Imagina um reino inteiro onde, todo ano, em nome dos deuses, derrama-se sangue de centenas de animais num altar de pedra, e todo mundo acha isso normal. Acha que é assim que se garante boas colheitas, vitórias e prosperidade. Agora imagina que sobe ao trono um rapaz jovem que olha pra aquilo e sente, no fundo do peito, que tem alguma coisa errada ali, mas ele tá sozinho contra um costume de gerações. O que ele faz? Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, e sim o Bodhisatta, aquele que estava se tornando o Buda, vida após vida, juntando virtude.
E nessa história ele nasce como príncipe, herdeiro de um trono num reino antigo, num tempo em que matar para agradar os deuses parecia o caminho mais natural do mundo. O nome desse conto em palha, do Meda, do Meda quer dizer mais ou menos tolo, o de pouca sabedoria, e é curioso porque o conto não fala de um tolo só, ele fala de um reino inteiro que tinha se acostumado com uma tolice e de um homem sábio que precisou ser muito esperto pra desfazer essa tolice sem provocar uma guerra. O Bodhisatta crescera dentro do palácio observando os grandes festivais do reino. Eram dias de festa, de música de bebida e no centro de tudo o sacrifício, bois, cabras, carneiros, aves, criaturas amarradas, levadas ao altar, mortas aos montes para honrar a divindade da cidade.
O povo aplaudia, os sacerdotes recitavam e o sangue escorria pelas pedras. Desde menino, ele sentia o estômago apertar diante daquilo, olhava nos olhos dos animais e via medo, via vida, via algo que não merecia terminar assim, mas era só um príncipe, quem ouviria uma criança. Só que ele guardou esse sentimento, não deixou virar raiva nem revolta barulhenta, deixou virar uma intenção calma e firme. Quando eu tiver poder, eu vou acabar com isso. E aqui já repara numa coisa, ele não prometeu acabar a faca, na imposição, ele entendia que arrancar de uma vez um costume tão enraizado ia gerar revolta, talvez derramar ainda mais sangue, agora humano.
Sabedoria, na visão budista, não é só saber o que é certo, é saber como fazer o certo de um jeito que dê certo. Um dia, antes de subir ao trono, ainda príncipe, ele fez uma coisa simples e profunda, foi até a grande árvore que o povo considerava sagrada, a árvore onde os deuses supostamente recebiam as oferendas de sangue, e ali, diante de testemunhas, em voz alta, fez um voto solene. Diz-se algo assim, a esta divindade, a este espírito da árvore, eu prometo que, no dia em que eu for rei deste reino, virei aqui trazer uma grande oferenda, uma oferenda como nunca se viu, as pessoas ouviram e ficaram contentes, que príncipe de voto, pensaram.
Os sacerdotes já imaginavam um festival de sangue mais grandioso da história, e guardaram aquela promessa na memória. Os anos passaram, o velho rei morreu, e o Bodhisatta foi coroado, reinou com justiça, com mão firme e coração generoso, e o povo o amava, e então, no momento certo, ele mandou anunciar pelo reino inteiro, lembram do voto que fiz na árvore sagrada, chegou a hora de cumprir. "Vou oferecer a maior oferenda que este reino já presenciou", convocou seus ministros, os sacerdotes, os nobres, o povo, e declarou, com toda solenidade, "eu prometi uma grande oferenda, e aqui está o que eu vou oferecer, eu vou oferecer a vida de mil pessoas, mil homens e mulheres deste reino que vivem matando, quem mata, quem rouba, quem mente, quem trai, quem bebe até perder a razão e faz o mal, esses mil eu vou levar ao altar, porque afinal, que a divindade se alegra com a morte, que se alegre com a morte dos que espalham o mal pelo reino".
Houve um silêncio gelado na corte, porque de repente todo mundo entendeu, todo mundo ali, em maior ou menor medida, tinha mentido, tinha enganado, tinha feito o mal em algum momento. De repente o altar não era mais um lugar abstrato onde morriam animais, era um lugar onde podia morrer gente, onde podia morrer você, e o rei continuou, com a calma de quem já tinha pensado em tudo, e não para por aí. Depois desses mil, eu vou oferecer mais mil dos que mentem, e depois mil dos que tomam o que não é seu, e assim por diante até purificar o reino, a oferenda será completa, os ministros, brancos de medo, começaram a balbuciar, mas, majestade, isso vai despovoar o reino, isso vai gerar caos, isso é demais, e foi exatamente ali que o rei deu o passo que ele tinha planejado a vida inteira, ele os olhou e disse, com gentileza, ah, então vocês concordam que matar gente boa ou ruim, mil ou um é errado, que tirar a vida de uma criatura não agrada a Deus nenhum, não traz prosperidade nenhuma, só traz morte, pois é isso que fazemos todo ano com os animais, eles sentem medo igual a nós, querem viver igual a nós, a partir de hoje, neste reino, ninguém mais mata em nome dos deuses, nem homem, nem boi, nem cabra, nem pássaro, nenhuma vida será derramada num altar, e assim sem uma única espada erguida, sem guerra, sem martir, o reino inteiro abandonou os sacrifícios de sangue, pela sabedoria de um homem que entendeu que às vezes pra abrir os olhos de muita gente você não briga com o costume de frente, você faz o costume olhar pro espelho, agora repara no que esse conto está dizendo, o coração dele é a compaixão por toda vida que sente, o que o budismo chama de o primeiro preceito, não matar, e de meta e caruna, a bondade e a compaixão que não escolhem só quem é bonito ou útil, mas tem uma segunda virtude escondida ali, que é a sabedoria do meio termo, o rei não era um militante furioso, ele tinha convicção de aço, mas envolvida numa paciência enorme, esperando o momento, escolhendo as palavras, e a gente hoje, vive cercado de costumes que ninguém mais pergunta de onde vieram, coisas que a gente faz porque sempre se fez, porque todo mundo faz, porque dá trabalho demais parar pra pensar, a gente terceiriza a crueldade, aceita sofrimentos invisíveis desde que estejam longe do nosso prato, da nossa vista, da nossa rotina, e quando alguém aponta, a reação mais fácil é a raiva, é a briga ruidosa que só endurece o outro lado, o conto sugere outra coisa, a mudança mais profunda não nasce do grito, nasce de fazer o outro enxergar, sozinho, o que já estava ali, aqui vai uma coisa pra hoje, pensa num hábito da sua vida, um só, que você mantém no automático, só porque sempre foi assim, pode ser algo que você consome, algo que você repete, algum pequeno gesto que talvez machuque alguém, ou algum ser que você nem percebe mais, e faz a pergunta do rei sábio, se eu olhasse isso de verdade, sem o costume cobrindo meus olhos, eu ainda faria, e se hoje você quiser dar um passo concreto, escolha um momento, uma refeição, uma decisão, em que você vai, de propósito, não causar sofrimento a nenhuma criatura, sem alarde, sem briga, só uma vida poupada pela sua atenção, e assim, igual aquele rei, você começa a desfazer, em silêncio, uma tolice que vinha de longe.