O brâmane generoso náufrago salvo por uma deusa

Budismo · Temporada 18 · Episódio 4 de 16 — em ordem cronológica

Você passa a vida dando sem esperar. Mas quando o chão some e você se vê à deriva, o que realmente te salva?

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Transcrição

Imagina que você passou a vida inteira dando, dando comida, dando abrigo, dando o que tinha sem nunca medir, e aí num dia qualquer você cai no meio do mar aberto, sozinho, sem barco, sem terra à vista, só água até onde os olhos alcançam. A pergunta é, quando tudo desaba, o que sobra de tudo aquilo que você plantou? Esse conto responde de um jeito que talvez te surpreenda, porque o que salva o Náufrago não é a força dos braços dele, é outra coisa. Deixa eu te contar, esse é um dos de atacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, ainda estava no longo caminho de se tornar um desperto.

Nessas histórias ele aparece às vezes como rei, às vezes como bicho, às vezes como gente simples. Aqui ele aparece como um homem chamado Sanka, um brâmane rico da cidade de Benares. Sanka era daqueles homens que a gente no fundo gostaria de ter por perto. Tinha riqueza, sim, mas o que ele fazia com ela é que importava. Bem no portão de casa, na entrada, no meio da cidade e nas quatro saídas dela, ele tinha mandado construir casas de doação. Seis pontos espalhados, seis lugares onde qualquer pessoa que chegasse com fome saía com a barriga cheia, mendigos, viajantes cansados, andarilhos sem destino, gente quebrada pela vida.

Todo dia ele dava, gastava, dizem milhares com isso, e não com a cara amarrada de quem cumpre obrigação, mas com aquele prazer genuíno de quem sabe que dar é o que faz a vida valer. Pois bem, um dia Sanka pensou consigo mesmo, a riqueza daqui de casa um dia acaba. Antes que acabe, vou buscar mais pra continuar dando. E como sempre acontece nesses contos, a ideia foi atravessar o mar até uma terra distante, a região de Suvannabumi, a terra do ouro, fazer comércio e voltar com os cofres cheios. Se ele mandou preparar um navio e na hora de sair de casa, aconteceu uma coisa pequena que vai ser o coração de tudo.

No caminho pro Porto, debaixo de um sol de rachar, ele cruzou com um passe cabuda, um desses sábio solitários que despertam por conta própria. O sábio caminhava descalço pela estrada quente, a areia queimando os pés, e Sanka viu aquilo. Repara, Sanka estava de pressa, indo embarcar pra uma viagem longa e arriscada. Tinha mil desculpas pra seguir reto. Mas ele parou. Mandou estender um assento, lavou os pés do sábio com as próprias mãos, ungiu com óleo perfumado, e então tirou os próprios sapatos, os sapatos que ele mesmo ia usar na viagem, e ofereceu ao sábio junto com um guarda-sol pra proteger do sol.

Deu o que era seu no momento em que ia precisar. E fez um pedido sincero do coração, que por esse gesto ele alcançasse, um dia a sabedoria perfeita. Guarda esse detalhe. Os sapatos, o guarda-sol, parece nada, mas nos jataques nada que vem do coração se perde. Sanka embarcou, sete dias de mar bom. E no sétimo dia, o navio começou a fazer água, uma rachadura, depois outra. A tripulação corria, gritava, achatava as bombas, mas o mar entrava mais rápido do que dava pra tirar. As pessoas se desesperavam, choravam, rezavam aos seus deuses, agarravam tábuas, e o barco afundava. Sanka não entrou em pânico.

