Imagina que alguém bate na sua porta e te entrega um punhado de ossos, dizendo que são os restos do seu filho, e que você, em vez de cair no choro, sorri com serenidade e responde que aquilo não pode ser o seu filho. Você acharia essa pessoa um monstro sem coração, ou será que existe uma forma de amor tão profunda e uma sabedoria tão firme que muda completamente o que a gente faz diante da morte? Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, mas estava no longo caminho de se tornar um. A gente chama essa figura de Bodhisatta, o ser que está despertando.
Em algumas vidas ele aparece como um animal, em outras como uma pessoa. Nessa aqui, ele nasce menino, numa família muito especial, e o nome dele é Damapala. Repara no nome. Damah é a verdade o ensinamento, o jeito certo de viver. E Pala é aquele que guarda, que protege, Damapala, o guardião da retidão. A história acontece numa aldeia de Bramanis, uma família conhecida em toda a redondesa por uma coisa que ninguém entendia direito. Naquela casa ninguém morria jovem. Geração após geração, todo mundo vivia uma vida longa e cheia. E quando a morte finalmente chegava, no tempo certo, na velhice, ninguém chorava, não tinha pranto, não tinha desespero, não tinha aquele luto que rasga por dentro.
Os vizinhos coxichavam, que gente fria seria essa. Que coração de pedra é esse que não derrama uma lágrima quando perde alguém? Aconteceu que um mestre famoso, um professor de uma cidade distante, ouviu falar dessa família e ficou curioso, mas curioso de um jeito ruim, sabe? Ele resolveu testar. Pegou uns ossos de cabra, embrulhou com cuidado e viajou até a aldeia. Chegando lá, foi falar com o pai de Damapala, o velho Braman, chefe da casa, e disse com a voz pesada de quem traz a pior das notícias. "Seu filho, o jovem Damapala, que estava estudando comigo, adoeceu e morreu. Eu trouxe os ossos dele, sinto muito.
Agora presta atenção no que aconteceu. O pai pegou os ossos, olhou, e começou a rir. Não um riso de loucura, um riso leve, quase de quem ouviu uma piada que não cola, e disse meu caro, deve ter havido um engano. Esses não são os ossos do meu filho, o meu Damapala não pode ter morrido." O mestre se irritou, ficou ofendido até. "Como assim não acredita em mim, eu vi com meus próprios olhos, você está negando a morte do seu próprio filho? Que pai é esse?" E o velho, sem perder a calma, respondeu uma coisa que é o coração inteiro desse conto. Ele disse, "Não é que eu não acredite na sua palavra, é que na nossa família, há sete gerações, ninguém morre jovem, ninguém parte antes da hora, e eu vou te dizer por que." "E se você não fala a casa, a gente não mente, a gente não fala a palavra dura, não fala mentira, não fala fofoca, não fala à toa, a gente não toma o que não foi dado, a gente cuida dos mais velhos com respeito, faz o bem aos vizinhos, divide o que tem com quem precisa, a gente não sede a raiva nem a ganância, a gente vive em retidão, ensila, a conduta limpa, e onde a vida é vivida assim, a morte não chega cedo, por isso eu sei, esse não é o meu filho." O mestre ficou ali parado sem entender, então a mãe falou, e o avô, e a avó, e a esposa, e os criados da casa, um por um cada um explicou a sua parte.
A mãe contou que desde que entrou naquela casa, nunca tinha levantado a mão nem o coração contra ninguém. O avô falou da sua honestidade nos negócios, de uma vida inteira sem enganar ninguém. A esposa de Dhamapala disse que jamais tinha desejado outro homem, nem mesmo em pensamento, nem no tríduo inveja de ninguém. Cada um descreveu, com simplicidade, o jeito de viver que sustentava aquela longevidade toda. Não era magia, não era sorte, era retidão, dia após dia, escolha após escolha. E o mestre, que tinha vindo pra zumbar, foi se desmontando por dentro. Ele percebeu que estava diante de algo verdadeiro.
Confessou, os ossos eram de cabra, Dhamapala estava vivo, são e salvo, estudando longe dali, ele só quis testar essa história que parecia boa demais pra ser real e pediu perdão. Saiu daquela casa transformado, levando aquele ensinamento como o tesouro mais valioso que já tinha encontrado em toda a sua vida de mestre. Agora repara no que esse conto está dizendo, ele não está dizendo que gente boa não morre, que se você for honesto vai viver pra sempre, isso seria infantil. O que ele está dizendo é mais sutil e mais fundo, a forma como a gente vive molda, a forma como a gente encara a morte, a família de Dhamapala não chorava de desespero não porque fosse fria, mas porque vivia tão alinhada com a verdade, tão em paz com a própria conduta, que a morte deixava de ser aquele inimigo aterrorizante.
Quando você não tem nada escondido, nenhuma dívida moral, nenhum arrependimento apodrecendo por dentro, a passagem fica mais leve, o medo da morte, muitas vezes, é o medo de uma vida mal-vivida, e olha como a gente hoje faz o caminho contrário. A gente passa a vida correndo atrás de garantias externas, seguro, plano, blindagem, controle de tudo. A gente quer comprar segurança, mas trata a própria conduta com descuido. Mente uma mentirinha aqui, leva uma pequena vantagem ali, fala mal de um, guarda rancor de outro e vai juntando sem perceber um peso invisível. E aí quando a vida aperta, quando a perda chega, a gente dizaba, porque por dentro não tem chão firme.
A família de Damapala tinha construído tijolo por tijolo, uma vida sem rachaduras, e é isso que dá serenidade diante de qualquer coisa, até diante da morte. Aqui vai uma coisa para hoje. Escolhe uma única área da sua conduta, a mais simples que for, e fica de olho nela por um dia inteiro. Pode ser a fala, hoje eu não falo mal de ninguém pelas costas, e não falo nada que eu sei que não é verdade, só isso. Repara em quantas vezes a vontade aparece, e em como é leve ir dormir sabendo que na quele dia você não deixou nenhuma rachadura. É assim, um dia de cada vez, que a gente constrói a casa onde nem a morte mete medo.