O menino que envergonha o pai a cuidar do avô

Budismo · Temporada 18 · Episódio 8 de 16 — em ordem cronológica

O que você ensina ao seu filho quando ele te vê cavando um buraco? Ele está aprendendo, com suas próprias mãos, como te descartar quando você envelhecer.

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Transcrição

Imagina um menino, ainda pequeno, cavando uma cova no quintal com as próprias mãos. O pai chega e pergunta, "Filho, pra que serve esse buraco?" E a criança responde, "Com a maior calma do mundo, é pra te enterrar aqui, pai, quando você ficar velho, igual você quer fazer com o vovô, o que será que se passa no coração de um pai quando ele ouve uma coisa dessas, da boca do próprio filho? Deixa eu te contar." Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava no longo caminho de se tornar Buda. Naquele tempo a gente chama ele de Bodhisatta, às vezes ele aparece como um rei, às vezes como um animal na floresta, e às vezes, como nessa história, como uma criança pequena sabe além da idade, capaz de virar o coração de um homem adulto com poucas palavras.

A história acontece numa casa que, por fora, parecia uma casa comum. Morava ali um homem, sua esposa, o filho pequeno deles, e o pai do homem, um velho já curvado pelos anos, esse velho tinha trabalhado a vida inteira, tinha criado o filho, tinha juntado o pouco que tinha, tinha entregado tudo nas mãos do menino que agora era um homem feito. E o que ele recebeu em troca, na velhice, foi o desprezo. Porque a esposa do filho, a Nora, não suportava o velho, reclamava o tempo todo, dizia que ele sujava, que ele tocia, que ele comia demais, que cheirava mal, que era um peso, pingava no ouvido do marido, dia após dia, gota após gota, do jeito que a impaciência sabe fazer.

E o homem, fraco, foi se deixando levar, parou de ver no pai aquele que tinha lidado a vida, passou a ver só o estorvo que a esposa descrevia, até que um dia ele tomou uma decisão terrível, chamou o filho pequeno, esse menino que nessa história é o Bodhisatta, o futuro Buda, e disse, vamos os dois levar o vovô pra floresta, lá agentecava uma cova e deixa ele, o menino, ainda tão novo, ouviu aquilo sem entender de imediato a crueldade inteira, mas obedeceu porque era criança, e foi junto, colocaram o velho numa carroça, ou ajudaram a andar com dificuldade, e seguiram mata adentro, chegando num lugar afastado, o pai pegou a enxada e começou a abrir um buraco no chão, cavava com pressa, como quem quer terminar logo uma coisa de que tem vergonha, e aí, repara nesse momento, porque é o coração da história.

O menino se aproxima, pega a outra enxada, e começa a cavar também, cava com força, do lado, fazendo o seu próprio buraco. O pai para, confuso, e pergunta, filho, o que você está fazendo? Eu estou cavando a cova do vovô, pra que esse segundo buraco? E o menino responde, sem raiva, sem grito, só com aquela clareza desarmante das crianças, esse aqui pai, é pra você, quando você ficar velho, eu vou te trazer pra esse mesmo lugar, e vou te deixar uma cova, exatamente como você está fazendo com o vovô agora, eu estou só aprendendo com você, estou guardando o lugar, e o silêncio que caiu naquela floresta deve ter sido o silêncio mais pesado da vida daquele homem.

Porque de repente ele se viu, se viu inteiro, viu que estava ensinando ao próprio filho, com gestos, não com palavras, exatamente o que o filho faria com ele um dia, viu que toda crueldade que a gente planta volta pra colher na nossa própria velhice, viu o pai dele tremendo ali ao lado da cova, e se viu naquele mesmo tremor, daqui a uns poucos anos, abandonado pelo menino que agora cavava ao seu lado, o homem largou a inchada. As pernas fraquejaram, ele se ajoelhou diante do próprio pai, e pediu perdão, com lágrimas, soluçando como ele mesmo soluçava quando era criança e o pai o consolava.

Levantou o velho do chão, limpou a terra das roupas dele, e os três voltaram pra casa juntos, e dizem que daquele dia em diante o velho foi tratado com honra, com comida boa, com lugar quente, com paciência, e que a Nora, vendo a firmeza do marido transformado, também mudou. O menino, com uma frase só, tinha salvado três vidas, a do avô, a do pai, e a dela. Agora, repara no que esse conto tá dizendo, no coração dele tá uma virtude que o budismo guarda com muito carinho, a gratidão, e junto dela o cuidado com quem nos veio antes. Os antigos tinham um nome pra isso, Katanyuta, que é o reconhecimento de uma dívida de bondade.

A ideia é simples e profunda ao mesmo tempo. A gente não nasceu sozinho, não cresceu sozinho, não chegou aqui sozinho, houve mãos que nos seguraram quando a gente não sabia nem segurar a cabeça. E essas mãos, um dia, ficam tremulas e precisam das nossas. E é aqui que o conto belisca o nosso tempo, com gentileza mais belisca, porque a gente vive numa época que adora o novo e tem pressa com o velho. A gente terceiriza o cuidado, empacota os mais idosos em lugares distantes, responde rápido no telefone e desliga mais rápido ainda. A gente não cava covas na floresta, claro. Mas a gente cava distâncias, cava silêncios, cava aquele depois eu ligo que vira mês, que vira ano.

E o detalhe que o menino nos lembra, é cruel de tão verdadeiro, as crianças estão olhando, elas não aprendem com o que a gente fala sobre respeito, aprendem com o que a gente faz com os nossos próprios pais. A gente tá o tempo todo cavando o segundo buraco, ensinando no gesto como vamos ser tratados quando for a nossa vez de ficar curvado e lento. Aqui vai uma coisa pra hoje. Pensa numa pessoa mais velha da sua vida. Um pai, uma mãe, um avô, uma avó, um tio, alguém que já te segurou de algum jeito. E hoje, ainda hoje, faz um gesto pequeno e concreto por ela. Liga sem pressa de desligar, vai visitar, leva a refeição, senta e escuta uma história repetida pela décima vez sem revirar os olhos, faz isso sabendo que tem sempre alguém pequeno olhando, aprendendo com você qual enxada usar.

E faz principalmente porque um dia essas mãos te seguraram quando você não conseguia segurar nada. Devolver um pouco dessa bondade não é favor. É só gratidão encontrando o caminho de volta pra casa.