Imagina quatro pessoas sentadas juntas, todas de cara séria, todas jejuando, todas convencidas de que estão fazendo a coisa mais difícil do mundo e aí cada uma confessa baixinho qual é a tentação que ela está domando ali naquele momento. O que será que aparece quando a gente raspa o fundo da nossa própria virtude? A resposta nesse conto é que a tentação de cada um diz mais sobre quem ele é do que qualquer jejum poderia esconder. Deixa eu te contar, esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era Buda, quando ainda estava caminhando para se tornar Buda.
Nessas histórias ele aparece às vezes como rei, às vezes como sábio, às vezes como um simples animal na floresta e é sempre aquele que enxerga um pouquinho mais fundo do que os outros. Pois bem, conta-se que numa certa cidade viviam quatro pessoas que tinham combinado de observar o jejum sagrado, o Upozata. Você talvez conheça a ideia, dias certos do mês em que a pessoa se recolhe, come pouco ou nada depois do meio-dia, larga os prazeres e passa o dia cultivando a mente, guardando os preceitos, olhando pra dentro. É uma prática bonita, antiga, de limpar a casa por dentro. Esses quatro decidiram fazer juntos e eram gente de bem, gente respeitada.
Um deles era um homem rico, outro era um homem mais simples, da lavoura. O terceiro era um ministro desses que andam perto do poder e o quarto, esse era o nosso Bodhisatta, o futuro Buda, que naquela vida era um homem de discernimento conhecido pela calma e pela honestidade. Eles passaram o dia inteiro no jejum e à noite, já cansados, sentaram-se todos juntos num salão, descansando, conversando e aí um deles, reparando nas caras meio abatidas dos companheiros, soltou a pergunta. A gente tá aqui jejumando o dia todo. Mas me diz uma coisa, honestamente, o que cada um de vocês está realmente segurando aí dentro, qual é a vontade que tá batendo na porta e que vocês estão mandando embora.
E aconteceu uma coisa rara, cada um resolveu falar a verdade. O homem rico foi o primeiro, ele disse com um suspiro. Vou ser sincero, o meu jejum hoje foi um jejum de comida, mas a minha cabeça o dia inteiro esteve presa em dinheiro, eu fico calculando, somando, querendo mais. A minha tentação é a ganância, é essa fome que não é da barriga, é da posse. Eu jejuei de arroz, mas não jejuei de cobiça, o segundo, o homem do campo balançou a cabeça e falou, a minha é outra, eu sou de sangue quente. Hoje mesmo no dia santo, alguém me disse uma coisa atravessada e eu fervi por dentro, passei horas remoendo, imaginando o que eu ia responder, querendo revidar.
A minha tentação é a raiva, eu seguro a comida com facilidade, mas a raiva escapa pelos dedos. O terceiro, o ministro, abaixou um pouco a voz, porque o que ele ia dizer mexia com a posição dele. O Fordes, a minha falta é mais sorrateira, eu vivo perto do rei, perto de gente poderosa, e hoje, durante o jejum, o que me consumiu foi a vontade de subir, de agradar, de tramar para ganhar mais influência, foi a ambição, o apego ao prestígio, por fora eu pareço um homem devoto, por dentro, eu estava jogando o jogo do poder o dia inteiro. E então os três se viraram para o quarto, o Bodhisatta, esperando, ele ficou um instante em silêncio e depois falou, sem nenhuma vaidade.
A minha tentação eu também conheço bem, é a inquietação, é essa agitação miuda da mente que não paraquieta, que pula de pensamento em pensamento, que se incomoda com o silêncio, eu consigo segurar a comida, segurar a raiva, segurar a cobiça, mas a mente que não sossega, essa é a minha luta, e o que eu aprendi é o seguinte, o jejum verdadeiro não é o da boca fechada, é o da mente vigiada, a gente pode passar o dia sem comer e mesmo assim devorar o mundo com o desejo, com a ira, com a ambição, reconhecer a própria falta, dar nome a ela, isso já é metade do caminho. Quem esconde o defeito de si mesmo continua escravo dele, quem o enxerga começa a se libertar e os outros três ficaram calados, porque sentiram que ele tinha dito a coisa exata, cada um tinha confessado o seu veneno particular, a ganância, a raiva, a ambição, a inquietação, e o sábio mostrou que o valor daquele dia não estava em terem aguentado a fome, estava em terem tido a coragem de olhar para dentro e admitir, sem maquiagem aquilo que ainda os puxava, agora, repara no que esse conto está dizendo.
A gente vive numa época que adora a aparência da disciplina, tem gente que faz jejum intermitente e posta foto do prato vazio, tem gente que faz detox, que faz desafio de 30 dias que larga o açúcar, larga a bebida, larga a tela por uma semana e conta pra todo mundo, e olha, não tem nada de errado em cuidar do corpo, o problema é quando a gente confunde a fachada com a obra, a gente fica tão orgulhoso de ter resistido a uma coisa pequena que nem percebe que continua escravo das coisas grandes, você pode jejuar de comida e passar o dia inteiro mergulhado em raiva no trânsito, em inveja na rede social, em ganância olhando à conta do banco, em ambição querendo passar o colega pra trás.
O preceito, o sila, nunca foi sobre o estômago, sempre foi sobre o coração, e tem uma outra coisa que esse conto sussurra, a beleza de admitir a própria fraqueza em voz alta. A gente hoje vive numa cultura da imagem perfeita, onde confessar um defeito parece derrota, mas aqueles quatro homens cresceram justamente no momento em que disseram a verdade um pro outro, esconder o veneno é o que mantém ele vivo dentro da gente, dar nome a ele no claro, é o primeiro gesto de liberdade, aqui vai uma coisa pra hoje, antes de dormir, faz o que aqueles quatro fizeram, senta um mim e te pergunta, com toda honestidade, qual foi a tua tentação mais forte do dia, não a comida, não a tela, há de dentro, foi ganância, foi raiva, foi vontade de aparecer, foi aquela inquietação que não te deixa em paz, dá um nome a ela, em voz baixa, só pra você.
Você vai ver que no instante em que a gente reconhece o próprio veneno sem se justificar e sem se condenar, ele já começa a perder a força, esse é o Jejun que vale, não o da boca, mas o da mente que finalmente teve coragem de se olhar no espelho.