Imagina um guerreiro treinado nas melhores escolas do mundo, com cinco armas afiadas penduradas no corpo, atravessando uma floresta sozinho. E de repente surge na frente dele um monstro enorme, coberto de uma cola pegajosa da cabeça aos pés. O guerreiro dispara as flechas, saca a espada, joga a lança, gira a clava, e tudo, absolutamente tudo, gruda no corpo do bicho e fica preso. Há cinco armas, sumidas. O que você faz quando todas as suas armas já foram engolidas pelo problema? A resposta a essa pergunta, nesse conto, é o que separa o homem que vira jantar do ogro do homem que sai andando, livre pela floresta.
Deixa eu te contar. Esse é um dos de atacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, vida após vida, juntando coragem e sabedoria. Aqui ele aparece como um jovem príncipe, e o nome do conto, em palhe, é Pankavuda, que quer dizer mais ou menos as cinco armas. Conta a história que havia um rei, e que sua rainha deu à luz um menino de uma luz especial, daquelas crianças que a gente sente que vieram para algo grande, os sábios do reino se reuniram para dar nome ao menino, e olharam para ele, e disseram, este aqui vai dominar as cinco armas e vai ficar famoso por isso.
Então chamaram de príncipe das cinco armas, quando o príncipe cresceu, o rei o mandou estudar com o mestre mais respeitado de uma cidade distante, e o rapaz aprendeu tudo. Aprendeu o arco e a flecha, aprendeu a espada, a lança, a clava, aprendeu a luta de corpo, a mão limpa, voltava para casa cheio de técnica, com cinco armas que o mestre lhe deu de presente pela excelência. No caminho de volta, atravessou uma floresta, e nessa floresta morava um ogro, esse ogro tinha um nome curioso, chamavam ele de cabelo pegajoso, porque o corpo inteiro dele era coberto de uma cola, de uma substância grudenta, pegajosa como piche.
Os moradores da região avisaram o príncipe, não entra nessa floresta, rapaz, tem um monstro lá que devora todo mundo que passa. Mas o príncipe era jovem e confiante, e tinha cinco armas no corpo, como um leão entrou na floresta sem medo, e o ogro apareceu, alto como uma torre, com olhos vermelhos, dentes enormes, a barriga manchada, e aquele corpo todo lambuzado de cola. Ele rugiu e disse, "você é meu, vou te comer." O príncipe não se abalou, respondeu com firmeza, "eu vim preparado, tenho uma flecha envenenada, vou te derrubar antes de você chegar perto." E disparou. A flecha voou reta, certeira, e grudou na cola do ogro, ficou pendurada ali, inútil.
O príncipe disparou outra e outra, cinquenta flechas, e todas grudaram, sem furar nada. O ogro sacudiu o corpo, deixou as flechas caírem no chão, e avançou. O príncipe sacou a espada, uma lâmina de braço de comprimento, e golpeou com toda a força. A espada cravou na cola e ficou presa, jogou a lança, presa, girou a clava, presa. Há cinco armas, há cinco, sumidas no corpo grudento do monstro, uma atrás da outra. Agora repara na cena, o guerreiro mais bem treinado, sem nenhuma arma, e aí o príncipe disse uma coisa que assustou até o ogro. Ele disse, monstro, você nunca ouviu falar de mim, eu não sou só as minhas cinco armas, dentro de mim ainda existe uma arma, uma só, que é a maior de todas.
Se eu te golpear com ela, vou te moer até virar pó, e avançou com o punho direito. O punho grudou, a mão esquerda grudou, o pé direito grudou, o pé esquerdo grudou, a cabeça quando ele tentou dar uma cabeçada, grudou também. Os cinco pontos do corpo presos, pendurado, feito mosca na teia, qualquer outro homem teria desistido ali, teria entregado medo, teria se deixado comer, mas o príncipe mesmo grudado, completamente preso, sem mover um músculo, não tremeu por dentro. Ele estava calmo, o ogro pensou, que homem é esse, eu já comi guerreiros, já comi reis, e todos choravam, todos imploravam, esse aqui está preso pelos cinco membros, vai morrer, e não tem medo nenhum.
E perguntou, rapaz, por que você não está com medo da morte, e aqui está o coração do conto. O príncipe respondeu, porque eu teria medo, uma morte é certa em cada vida, mas eu carrego dentro do peito uma arma que você não pode grudar, não pode prender, não pode engolir. É a arma do dama, da verdade, da virtude que eu cultivei, se você me comer, essa arma vai te queimar por dentro, vai te dilacerar de tal forma que você não vai conseguir me digerir, eu vou te destruir a partir de dentro. O ogro ouviu aquilo, e teve um pensamento que nunca tinha tido na vida, este homem está dizendo a verdade, um pedaço de carne de um homem assim, tão destemido, tão íntegro, eu não vou conseguir engolir nem se for do tamanho de um feijão, esse aqui não se deixa vencer pelo medo, e pela primeira vez o monstro sentiu uma coisa que parecia respeito, sentiu medo do próprio prisioneiro, então soltou o príncipe, deixou ele ir, e o príncipe livre, em vez de fugir correndo parou e ensinou, explicou ao ogro porque ele tinha virado aquilo, porque vivia daquele jeito, comendo viajantes, acumulando crueldade vida após vida, falou de bondade, de parar de matar, de viver de outro jeito, e o ogro, como ouvido, prometeu mudar.
O príncipe seguiu seu caminho, contou aos moradores que a floresta estava segura, e mais tarde, como rei, governou com justiça e generosidade. Agora, repara no que esse conto está dizendo. As cinco armas são as nossas defesas externas, o dinheiro, o cargo, o status, as conexões, a aparência, a inteligência que a gente exibe, e a gente confia tanto nelas que quando a vida nos coloca diante de um ogro de verdade, uma doença, uma perda, um medo grande, a gente atira tudo que tem e descobre, assustado, que nada disso furou o problema, tudo grudou, e aí entra o conto, porque a verdadeira coragem nunca esteve nas armas, estava naquilo que ninguém pode te tirar, o jeito como você escolhe estar de pé por dentro, mesmo preso pelos cinco membros.
No nosso tempo, a gente foi treinado a empilhar armas, mais um curso, mais um seguro, mais um plano B, mais um aplicativo que promete controle, e não tem nada de errado em se preparar. O problema é quando a gente terceiriza toda a paz para essas coisas de fora, e nunca treina a única arma que sobra quando tudo cai, a serenidade, a verdade interior, a firmeza de quem não se entrega ao pânico. O ogro no fundo não se assustou com a força do príncipe, se assustou com a paz dele. Aí vai uma coisa para hoje, pensa numa situação que está te apavorando agora, aquela em que você já tentou de tudo e nada parece resolver, antes de jogar mais uma arma de fora no problema, faz uma pausa e se pergunta, e a minha sexta arma, há de dentro, eu treinei ela hoje, reserva cinco minas em silêncio, só respirando, lembrando que você não é feito só do que te protege por fora, porque o ogro solta quem ele não consegue digerir, e o medo, esse nunca conseguiu digerir uma pessoa em paz.