Imagina que três amigos prometem, jovens ainda, que vão dividir tudo o que a vida der para cada um. Se um subir, leva os outros junto. Agora imagina que um dele sobe muito mesmo, sobe a ponto de virar rei. Quando os outros dois vão bater na sua porta, lembrando da promessa, qual deles ele vai abraçar e qual ele vai mandar embora? Essa pergunta, nesse conto, separa quem honra a palavra dada de quem só lembra dela quando precisa de alguma coisa. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, vida após vida, juntando virtude.
Às vezes ele aparece como animal, às vezes como gente, aqui ele aparece como um homem chamado Nigroda e a história gira em torno de uma coisa simples e difícil ao mesmo tempo. À gratidão, havia num tempo antigo, três grandes mercadores numa cidade próspera. Cada um teve um filho e os três meninos cresceram juntos, das brincadeiras de criança até a amizade firme de homem feito. Os pais, vendo a confiança entre eles, decidiram unir as casas pelo casamento e houve uma jovem, filha de uma das famílias, que carregava no ventre uma criança especial. Quando essa criança nasceu, era o Bodhisatta, o futuro Buda.
Ela nasceu ao pé de uma grande figueira, dessas que os antigos chamavam de Árvore Nigroda e por isso recebeu o nome de Nigroda, no mesmo dia, ou quase, nasceram mais dois meninos das outras famílias amigas. Um deles ganhou o nome de Saka, o outro, Pótica, e os três cresceram, de novo como os pais haviam crescido, lado a lado, inseparáveis. Foram juntos estudar numa cidade distante e foi na estrada da volta que a história se decide. Vinha pela mesma estrada um homem velho, um brâmane que sabia ler os sinais da fortuna. Ele olhou para os três rapazes dormindo numa hospedaria e notou uma coisa.
Nigroda dormia com a cabeça pousada de um jeito e a sombra das outras coisas ao redor já tinha girado com o sol, mas a sombra que protegia o rosto dele não se movia, ficava parada, fiel, como se a própria luz cuidasse daquele menino. O velho entendeu o sinal, aquele ali tinha dentro de si o destino de Reinar, agora repara no que Nigroda faz com essa notícia. O brâmane poderia ter contado só para ele e ele poderia ter guardado a coroa só para si, mas quando soube que iria se tornar rei, a primeira coisa que disse aos amigos foi, quando eu subir vocês sobem comigo, o reino será de vocês também.
Não foi promessa solta de quem está com medo da estrada, foi a confirmação de uma amizade verdadeira que não enxerga a fortuna como algo para empilhar sozinho num canto e o destino se cumpriu. Chegando a uma grande cidade, encontraram o povo em luto e em busca, o rei tinha morrido sem deixar herdeiro e soltaram o carro real puxado pelos cavalos sagrados para que ele mesmo escolhesse o próximo rei. O carro andou, andou e parou diante de Nigroda. Os sacerdotes o coruaram ali mesmo e ele, fiel à palavra, fez saca seu comandante, o segundo homem do reino com honras e riquezas. A potica que naquele momento estava cuidando dos negócios da família lá longe, mandou avisar, quando ele vier, terá lugar de honra também, há um lugar guardado para ele.
Passa o tempo. Potica resolve, enfim, ir até a corte cobrar a sua parte da velha promessa, mas não procura o rei direto. Procura primeiro saca, o amigo de infância, agora comandante poderoso, para que ele o apresente. E aqui o conto vira, saca, vendo o velho amigo simples chegar, sentiu uma coisa feia subir no peito. Pensou, se esse homem entrar na graça do rei, vai dividir comigo o que hoje é só meu, vai me tomar parte do brilho. E em vez de levar potica até o rei, começou a humilhá-lo, mandou dar-lhe poucos goles de comida. Tratou-o como criado e disse que cuidaria de apresentá-lo depois, sempre depois, um depois que não chegava nunca.
Potica esperou, esperou de novo, e entendeu que a fortuna tinha estragado o coração do amigo. A promessa antiga, para saca, agora pesava como ameaça. Então potica fez a única coisa que lhe restava, foi sozinho até o portão do palácio, e mandou dizer ao rei que um velho amigo de infância pedia para ser visto. Nigroda, o rei, ouviu o nome, e na mesma hora largou o que estava fazendo. Recebeu potica com os braços abertos, sentou-o em lugar de honra, perguntou da família, riu das lembranças, e deu a ele riquezas e um cargo nobre, sem que potica precisasse pedir nada. A palavra dada lá na estrada, anos antes, o rei tinha guardado inteira, e foi potica quem, com cuidado, contou ao rei o que saca tinha feito, não com ódio mas com verdade.
Saca, o ingrato, foi descoberto. O rei, num primeiro impulso de justiça dura, pensou em punilo. Mas Nigroda, sendo bodiçata, escolheu o caminho da hante, da paciência e da bondade até com quem o tinha traído por inveja. Não mandou matar o amigo invejoso. Perdoou-lhe a vida e o deixou seguir, ensinado pela própria vergonha. Aos dois, o fiel e o ingrato, a fortuna tinha chegado pelas mãos de Nigroda. A diferença é que um soube ou honrá-la, e o outro quase a perdeu por não saber repartir. Agora, repara no que esse conto está dizendo, lá no fundo, ele fala de gratidão, dessa virtude meio esquecida que os antigos chamavam de saber reconhecer o que foi feito por você.
Saca não era um vilão de nascença, ele era um homem comum a quem a sorte sorriu e que em vez de dividir o sorriso fechou a mão, e é tão fácil a gente fazer o mesmo sem perceber. A vida melhora um pouco, a gente sobe um degrauzinho e de repente começa a olhar para quem está embaixo como ameaça. Não como gente, o sucesso, hoje, virou quase uma competição de quem chega primeiro e tranca a porta. A gente posta a conquista, mas esquece de mencionar quem segurou a escada e tem o outro lado, o de Nigroda, ele tinha todo o poder do mundo para esquecer um amigo pobre que aparecia anos depois cobrando uma promessa antiga.
Ninguém o cobraria por isso, mas ele lembrou, porque pra quem tem o coração no lugar, palavra dada não vence o prazo. A gratidão dele não dependia de plateia, não dependia de retorno, era só fidelidade, dessas que a gente vê cada vez menos num mundo que mede tudo pelo que pode receber de volta. Aqui vai uma coisa pra hoje. Pensa numa pessoa que segurou a escada pra você subir um degrau, qualquer degrau, na sua vida. Alguém que te ensinou, te indicou, te emprestou algo, te aguentou num momento difícil. E hoje, ainda hoje, manda uma mensagem pra essa pessoa só pra reconhecer, em voz clara, o que ela fez por você.
Sem pedir nada de volta, sem ocasião especial, só pra honrar a escada. Porque a fortuna, qualquer que seja a sua, fica mais leve e mais firme quando a gente lembra de quem nos ajudou a chegar nela.