a sua vida. O que você faz? A primeira reação da maioria da gente seria pegar tudo de uma vez, abraçar aquilo, sair correndo pra casa. Mas é aí que esse conto começa a ficar interessante. Deixa eu te contar. Havia um dos de atacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, quando ainda estava no longo caminho de se tornar desperto.

Nesses contos ele aparece às vezes como rei, às vezes como animal, às vezes como gente simples, e nesse aqui ele aparece como um lavrador, um homem comum, de mãos calejadas, que tirava o sustento da terra perto de uma cidade chamada Rajagarra, era um campo que tinha sido abandonado havia muito tempo, antigamente dizem, ali tinha morado um homem riquíssimo, um daqueles que tinham tanto ouro que enterravam o que sobrava pra guardar, o homem morreu, o tempo passou, o mato cresceu por cima, e ninguém mais lembrava do que dormia debaixo daquela terra, até o dia em que o Bodhisatta, o nosso lavrador, resolveu arar de novo aquele pedaço de chão esquecido, e o arado parou, bateu firme em alguma coisa, ele pensou, no começo, que fosse uma raiz grossa ou uma pedra, foi cavando com as mãos tirando a terra, e o que apareceu foi um brilho, um bloco de ouro maciço, do tamanho de uma coxa de homem, comprido e pesadíssimo, ouro puro, esquecido ali por gerações, agora repara no que ele fez, ele não gritou, não saiu correndo, sentou-se ali, do lado do bloco, ainda com a terra grudada nas mãos, e ficou pensando, porque ele percebeu na hora uma coisa que muita gente não percebe, o ouro era pesado demais, pesado demais pra carregar de uma vez, se ele tentasse levantar tudo, ou não ia conseguir, ou ia se machucar, ou ia chamar a atenção de todo mundo na estrada e talvez nem chegasse vivo em casa com aquilo, então ele fez as contas, com calma, sentado na beira do campo, e decidiu repartir o bloco em quatro partes, quatro partes, cada uma com uma finalidade clara na cabeça dele, a primeira parte, ele pensou, vou usar pra viver, pra comer, pra cuidar da minha família, pra manter o dia a dia em pé, essa é a parte que sustenta a vida, a segunda parte, vou guardar, porque a vida tem invernos, tem doenças, tem anos de seca, e a gente nunca sabe quando vai precisar, essa é a parte da reserva, da prudência, a terceira parte, vou investir no meu trabalho, vou colocar de volta na terra, na lavoura, no que me dá o pão, porque ouro parado não produz nada, o ouro que volta pro trabalho faz o trabalho crescer, e a quarta parte, ele pensou, essa eu vou dar, vou repartir com quem precisa, vou oferecer aos monjes e aos pobres, vou fazer o bem com ela, porque dizia ele consigo mesmo, de que adianta tanto ouro se ele só fica preso na minha mão, e foi exatamente isso que ele fez, dividiu o bloco em quatro, levou cada parte no seu tempo, sem alarde, sem ganância, sem medo, e viveu o resto dos seus dias generoso, tranquilo, fazendo de uma riqueza que nunca virou peso na alma dele, não foi o ouro que mudou o homem, foi o homem que soube o que fazer com o ouro, agora repara no que esse conto está dizendo, ele não está dizendo que ouro é ruim, não está dizendo pra você desprezar dinheiro, fugir do trabalho ou fingir que pobreza é virtude, o que ele está mostrando é uma coisa mais fina, a virtude não está inteira ou não ter, a virtude está na sabedoria de como a gente reparte, porque olha o que normalmente a gente faz hoje, quando cai um dinheiro extra na nossa mão, um bônus, uma herança, um trabalho que rendeu mais, qual costuma ser o impulso, pegar tudo e tratar como se fosse uma coisa só, um bolo único de agora eu posso, e aí a gente ou gasta tudo num susto, ou empilha tudo num canto com medo de perder, paralisado, o lavrador não fez nenhuma coisa nem outra, ele olhou praquele bloco e enxergou que ele tinha partes, finalidades, ritmos diferentes, ele não deixou o ouro decidir por ele, ele decidiu sobre o ouro, e tem outra coisa que esse conto sussurra, bem de leve, a gente vive num tempo que mede o sucesso pelo tamanho do bloco, quanto maior, melhor, mais, mais, mais, mas o homem sábio do conto sabia que um bloco grande demais pra carregar de uma vez não é sorte, é perigo, o excesso que você não sabe administrar não te abençoa, te esmaga, a sabedoria aqui tem o nome budista de pana, que é justamente isso, ver as coisas como elas são de verdade e não como o desejo quer que elas sejam, e junto vem o dana, a generosidade, aquela quarta parte que ele nunca esqueceu de separar.

Aqui vai uma coisa pra hoje, pega qualquer quantia que entrou na sua vida recentemente, pode ser muita, pode ser pouca, tanto faz, e não trata ela como um bloco único, reparte ela mentalmente hoje mesmo, nas quatro partes do cor, uma parte pra viver o agora, uma parte pra guardar pro amanhã que você não vê chegar, uma parte pra colocar de volta no que sustenta o seu trabalho, e uma parte por menor que seja pra dar alguém que precisa, faz isso de verdade, com calma, sentado, do jeito que ele fez na beira do campo, porque o ouro vai e volta a vida inteira, o que fica com você é a maneira como você aprendeu a repartê-lo.