Olha que coisa. Ele chamou um servo, pediu manteiga e açúcar, comeu até ficar bem saciado, deu de comer ao servo também, e os dois untaram as roupas com óleo pra aguentar mais tempo na água. Aí ele subiu no topo do mastro, calculou a direção da cidade, e quando o navio mergulhou de vez, ele saltou pra longe pra não ser sugado pelo redemoinho. E começou a nadar, sozinho, no oceano, em direção a uma terra que ele nem conseguia ver, sete dias inteiros nadando, sete dias. E mesmo ali, exausto com a água salgada queimando a garganta, ele não largou uma coisa, ele continuou observando o dia santo, mantendo os votos de virtude na mente sereno sem mal dizer ninguém sem se revoltar contra o destino.

Agora, naquele tempo, havia uma deusa chamada Mani Mekyala, aguardiando os mares, encarregada de proteger os virtuosos que naufragavam, pra que não morressem na água. Ela tinha ficado distraída, descuidada por sete dias, e de repente reparou em Sanka boiando lá embaixo, lutando. E ela pensou, se esse homem morrer no mar, eu serei culpada. Ela desceu, parou no ar diante dele, brilhando, e resolveu testá-lo. Diz se você está aqui no meio do nada, sem ninguém pra ver. Por que você se esforça tanto? Por que continua nadando, senão a terra vista? E Sanka, boiando, respondeu com uma calma que dá inveja.

Ele disse, mais ou menos assim, eu refleti sobre o mundo, e vi que o esforço é o dever de quem vive. Por isso, mesmo sem ver a margem, eu continuo me esforçando no meio do oceano. A deusa insistiu, o mar é vasto e profundo, a margem está longe demais, seu trabalho é inútil, você vai morrer antes de chegar. E ele respondeu o que talvez seja o miolo do conto inteiro. Quem faz o que pode, do jeito que pode, com toda a força que tem, não tem nada a se censurar. Nem se esforça até o limite, não é culpado nem perante os pais, nem perante os deuses. Eu compro o meu dever, o resto não está nas minhas mãos.

A deusa ficou encantada com aquela resposta. Não era teimosia cega, era um homem em paz, fazendo a sua parte sem garantia nenhuma de recompensa. E foi por causa disso e por causa de toda a generosidade que ele carregava que ela o ergueu. Criou um navio mágico cheio de tesouros, sentou Sanka nele e em pouco tempo o levou de volta a Benares, a própria casa dele, com riqueza maior do que ele tinha saído pra buscar. E Sanka, claro, dobrou as doações pelo resto da vida. Agora, repara no que esse conto está dizendo, porque é fácil ouvir e achar que é só uma história de milagre, de deusa que aparece e resolve tudo.

Não é bem isso, a deusa só apareceu porque ele já estava nadando. Ela testou se ele desistiria e ele não desistiu, mesmo sabendo que talvez não chegasse. Os budistas chamam isso de viria, a energia, o esforço reto, a coragem de continuar fazendo a sua parte sem exigir que o universo te entregue o resultado embrulhado. E tem a outra metade, que é o Dana, a generosidade, foram os sapatos dados ao sábio, foram as casas de doação, foi uma vida inteira de dar que construiu, gota a gota, a sorte que o salvou. E aqui é onde isso bate na gente hoje, a gente vive numa época viciada em garantia, só faz se tiver retorno certo, calcula o retorno antes de mover um dedo, mede a doação para ver se vale a pena, desiste do esforço no minuto em que o resultado não aparece rápido, e ainda reclama que a vida não recompensa, a gente que era deusa antes de pular na água.

Sanka pulou primeiro, nadou sete dias sem ver terra, deu os próprios sapatos sem saber que voltariam multiplicados, a recompensa veio porque ele agiu sem esperá-la, aqui vai uma coisa para hoje, pensa numa coisa boa que você vinha adiando justamente porque não tem garantia de dar certo, um esforço, um gesto de generosidade, um recomeço. Hoje faz a sua parte completa, do jeito que dá, sem cobrar do mundo o resultado. Nada mesmo sem ver a margem, porque como Sanka mostrou, quem se esforça até o limite não tem do que se acusar, e é justamente aí, no meio da braçada, que a Deusa costuma aparecer.