Imagina que um Deus desce do céu, te encarar e diz, pede o que quiser. Riqueza, palácios, vida sem fim, qualquer coisa. E você, depois de uma vida inteira sonhando com mais, abre a boca e pede o que? O que que você pediria de verdade se soubesse que ia ser atendido? A resposta a essa pergunta nesse conto revela o tamanho exato do coração de um homem. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, ainda estava se tornando Buda, vida após vida, como o Bo de Sata. Às vezes ele aparece como rei, às vezes como animal, às vezes como um homem simples.
Nesse aqui, ele aparece como um erimita de pele escura. E por isso ficou conhecido pelo nome de Canha, que quer dizer mais ou menos o escuro, o Moreno. Foi assim. Numa certa época, havia uma família muito rica, dona de uma fortuna enorme. E nessa família nasceu um menino, os pais o amaram, criaram com carinho, deram tudo. Mas o menino cresceu diferente dos outros. Enquanto os jovens da idade dele corriam atrás de prazer, de festa, de acúmulo, ele ficava quieto, observando, reparava em como as coisas começam e terminam. Via que a juventude vira velhice, que a saúde vira doença, que tudo o que a gente junta com tanto esforço um dia escorrega das mãos.
Quando os pais morreram, ele herdou a fortuna inteira. E aí veio o momento que o define. Ele olhou praquela montanha de ouro e de bens e pensou assim, com toda calma. Meus avós juntaram tudo isso e foram embora sem levar uma moeda. Meus pais juntaram mais e também foram. Agora é minha vez de juntar. E depois eu também vou embora. Pra que então eu vou passar a vida agarrado a uma coisa que não me acompanha? Então ele fez algo que pouca gente tem coragem de fazer. Mandou abrir os portões e doou. Doou aos pobres, aos viajantes, aos que tinham fome, aos que pediam, esvaziou a casa toda. E quando não sobrou nada pra segurá-lo, ele entrou na floresta e virou Eremita.
Construiu uma cabana simples perto de uma única árvore de jujuba, dessas que dão fruto miudo e foi viver ali. Comia o fruto daquela árvore, bebia a água da fonte, dormia no chão. E o curioso é que quanto menos ele tinha mais sereno ele ficava. A pele escura no rosto tranquilo, sentado debaixo da sua árvore, dia após dia, ano após ano, cultivando a bondade no coração. Pois bem, tanta paz, tanta virtude, tanto desapego que o calor disso subiu. Nos jatacas, quando alguém vive uma virtude muito intensa, o trono de saca, o rei dos deuses, começa a esquentar lá no alto. E foi o que aconteceu.
Saca sentiu o assento ficar morno e pensou, quem é esse que tem força suficiente pra abalar o meu trono? Olhou pra baixo e viu o eremita canha, sozinho, debaixo da árvore de jujuba, sem pedir nada a ninguém. Aí Saca resolveu testá-lo, porque é fácil parecer santo quando ninguém te oferece nada. A virtude de verdade aparece quando o mundo coloca o tabuleiro na sua frente e diz, escolhe. Então o rei dos deuses desceu, apareceu diante do eremita e falou, sábio, fiquei admirado com a sua vida. Vou te conceder desejos. Tede o que quiser, e será teu. Agora repara no que canha pediu, porque qualquer um de nós, fala a verdade, já teria a lista pronta.
O primeiro desejo dele foi este, que eu nunca, em lugar nenhum onde eu viver, sinta raiva ou ódio de outro ser. Esse foi o primeiro pedido, não ouro, não saúde, não vida longa, um coração sem ódio. Saca achou bonito e perguntou, e o segundo, canha respondeu, que eu nunca sinta a versão, nunca cria e repulsa contra ninguém, que eu não olhe para o outro e o empurre para longe do meu coração. E o terceiro, que eu nunca sinta a cubiça, nunca deseje em excesso os bens dos outros, nunca seja tomado pela ganância. Saca, já encantado, pediu quarto. E o eremita disse, que eu nunca cria a feição apegada, aquele apego pegajoso que vira corrente, que eu possa amar sem agarrar, ser próximo sem ficar preso, quatro desejos.
E nenhum deles pede uma coisa pra guardar. Todos os quatro pedem pra se livrar de uma coisa. Livre do ódio, livre da aversão, livre da cubiça, livre do apego cego. Saca ficou intrigado e perguntou, mas eremita, esses desejos não te trazem benefício nenhum, não te dão lucro, não te dão conforto. Por que pedir justamente isso? E aqui está o coração do conto. Canha respondeu, mais ou menos, senhor, é justamente o ódio, a aversão, a cubiça e o apego que machucam o ser por dentro. São essas quatro coisas que tiram o sono, que envenenam a mente, que fazem a pessoa sofrer e fazer os outros sofrerem.
Se eu me livrar delas, não preciso de mais nada. A paz já vem junto. Saca entendeu que estava diante de alguém que tinha sacado o jogo inteiro. E antes de ir embora, deu ainda ao eremita uma benção concreta pra saúde e a tranquilidade dele. E subiu de volta, agora com o trono fresquinho e o respeito enorme por aquele homem de pele escura debaixo da árvore. Agora repara no que esse conto está dizendo pra gente. Aqui, hoje, a gente vive treinado a achar que ser feliz é uma questão de adicionar. Adicionar saldo, adicionar metros quadrados, adicionar seguidor, adicionar experiência, adicionar coisa.
A propaganda inteira do nosso tempo funciona assim. Você está incompleto, falta isso aqui, compra que preenche. E a gente faz a lista de desejos sempre pra fora, sempre pedindo mais. Calma, vira esse jogo de cabeça pra baixo. Os quatro desejos dele são desejos de subtração. Ele percebeu uma coisa que a gente esquece o tempo todo. O que mais estraga a vida da gente não é o que falta lá fora. É o que sobra aqui dentro. O ódio que a gente carrega de alguém. A aversão, aquele não suporto fulano que azeda o dia, a cobiça, o olhar invejoso pra vida alheia rolando na tela. E o apego, o medo de perder que faz a gente sufocar até quem a gente ama.
Ninguém precisa de mais palácio. A gente precisa de menos veneno circulando por dentro. E tem uma sutileza linda no quarto desejo, que é fácil passar batido. Ele não pede pra parar de amar. Ele pede pra amar sem agarrar. Na visão budista existe a meta, o amor bondoso que é largo e livre. E existe o apego pegajoso que parece amor mas é medo de perder. Canha pede o primeiro e renuncia ao segundo. Dá pra gostar de uma pessoa, de uma casa, de uma vida. Sem transformar isso numa corrente no próprio pescoço. Aqui vai uma coisa pra hoje. Faz o exercício de canha, do seu jeito. Pega um papel, ou só a sua cabeça mesmo.
E em vez de escrever a sua lista de desejos do jeito de sempre, eu quero ter, eu quero ganhar, eu quero comprar, escreve quatro desejos de subtração. Quatro coisas que você quer deixar de carregar. Pode ser uma raiva específica de alguém. Pode ser aquela inveja que aperta quando você abre o celular. Pode ser um apego que tá te sufocando. Escolhe uma dessas quatro. Só uma. E cuida dela hoje. Repara nela quando ela aparecer, respira e solta um pouco. Porque, no fim, a vida mais rica não é a do homem que mais juntou. É a do homem que, debaixo da sua árvorezinha de jujuba, não precisava mais de nada.