Imagina que o seu filho pequeno cai duro no chão, picado por uma cobra venenosa, o corpo já ficando rígido, e a única coisa que pode salvá-lo não é um remédio, não é um médico, mas uma verdade dita em voz alta, uma verdade tão exata sobre quem você realmente é que ela tem força pra puxar a criança de volta da morte. E aí vem a pergunta que faz o sangue gelar. Você teria, dentro de você, uma verdade assim, deixa eu te contar. Você tinha um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, e estava juntando vida após vida, as virtudes que um dia o levariam ao despertar.
Às vezes ele aparece como rei, às vezes como animal, às vezes, como nesta história, como um homem simples que escolheu um caminho difícil. Nessa vida, o Bodhisatta se chamava Canha de Payana. Quando jovem, ele e um grande amigo decidiram largar tudo, tinham riqueza, tinham família, tinham um futuro confortável traçado, e mesmo assim sentiram aquele aperto no peito que muita gente conhece e finge não sentir, o de que a vida estava passando, e eles estavam só acumulando coisas. Então deixaram a casa, vestiram um manto simples dos eremitas e foram viver na floresta, buscando a paz que nenhum bem material tinha conseguido dar.
Só que tem um detalhe nesse conto que é quase doloroso de honesto. Canha de Payana viveu como eremita por mais de 50 anos, 50 anos de floresta, de simples felicidade, de meditação. E, segundo a própria história, durante boa parte desse tempo ele não estava verdadeiramente feliz com a vida que tinha escolhido. Parte dele ainda olhava pra trás, ainda pensava nos prazeres que tinha deixado, ainda se perguntava se não tinha cometido um erro. Ele cumpria os votos por fora, mas por dentro havia uma insatisfação que ele nunca chegou a confessar a ninguém. Guarda essa informação, porque ela vai ser a chave de tudo.
Todos os anos, esses dois eremitas eram visitados de tempos em tempos por uma família que tinha grande devoção por eles. Um casal, um homem chamado mandavia e a esposa, e o filhinho pequeno do casal, um menino que adorava brincar perto da cabana dos acetas. Um dia, enquanto o menino brincava com uma bolinha rolando ela pelo chão de terra perto de um formigueiro, a bola entrou na toca e dentro da toca havia uma cobra. O menino, sem saber, enfiou a mão atrás do brinquedo, a serpente picou e o veneno se espalhou rápido, daquele jeito cruel que não dá tempo de fazer quase nada. O corpo da criança caiu, foi ficando duro, os olhos revirando e os pais, em pânico, pegaram o menino no colo e correram, correram para o único lugar onde acreditavam que podia haver salvação.
A cabana dos dois homens santos chegaram aos pés de canha tipaiana, desesperados e imploraram "Senhor, vocês são homens de vida pura, de longa renúncia, façam alguma coisa, salvem o nosso filho" e aqui o conto faz uma coisa linda e estranha ao mesmo tempo. Naquela tradição existia o que chamavam de ato de verdade. A ideia é seguinte, se uma pessoa diz em voz alta uma verdade absoluta sobre si mesma, uma verdade sem nenhuma falha, sem nenhuma mentira escondida, essa verdade tem poder real no mundo. Ela pode apagar fogo, pode parar chuva, pode curar veneno, mas só funciona se for verdade de verdade.
A menor mentira, o menor exagero e o ato perde toda a força. Então canha de paiana olhou para aquele menino quase morto, respirou fundo, colocou a mão sobre a cabeça da criança e disse a sua verdade, mas repara no que ele escolheu dizer. Ele não disse "eu sou um homem feliz e realizado", ele disse algo assim. É verdade que, com o coração cheio de alegria, eu vivi a vida santa apenas durante os primeiros sete dias. Todos os mais de cinquenta anos que vieram depois, eu vivi sem prazer nenhum nela, contra minha própria vontade. Por essa verdade que eu declaro, que o veneno se afaste e o menino viva, e aconteceu.
O veneno começou a recuar do peito da criança. O menino se mexeu, o pai vendo aquilo, entendeu que era a vez dele.