Imagina que o navio em que você está afundou no meio do oceano. Sem terra à vista, sem barco de resgate, só água até onde o olho alcança. Quanto tempo você nadaria antes de desistir? Sente dias. Esse conto fala de um homem que nadou sete dias no mar aberto, sozinho, sem saber se havia salvação em lugar nenhum. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas. Os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, ainda estava se tornando Buda, vida após vida. A gente chama esse ser de Bodhisatta, o futuro desperto. E nessa vida ele nasceu como um jovem chamado Janaka, o pequeno Janaka, filho de uma família de comerciantes.
Janaka cresceu ouvindo as histórias do mar. O pai dele tinha sido o mercador, dos que cruzavam o oceano em grandes navios carregados de mercadoria para vender em terras distantes. E o jovem, quando ficou homem, juntou o que tinha, comprou mercadorias e disse a mãe, eu vou atravessar o mar e fazer a nossa fortuna. A mãe pediu que ele tomasse cuidado, que o mar não tem piedade. Ele beijou a mão dela e embarcou. O navio era bom, a tripulação experiente, e nos primeiros dias o vento sobrou a favor. Janaka olhava a costa sumir no horizonte e sentia o coração leve, mas o oceano, repara, não pergunta se a gente está pronto.
No sétimo dia, longe de qualquer terra, o céu escureceu, a tempestade. As ondas subiram como montanhas. O casco estalou, a vela rasgou, os marinheiros gritavam, corriam de um lado para o outro, jogavam carga ao mar para aliviar o peso. Não adiantou. A água começou a entrar pelas festas e todo mundo entendeu, ao mesmo tempo, que aquele navio ia afundar. Foi aí que se mostrou a diferença entre os homens a bordo. A maioria entrou em pânico, alguns choravam, outros rezavam aos deuses chorando, gritando, suplicando, e sem fazer nada com o corpo. Pediam socorro ao céu enquanto a água subia até o joelho até a cintura.
Estavam pedindo que alguém de fora o salvasse, Janaka fez diferente. Antes do navio virar de vez, ele comeu, pegou açúcar e manteiga, e comeu até se fartar, com calma, sabendo que ia precisar de força. Depois subiu no mastro mais alto, esperou o melhor momento, encheu o peito de ar e quando o navio se rendeu às ondas, ele saltou para longe dos destroços pra não ser puxado profundo junto com tudo. E começou a nadar, sem terra à vista, sem direção certa, sem ninguém. Só ele, o corpo e a água sem fim. Os outros, que tinham apenas implorado, foram tragados. Janaka nadou, conta a história que ele nadou por sete dias, sete dias e sete noites num oceano aberto.
O sol queimava de dia, o frio mordia de noite, e mesmo assim ele continuava o movimento dos braços, uma abraçada depois da outra. Ele não sabia se havia praia em algum lugar daquele mundo de água. Não tinha prova nenhuma de que valesse a pena continuar. E continuava do mesmo jeito. No alto, uma deusa do mar chamada Manimekala estava encarregada de proteger os bons que se perdiam naquelas águas. Ela reparou em Janaka e, em vez de simplesmente salvá-lo, resolveu testá-lo. Desceu até perto dele e perguntou. Quem é você? Que nada nesse mar imenso sem ver praia nenhuma. Não há terra à vista.
Por que tanto esforço, se você nem sabe se vai chegar? E Janaka, boiando exausto naquele meio do nada, respondeu com uma firmeza que a deusa não esperava. Ele disse, eu refleti sobre o dever do homem no mundo. E o dever do homem é se esforçar enquanto houver vida. Quem se esforça, mesmo sem ver a margem. Cumpre o seu dever e não tendo que se arrepender. Eu não vejo a praia, é verdade. Mas enquanto eu tiver força nos braços, eu vou nadar. Se eu morrer nadando, terei morrido tentando. Quem só implora e não age, esse já se entregou antes de afundar. Ela disse, fosse nada no mar sem fim, sem saber-se a salvação.
E mesmo assim não desiste. Essa coragem, essa firmeza de quem age sem garantia de resultado, isso merece resgate. E então ela o ergueu da água, carregou Janaka pelos ares e o depositoução e salvo na terra, num jardim em segurança. O homem que nadou sete dias sem ver a costa chegou vivo do outro lado, não porque o mar foi gentil, mas porque ele não parou. Agora repara no que esse conto está dizendo. A palavra budista para isso é viria, que a gente pode traduzir como energia. Esforço perseverante. A vontade firme de continuar fazendo o que é certo mesmo sem ver o fim. Não é teimosia cega, repara.
É a coragem de cumprir o seu dever sem exigir, antes, a garantia de que vai dar certo. Os marinheiros que só imploraram aos deuses afundaram. O que comeu, respirou, saltou e nadou. Esse foi salvo. E olha que detalhe lindo. A ajuda do céu só veio depois que ele já estava nadando. A deusa não resgatou quem estava parado esperando. E é aqui que o conto cutuca a gente, com gentileza. A gente vive num tempo que adora resultado garantido. Antes de começar qualquer coisa, a gente quer saber se vai funcionar. Quer ver a praia antes de entrar na água. Se não tem retorno certo, a gente nem tenta.
E quando a coisa aperta, é tão fácil cair no papel do marinheiro que só reclama, só pede que alguém resolva, só espera o resgate vir de fora um chefe, a sorte, o governo, o universo. A gente terceiriza o esforço e chama isso de esperança. Mas esperança sembraçada é só afundar mais devagar. Aqui vai uma coisa para hoje. Pensa naquela coisa que você parou de fazer porque não viu garantia de que ia dar certo o projeto, o estudo, a conversa e o princípio, o passo na direção de quem você quer ser. Hoje, dá uma abraçada. Só uma. Não exige ver a praia. Não espera o sinal de que vai funcionar.
Faz a parte que cabe a você, o pequeno movimento possível agora. E faz de novo amanhã. Porque o mar não promete margem para ninguém. Mas, como o pequeno janaca, quem continua nadando é quem o resgate encontra.