O rei de grande virtude que venceu sem violência

Budismo · Temporada 9 · Episódio 51 de 150 — em ordem cronológica

Imagine ser traído, roubado e deixado para morrer em uma cova. Você pegaria a espada para se vingar, ou descobriria que a verdadeira força está em não fazê-lo?

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Transcrição

Imagina que alguém invade a tua casa, toma o que é teu, te amarra junto com os teus e te joga numa cova rasa pra morrer. E agora imagina que, mesmo assim, você se recusa a derramar uma única gota de sangue pra reaver tudo. Você conseguiria, ou você acharia que isso é burrice e fraqueza, ingenuidade de quem não sabe viver? A resposta a essa pergunta, nesse conto, separa um tipo de rei que a gente acha normal de um tipo de rei que quase ninguém acredita que possa existir. Deixa eu te contar, esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, e estava se tornando Buda, vida após vida, aprimorando virtude.

Nessa história, o futuro Buda, o Bodhisatta, nasceu como rei, e ficou conhecido por um nome que já diz tudo, Mahasilava, que quer dizer, mais ou menos, aquele de grande virtude, o que tem muita silla, muita conduta reta. Repara que tipo de rei ele era, ele tinha mandado construir salas de doação nas quatro portas da cidade, no centro, na porta do palácio. Todo dia distribuía comida, roupa, remédio, quem chegava com fome saía satisfeito, e ele governava com cinco preceitos no coração. Não matar, não roubar, não mentir, nada de conduta que ferisse. Ele tinha uma paciência que parecia não ter fundo, diziam que, se alguém cuspisse na cara dele, ele responderia com bondade.

Esse era o homem. Agora, tinha um ministro lá dentro do palácio que fez uma coisa feia, uma traição doméstica, e foi descoberto. Levaram o caso ao rei. E o rei, em vez de mandar punir, chamou o homem e disse, eu sei o que você fez, mas eu não quero te destruir, vá embora, leva o que é teu, e vive em paz no outro lugar. Mandou embora sem castigo, olha que estranho para os nossos olhos, esse ministro, cheio de rancor, foi parar num reino vizinho e se ofereceu para servir um rei ambicioso, e foi pingando veneno no ouvido dele, dia após dia. Senhor, o reino de Macylava está ali, do lado, rico, cheio de tesouros, e é indefeso.

Aquele rei é tão mole que não reage a nada. Dá para tomar com um sopro. O rei vizinho desconfiou, para testar, mandou um bando de homem saquear uma aldeia da fronteira. E aqui começa o que parece loucura. Quando os soldados de Macylava prenderam os saqueadores e levaram ao rei, ele não mandou executar ninguém, ele deu dinheiro aos ladrões e disse, não façam mais isso. E soltou. O ministro traidor contou tudo ao rei vizinho, animado. Esse provocou de novo, mandou roubar no meio do reino. Mesma coisa, presos, perdoados, soltos com presente. Provocou uma terceira vez, mais fundo ainda, de novo perdão.

Então o rei ambicioso se convenceu e marchou com um exército inteiro para cima da cidade. Os generais de Macylava vieram correndo. "Senhor, deixa a gente defender. A gente expulsa esse invasor antes que ele cruze a fronteira. Nem precisa morrer muita gente." E o rei de grande virtude respondeu, "Não. Eu não quero o rei no siopresso for o sofrimento dos outros. Se ele quer a terra, que tome. Eu não vou mandar matar ninguém por causa de muros e ouro." Mandou abrir os portões. O invasor entrou sem encontrar uma flecha sequer, tomou o palácio. E, num gesto de pura crueldade, prendeu Macylava junto com mil dos seus homens.

Mandou Cavarcovas no cemitério. Enterrou todos até o pescoço, deixando só a cabeça de fora. E foi embora para que os chacais viessem de noite e terminaram o serviço. E o rei, enterrado até o pescoço, na escuridão, sem raiva. Repara, ele não amaldiçoou ninguém. Ele juntou aqueles mil homens com a própria serenidade. Falou baixo para eles. Não guardem ódio do rei que fez isso. Cultivem meta, bondade, até por ele. E ensinou ali, na cova, no escuro, a não odiar. Quando os chacais chegaram, atraídos pelo cheiro, o rei teve uma ideia. Quando o maior deles aproximou a boca do seu pescoço, ele girou a cabeça de supetão e abocanhou o focinho do bicho com os dentes.

O chacau, em pânico, se debateu para fugir e, com a força toda, foi arrastando e afofando a terra em volta da cova do rei, até que ele conseguiu soltar os braços e sair. Livre, ele soltou os outros mil, cavando, puxando, um ajudando o outro a noite inteira. E o que esse rei fez ao se ver livre, com mil homens ao redor, no meio da noite? Foi tomar de volta o trono a ferro e fogo? Não. Ele descobriu que havia um espírito guardião, um iaca, disputando um morto ali no cemitério dividido sobre como repartir o corpo, marracilava, ofereceu para ser o juiz justo da disputa, resolveu com equidade, sem favorecer ninguém.

E o iaca, impressionado com a retidão daquele homem que devia estar morto, perguntou o que tinha acontecido, ouviu a história toda. E, como ouvido, usou o próprio poder para levar o rei, naquela mesma noite, para dentro do quarto onde o invasor dormia tranquilo no trono roubado. O rei de grande virtude entrou, tinha a espada do inimigo ao alcance da mão, tinha o inimigo dormindo, em defeso, na exata posição em que ele próprio estivera na cova. Era só um gesto, e ele não fez. Ele acordou o homem de leve, o invasor abriu os olhos, viu mazilava de pé sobre ele, livre, e ficou apavorado, certo de que ia morrer.

E o rei, calmo, contou tudo, e disse que não tinha vindo se vingar, que não guardava ódio. O outro, esmagado pela vergonha e pela grandeza daquilo, caiu aos pés dele, pediu perdão, devolveu o reino, e jurou protegê-lo para sempre, saiu dali transformado. Agora repara no que esse conto está dizendo. A gente cresceu ouvindo que vencer é impor a tua vontade, é o outro abaixar a cabeça. Que perdoar é perder. Que paciência é coisa de quem não tem coragem. E vive numa época em que a resposta rápida é agressão. O comentário afiado, o disforço imediato, o ele me fez, eu faço pior.

A gente confunde dureza com força. Mas olha o que aconteceu aqui. A força de verdade não estava na espada que o rei podia ter pegado. Estava na espada que ele escolheu não pegar. Quem mudou o coração do inimigo não foi medo nenhum. Foi rante à paciência e meta a bondade que não recua nem na cova. O rei venceu e venceu inteiro sem matar uma pessoa. Isso não é ser capaixo. Repara que ele nunca mentiu, nunca se humilhou por dentro, nunca abriu mão da própria verdade. Ele só se recusou a pagar o mal com o mal. E essa recusa, que parecia fraqueza, foi exatamente o que quebrou o ciclo.

Aqui vai uma coisa para hoje. Pensa numa pessoa que te fez algo. Alguém que você sente que merece uma resposta à altura e que você já está ensaiando na cabeça o que vai dizer ou fazer para devolver. Hoje, faz uma coisa só, não devolva, não por fraqueza, mas por escolha tua. Segura a tua espada. Você vai ver que o que parecia te diminuir é, na verdade, a coisa mais forte que você vai fazer no dia inteiro.