O sábio que reconheceu o fruto venenoso

Budismo · Temporada 9 · Episódio 54 de 150 — em ordem cronológica

Existe um veneno tão saboroso que mata pela boca. Acha que você saberia reconhecer a morte vestida de manga?

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Transcrição

Imagina que você está com fome num lugar que não conhece e na sua frente tem uma árvore carregada de frutos, frutos bonitos, lustrosos, do tamanho da palma da mão, daqueles que parecem doces só de olhar. Todo mundo na sua frente já esticou a mão e mordeu. Você vai morder também? A resposta a essa pergunta, nesse conto, separa quem volta vivo da floresta de quem fica lá para sempre. Deixa eu te contar. Se é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era Buda, ainda estava se tornando Buda, vida após vida, aprendendo as virtudes. A gente chama esse ser de Bodhisatta e nessa história ele nasceu como filho de um chefe de caravana, um homem acostumado a atravessar terras estranhas com mercadorias, gente e animais.

Repara na cena uma caravana grande, dezenas de carros de boi, mercadores, ajudantes, viajantes que pagaram para ter a proteção do grupo. E na frente de todos, jovem mas já com a cabeça assentada, ia o Bodhisatta. O pai tinha morrido e ele assumiu o comando. E a primeira coisa que ele fez foi reunir a todos e dizer uma frase simples, dessas que parecem óbvias mas quase ninguém segue. Nessa floresta que a gente vai atravessar, existem árvores venenosas. Por isso nada de comer folha, flor ou fruto que vocês nunca comeram antes sem primeiro me perguntar. Todo mundo concordou, é claro que concordou.

No conforto do acampamento, com a barriga cheia, é fácil concordar com a prudência. O problema é que a prudência só é testada quando a fome aperta. A caravana entrou na floresta e logo na entrada, perto de uma aldeia, tinha uma árvore. Uma árvore que os budistas chamam de quem fala, a árvore do que será isto. E o nome já diz tudo, porque ela tinha tudo de uma mangueira. O tronco igual, a folha igual, o galho igual, a flor igual. E os frutos então eram a cara de uma manga madura, cor, cheiro, formato, brilho. Quem nunca tinha visto juraria que era manga, só que não era. Era veneno, um veneno tão forte que um único fruto, comido inteiro, tirava a vida.

Agora pensa na situação. A caravana viajou o dia todo. A entrada da floresta, a lista, a árvore carregada, os frutos pendendo dos galhos, alguns já caídos no chão tão maduros, que pareciam pedir para serem comidos. E os mais afoitos da caravana, aqueles que vão na frente, gulosos, cansados, com água na boca, não pensaram duas vezes, subiram, colheram e morderam. Doce, suculento, perfeito, começaram a comer com gosto, mas tinha um grupo, um grupo de gente mais ponderada, que parou, que olhou para aquela fartura toda e sentiu, no fundo uma desconfiança. Por que, repara, eles lembraram da palavra que tinham dado, sem perguntar ao chefe, a gente não come, então eles seguraram o fruto na mão, sem morder, e esperaram o Bodhisatta chegar.

Quando ele chegou e viu aquilo, a primeira coisa que fez foi perguntar, vocês já comeram, e os prudentes disseram, não, estávamos esperando o senhor. Aí ele pediu, me mostra o fruto, de que árvore vocês tiraram, eles apontaram, e o Bodhisatta olhou para árvore com calma, olhou de verdade, e foi reparando, porque tem uma coisa que ele sabia, herdada do pai, dos anos de estrada, uma mangueira de verdade, carregada desse jeito, perto de uma aldeia, não chega intacta até o viajante, os moradores já teriam colhido tudo. Criança velho, todo mundo teria limpado aquela árvore, essa árvore está perto da aldeia, ele disse, e mesmo assim está cheia de frutos no chão, sem ninguém colhendo, porque ninguém da aldeia mexeu nela, isso quer dizer uma coisa só, os que moram aqui sabem que esse fruto não se come, isso não é manga, é o falso fruto, o que imita a manga para enganar e matar.

E aí veio a urgência, ele mandou correndo atrás dos que já tinham comido, quem tinha mordido pouco, ele fez vomitar na hora, deu água, cuidou, e esses se salvaram, mas os que tinham comido demais, antes da palavra chegar, esses já não havia o que fazer, o veneno tinha andado rápido, a floresta ficou com eles, a caravana atravessou, e os que sobreviveram chegaram do outro lado não porque eram mais fortes, ou mais rápidos, ou mais espertos com as mãos, chegaram porque, num momento de fome e tentação, conseguiram segurar o impulso e perguntar antes de engolir, agora, repara no que esse conto está dizendo, ele não é sobre manga, ele é sobre a diferença entre o que parece e o que é, o veneno da quela história era perfeito justamente porque imitava com perfeição uma coisa boa, ninguém morre comendo uma coisa que parece nojenta, a gente morre comendo o que parece doce, e o que salvou aquela gente foi uma virtude que o budismo valoriza muito e que a gente quase esqueceu, a sabedoria de desconfiar do fácil demais, os budistas chamam essa qualidade de panoia, ligada à pana, a sabedoria que enxerga as coisas como elas são, e não como elas se vestem, e olha só como isso bate no nosso tempo, a gente vive numa floresta cheia de quem fala, só que os frutos venenosos de hoje não pendem de galho, eles chegam pela tela, a oferta boa demais, o investimento que só pode dar certo, a notícia perfeita para confirmar o que você já queria acreditar, o remédio milagroso, o atalho, tudo lustroso, tudo no formato exato daquilo que a gente deseja, e igual aos afoitos da caravana, a tentação moderna premia quem morde primeiro, corre que é por tempo limitado, os outros já estão comendo, e a gente engole sem perguntar, e tem um detalhe lindo no conto, que é fácil deixar passar, os que se salvaram não eram mais inteligentes que os outros, eles só tinham uma coisa, respeitaram uma promessa feita antes, num momento de calma, e não deixaram a fome reescrever essa promessa, a prudência deles não nasceu na hora da tentação, ela foi combinada antes, esse é o segredo, a gente não consegue ser sábio no meio da gula, a gente consegue ser sábio antes, e só cumprir depois, aqui vai uma coisa para hoje, pensa numa decisão que está brilhando na sua frente agora, dessas que pedem pressa, que dizem decide já, e antes de morder, faz a pergunta do filho do mercador, olhando para a árvore inteira e não só para o fruto, se isso é tão bom assim, por que ainda está aqui sobrando ao meu alcance, sem que os locais já tenham colhido, por que ninguém que entende disso pegou antes de mim, dá um dia, pergunta a alguém que conhece a floresta, o fruto bom espera, só o veneno tem pressa de ser comido.