Imagina que alguém chega na frente dos teus olhos e leva embora a pessoa que você mais ama no mundo. E imagina que, no exato instante em que você sente o sangue subir, a fúria explodindo no peito, você tem a chance de revidar, você cederia, ou conseguiria, ali segurar a tua própria mão. Esse conto fala de um homem que teve essa cena diante dos olhos. E a escolha que ele fez é uma das mais difíceis que um ser humano pode fazer. Deixam-te contar. Esse é um dos jatacas. Os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, ainda estava no longo caminho de se tornar Buda.
A gente chama esse futuro Buda de Bodhisatta. E nessas histórias ele aparece ora como bicho, ora como gente. Aqui, ele aparece como um jovem que tinha tudo pra viver uma vida confortável e escolheu outra coisa. Conta-se que, em Benares, havia um brâmane riquíssimo. Tinha terras, tinha ouro, tinha tudo o que um homem podia querer. Só faltava uma coisa, um filho, ele e a esposa rezaram, pediram, esperaram. E veio o menino. Esse menino era o Bodhisatta, cresceu lindo, inteligente e sereno. Quando chegou a idade, os pais foram arranjar um casamento, como era o costume. E acharam uma moça de outra família tão rica quanto a deles, mas eis o detalhe.
Tanto o rapaz quanto a moça vinham do mundo dos bramas, de um plano de pureza. E nenhum dos dois tinha desejo pelos prazeres dos sentidos. O casamento foi feito pelas famílias, mas dentro daquela casa moravam um acordo silencioso entre os dois. Eles viviam como irmãos, como dois amigos no caminho. Não havia paixão entre eles, havia algo mais raro, respeito. Quando os pais morreram, o Bodhisatta olhou para tudo aquilo que tinha herdado, as pilhas de ouro, as casas, os celeiros cheios. E sentiu o peso daquilo, não a alegria. Ele mandou abrir os cofres e duou, duou aos pobres, aos viajantes, aos que tinham fome, esvaziou a casa com as duas mãos.
E aí, junto com a esposa, que pensava exatamente igual a ele, deixou a cidade. Os dois foram para a floresta viver como acetas, vestidos de cascas de árvore, comendo o que a terra dava, dormindo numa cabana de folhas. Viviam ali, em paz, cada um no seu canto, cuidando da própria mente. Até que um dia, andando, chegaram perto de Benares de novo e acabaram parando nos jardins do rei. O rei estava passeando por ali quando bateu o olho na moça e parou, ela era de uma beleza serena, dessas que não gritam mas que prendem o olhar. O rei sentiu o desejo subir na hora e mandou um servo perguntar quem era aquele acetacentado ali ao lado dela.
É um parente que saber o rei. O servo voltou com a resposta do Bodhisatta, que ela não era nada dele pelos laços do mundo, que tinham sido casados na vida lá fora, mas que agora viviam apenas como dois religiosos, sem nenhum vínculo de marido e mulher. Quando o rei ouviu isso, pensou consigo. Ah, então ela está livre, vou levá-la. E foi o que ele fez. Mandou os guardas. E eles simplesmente pegaram a moça e a levaram embora, a força, para o palácio. Ela chorava, gritava, lamentava, dizendo que aquilo era injusto, que aquilo era violência crua. O rei repara na cena, o Bodhisatta estava ali, ouvia os gritos da mulher com quem tinha dividido a vida inteira, via os guardas arrastando-a, e ele continuou sentado, quieto, sem se mexer.
Ele não correu atrás, não xingou, não amaldiçoou o rei, ficou ali, costurando uma peça de casca de árvore puída, com as mãos firmes, o rosto calmo, como quem remenda uma roupa numa tarde qualquer. O rei levou a moça para o palácio e tentou seduz-la com honrarias, com joias, com promessas. Ela não cedia, só repetia que não havia no mundo nada mais precioso do que uma vida de virtude, e que ela não trocaria isso por trono nenhum. Aí o rei, curioso, voltou ao jardim para ver o tal Aceta, e encontrou o Bodhisatta exatamente onde o tinha deixado, calmo, costurando, e aquilo incomodou o rei, ele se aproximou e quase cuspiu as palavras.
"Aceta, eu levei a tua mulher embora, levei a força, na tua frente, e você fica aí sentado, costurando uns trapos, sem dizer nada. Cadê a tua raiva? Você não é homem? Não tem sangue nas veias?" O Bodhisatta levantou os olhos devagar e disse, com uma voz sem nenhum tremor. Ela me foi tirada, sim, e eu senti subir em mim algo. Sentia a raiva nascer, como uma faísca, mas eu não deixei essa faísca virar fogo. Eu assegurei, porque a raiva, o rei, é como pegar uma brasa na mão para jogar em quem você odeia. Quem se queima primeiro é você. Eu não larguei a brasa para dentro do meu peito.
Eu a deixei apagar. E ele continuou, falando da ira como de um ladrão que entra na casa da gente. Disse que, quando a raiva nasce, ela parece que vem te defender, te vingar, te fazer justiça. Mas que, na verdade, ela só destrói quem a abriga. Disse que o difícil não é nunca sentir a raiva, porque ela vem, ela bate a porta de todo mundo. O difícil, e o nobre, é não abrir a porta para ela morar. O rei ficou olhando aquele homem, um homem que tinha acabado de perder a coisa mais querida e que, ainda assim, não tinha ódio dentro dos olhos. Só uma serenidade quase incompreensível. E ali alguma coisa rachou no peito do rei.
Ele sentiu vergonha, sentiu que tinha agido como um animal diante de um sábio. Mandou trazer a moça de volta. Na hora, pediu perdão aos dois e implorou que ficassem sob a sua proteção. Mas eles preferiram voltar pra floresta, pro silêncio, pra paz que ninguém pode arrancar a força. Agora, repara no que esse conto está dizendo. A gente vive num tempo em que a raiva virou quase uma virtude. Não leva desaforo pra casa, revida, você tem que se impor. A gente abre o celular e o que mais vê é gente furiosa, gente revidando, gente provando ponto. A indignação rápida virou moeda. E a gente confunde explodir, conter coragem, confunde gritar, conter razão.
Mas olha o que o Bodhisatta mostra. Ele não foi covarde, ele não foi morno, ele sentiu a raiva, ele reconheceu a injustiça, ele até falou na cara do rei, o que ele não fez foi deixar a brasa queimar por dentro. Essa virtude tem nome no caminho budista, carte, a paciência, a tolerância, a força de quem aguenta sem se deixar envenenar. Não é fraqueza, é a forma mais alta de força que existe, porque é muito mais fácil bater de volta do que segurar a própria mão, qualquer um cede a raiva, poucos adomam e tem uma coisa fina aí. A raiva não machucou o rei primeiro, ela machucaria o Bodhisatta, quando você se enche de ódio por causa do que o outro fez, é você que passa a noite sem dormir, é o teu peito que arde, é a tua paz que vai embora.
O outro nem sabe, a brasa está na tua mão, não na dele, aqui vai uma coisa pra hoje, hoje, em algum momento, alguém vai te tirar alguma coisa. Pode ser pequeno, vão te cortar no trânsito, vão te responder mal, vão levar o crédito de um trabalho seu e você vai sentir a faísca subir, quando ela subir, faz só isso, não responde no mesmo segundo, respira uma vez e pergunta pra você mesmo, baixinho, essa brasa vai queimar quem, vai queimar ele ou vai queimar a mim? Só isso, esse pequeno intervalo, esse meio segundo de pausa antes de revidar, é onde mora a liberdade, é ali que você deixa de ser arrastado e começa, de verdade, a ser dono da própria mente.