Alguém chega pertinho de você com a voz mais doce do mundo e começa a te elogiar. Que pernas lindas, que voz maravilhosa, que jeito de andar. E te convida pra descer da árvore pra ficar mais perto. Você desce? A resposta a essa pergunta, nesse conto, separa quem continua vivo de quem vira o jantar de alguém. Deixa eu te contar, esse é um dos jatacas. Os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda e estava só caminhando rumo a isso vida após vida. Às vezes ele aparecia como gente, às vezes como bicho. E nessa história aqui, repara só, ele aparece como um galo.
Um galo sábio, era assim. Numa certa floresta, perto de uma aldeia, vivia um bando enorme de galos selvagens, lá no alto das árvores, no meio dos galhos mais firmes. Eram muitos, e o líder de todos eles era o nosso Bodhisatta, o futuro Buda, que tinha nascido ali como o galo mais experiente do grupo. Um bicho atento, de olho vivo, daqueles que percebem o vento mudar antes da chuva chegar. Acontece que perto dali morava também uma gata. E essa gata era esperta de um jeito que não fazia bem a ninguém. Ela tinha um talento só, enganar. Aos poucos ela foi caçando os galos do bando, um por um.
Chegava mancinha, conversava bonito, e quando o coitado descia pronto, já era. O bando, que era enorme, foi mingando, foi ficando pequeno, até que sobrou só ele. O galo sábio, lá no alto, sozinho. A gata olhou para cima e pensou, esse aí é o último, e é o mais gordo, o mais bonito de todos. Esse eu não posso perder. Mas ela já tinha percebido uma coisa, esse galo não descia. Ele ficava lá em cima, quietinho, sem cair em conversa nenhuma. Então a gata resolveu mudar de tática. Se não dava para assustar, ela ia adular, ia derramar mel. Aí ela se aproximou do tronco, levantou a cabeça e começou, com a voz mais aveludada que conseguiu fazer.
"Ah, meu senhor galo, que criatura magnífica você é. Suas penas brilham como ouro ao sol. Seus olhos são duas joias. Sua voz, quando você canta de manhã, é a coisa mais linda dessa floresta inteira. Por que você fica aí em cima, tão sozinho, tão longe de mim? Desce. Eu queria tanto ser sua esposa, cuidar de você, ficar ao seu lado para sempre. Desce, meu querido. A gente vai viver feliz. Repara que conversa boa, que conversa redonda, bonita, cheia de afeto. Qualquer um se derreteria, mas o galo sábio não se mexeu. Ele olhou para baixo, calmo, e respondeu, "Senhora gata, que belas palavras.
Mas me diga uma coisa, você tem quatro patas e eu tenho duas. Gato e galo não se casam. Isso nunca se viu. O que é que você quer comigo de verdade? A gata, sem perder o jeito doce, insistiu. Ah, não é nada disso que você pensa. É amor, é só amor. Eu te admiro tanto. Desce, vem ficar comigo." E o galo, então, falou o que precisava falar. "Eu sei muito bem o que você fez. Você comeu todos os meus companheiros, um por um. Foi adulando cada um deles, com essas mesmas palavras macias, que você os trouxe para perto e os devorou. Esse seu elogio não é amor. É fome. Você não me quer como marido.
Você me quer como almoço. Pode ir embora. Eu não vou descer dessa árvore." E a gata, desmascarada, sem ter mais o que dizer, foi embora de rabo entre as pernas. O galo continuou lá, vivo, no alto, em segurança. Porque ele soube uma coisa simples. Ele soube ouvir o elogio sem se perder dentro dele. Agora, repara no que esse conto está dizendo. Ele não está dizendo que elogio é coisa ruim? Não é. O problema não é a palavra doce. O problema é a gente esquecer de perguntar de onde ela vem e o que ela quer. O galo não ficou bravo com a gata por ela ter elogiado. Ele só fez uma conta simples.
O que essa pessoa ganha me dizendo isso. Gato e galo não casam. Os fatos não batiam com a doçura. E quando os fatos não batem com a doçura, alguma coisa está sendo escondida ali no meio e olha como a gente vive cercado disso hoje. A gente vive numa enxurrada de elogio interessado. O aplicativo que diz que você é especial, único que merece, que só você, bem na hora de te cobrar. A propaganda que te chama de inteligente por comprar exatamente o que ela está vendendo. A pessoa que de repente fica simpática demais, generosa demais, bem no dia em que vai te pedir um favor grande. A gente está tão carente de ser visto, tão faminto de um elogio, que a gente desce da árvore correndo.
A gente larga a segurança do galho pela primeira voz macia que sobe do chão. E não é que a gente seja bobo. É que o elogio mexe com um ponto fraco de todo mundo. A vaidade abre a porta antes do juízo chegar. Por isso o galo é sábio, não porque ele despreza o carinho, mas porque ele não deixa o carinho desligar a cabeça dele. Ele escuta, agradece por dentro, e ainda sim pergunta. No budismo isso tem a ver com atenção plena, o sati, essa lucidez de ver a coisa como ela é e não como ela soa. A doçura é a embalagem, a pergunta é a verdade. Aqui vai uma coisa para hoje. Da próxima vez que alguém te encher de elogios e você sentir aquela vontade gostosa de descer da árvore, faz uma pausa antes, só uma respiração, e faz para si mesmo a pergunta do galo.
E que essa pessoa ganha-me dizendo isso? Se a resposta for nada, se for só afeto puro, então recebe, abre o coração, agradece de verdade. Mas se você sentir que tem uma fome escondida atrás daquela doçura, fica no seu galho. Surri, agradece, e fica. Você pode ouvir o elogio inteiro sem precisar virar o almoço de ninguém.