A taça de bebida envenenada

Budismo · Temporada 9 · Episódio 53 de 150 — em ordem cronológica

Você está com sede, e uma taça irresistível é estendida na sua direção. Você bebe sem pensar, ou ousa questionar o que essa oferta esconde?

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Transcrição

Imagina que te servem uma taça cheia até a borda, espuma escorrendo pelas laterais, e te dizem que é mel, é vinho, é a bebida mais cara da estrada, e tudo em você quer beber. A sede aperta, a vontade grita, os amigos já estão bebendo e rindo, só que tem uma coisa estranha no ar, um cheiro que não bate, você bebe ou você pergunta. Nesse conto, essa pergunta separa quem segue caminho de quem fica caído na beira da estrada. Deixa eu te contar, esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, ainda era o Bo de Sata, e nascia ora como rei, ora como mercador, ora como bicho do mato, sempre aprendendo, vida após vida, a virtude que faltava.

Nessa vida ele era um chefe de caravana, um homem que conduzia 500 carraças por estradas longas, atravessando florestas, cruzando aldeias, levando mercadoria de um reino ao outro. Não era um homem dado aluxo, era um homem dado a atenção, reparava em tudo, no jeito que a poeira subia, no canto dos pássaros que de repente calava, no rastro fresco de mais na trilha, e essa atenção, mais de uma vez, tinha salvado a vida dele e a vida dos seus homens. Naquela viagem, a caravana se aproximava de uma cidade grande, e perto das cidades grandes, sempre tem gente esperando caravana, comerciantes claro, mas também outra espécie de gente, bandidos que não usam faca, bandidos que usam sorriso.

Esses ladrões eram espertos, sabiam que homens de caravana são fortes, são muitos, andam armados. Atacar de frente seria burrice, então tinham inventado um jeito mais macio de roubar, vinham vestidos de festa, coroas de flores na cabeça, roupas perfumadas, guirlandas penduradas no pescoço, vinham cantando, rindo, com taças e jarros de bebida na mão, como se fossem o comitê de boas-vindas mais alegre do mundo, e ofereciam de beber, só que a bebida estava envenenada, o viajante bebia, caia no sono pesado e nunca mais acordava. Aí os ladrões pegavam tudo, carroça por carroça, sem dar um golpe sequer.

Pois foi exatamente esse bando que apareceu na frente da caravana do Bodhisatta, vieram dançando pela estrada, alegres, perfumados, com as taças cheias. Sejam bem-vindos, viajantes. A estrada foi longa, o sol foi duro, bebam conosco, é festa, é honra recebê-los. E os homens da caravana, repara, já estavam com a boca seca de tanto andar, a bebida brilhava na taça, o cheiro doce vinha junto com a música, alguns já tinham esticado a mão, mas o Bodhisatta levantou a mão dele primeiro, e disse, em voz que todos ouviram. Esperem, ninguém bebe, os homens se viraram para ele confusos, e ele começou a fazer perguntas, não para os ladrões, para si mesmo, em voz alta, para que todos pensassem junto.

Reparem, ele disse, essa gente diz que é da cidade, mas a gente nunca os viu antes, eles vêm com bebida cara, em jarros cheios, oferecendo de graça a estranhos na estrada. Vocês conhecem alguém que dá o que tem de melhor, sem cobrar nada, para quem nunca viu na vida. Vocês conhecem festa que começa antes da gente entrar na cidade, no meio do mato, com gente que não sabe nem o nosso nome, silêncio. E olhem para eles enquanto a gente esita, continuou, quando ninguém bebe, o sorriso deles não enche os olhos, o sorriso fica só na boca, óleo de gente que está esperando uma coisa não é óleo de gente que está oferecendo uma coisa.

Os ladrões insistiram, empurraram as taças, disseram que era falta de educação recusar, disseram que viajante orgulhoso é viajante sem amigos, mexeram com o brio dos homens, viajante onde a gente é mais fácil de pegar, mas o bode sata não se moveu. A bebida de quem te quer bem não fica mais doce porque ele insiste, a bebida de quem te quer mal fica mais perigosa cada vez que ele insiste, reparem na insistência, quem oferece um presente de verdade aceita ou não, quem está armando uma silada não aceita. E aí ele fez a coisa simples, pediu que derramassem um pouco da bebida no chão, perto de onde uns cães magros rondavam a caravana, os cães lamberam e em pouco tempo caíram.

Não havia mais o que discutir, os ladrões, vendo que tinham sido descobertos, largaram as taças e sumiram pelo mato. A caravana inteira, 500 carrasas, 500 homens, atravessou em segurança e chegou viva à cidade. Por causa de uma coisa só, alguém que no meio da sede, da pressa e da pressão parou e perguntou, agora repara no que esse conto está dizendo. A virtude aqui não é desconfiar de tudo, não é viver de cara fechada achando que todo mundo quer te enganar, isso seria só medo e medo não é sabedoria. A virtude é a atenção clara, é o que os budistas chamam de sati, a presença que olha para o que está acontecendo de verdade, em vez de se deixar levar pelo que está apetecendo na hora.

É a capacidade de fazer a pergunta no meio do desejo, por que isso está sendo oferecido com tanta facilidade, o que está pedindo de mim em troca, mesmo que ninguém tenha dito o preço. E olha como a gente vive hoje. A estrada da nossa vida está cheia de gente vestida de festa estendendo taças, não são bandidos de mato, são telas, são anúncios que sabem exatamente da nossa sede e aparecem na hora certa, doces, brilhantes de graça, é só clicar, é só baixar, é grátis, todo mundo está bebendo, vem você também. E a gente com a boca seca de cansaço no fim do dia, estica a mão antes de perguntar.

A bebida da estrada do nosso tempo raramente te derruba na hora, ela te derruba devagar, num scroll que come a noite, num impulso que come a poupança, num sim que a gente deu só para não ficar de fora. O veneno moderno é gentil, é por isso que é mais difícil de ver. E o conto lembra uma coisa boa, a insistência denuncia. Quando alguma coisa é boa para você de verdade, ela aguenta o seu deixa eu pensar. É a oferta que não aceita o seu tempo, que aperta, que diz é agora ou nunca, que mexe com seu orgulho para você decidir rápido, essa é a taça que pede para ser olhada de perto.

Aqui vai uma coisa para hoje. Da próxima vez que alguma coisa te for oferecida, fácil demais, boa demais, na hora exata da sua vontade, faz como chefe de caravana, não recusa por medo, mas não bebe por impulso. Faz uma pergunta só, em voz baixa, para você mesmo, o que essa taça quer de mim? E se a resposta apertar, se a oferta não aguentar você esperar até amanhã, deixa a taça no chão e segue a estrada. Quem chega vivo do outro lado quase sempre é quem perguntou antes de beber.